domingo, 9 de abril de 2006

talvez em chinês (II)


martin roemers

Lau, filho mais novo do velho Chong,
seduzido pela fogosidade de uma das
éguas selvagens, não resistiu. Montou-a.
Primeiro a passo seguido de trote.
Breve o galope. Quis domá-la. A queda
inevitável. Lau partiu uma perna.

E os tais vizinhos, todos-todos, os mesmos...
...
fitou-os imóvel e murmurou:
- Talvez... talvez.... talvez!

Nesses tempos, a China...
...
E o velho Chong, afagando a face ao filho,
fitou-os imóvel e murmurou:

- Talvez!


Obrigado, Chan, neto de Chong e
filho de Lau, meu amigo chinês de
Macau.
Até sempre.


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

sábado, 8 de abril de 2006

talvez em chinês


eugenio recuenco

Era muito velho o pobre Chong.
De precioso, muito precioso,
o bem mais precioso e único bem
sem preço,
possuía um cavalo, ganha-arroz
de cada dia.

Pela calada da noite, um dia...
...
manifestando a sua mais profunda
mágoa.
E o muito pobre velho Chong,
com o olhar espelho do arrozal
raso de água, fitou-os imóvel e
murmurou:
- Talvez!
. . .
E o velho Chong, menos pobre, com o olhar
espelho dum dia azul feito céu a acariciar
a garupa do cavalo e as ancas das seis
éguas selvagens, fitou-os imóvel e
murmurou:
- Talvez... talvez!

Até amanhã, meu velho amigo Chong.


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

sexta-feira, 7 de abril de 2006

a quente


eugenio recuenco

Abraso, vermelho de sangue e raiva.
Escrevo a quente como se malhasse em ferro à boca do fole.
Mas, a palavra martelada...
...
Escrever a quente é malhar em ferro frio:
parece que dobra a preceito...
e, de repente, quebra sem jeito...


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

quinta-feira, 6 de abril de 2006

um guia


eugenio recuenco

Quando o meu olhar é o guia dos
teus dedos...

Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 5 de abril de 2006

ser natureza


mãe natureza

seixo rolado da ribeira do sabor
partia e desnudava pinhão torrado
em penedo duro à sombra do chorão
naquele momento encharcado de suor

eu e o meu periquito-de-ombro
acolhidos naquela teia global
debicámos sementes e frescura
numa síntese perfeita natural
não ambiente meio mas inteiro

único ser pensante
senti-me
nem rainha nem centro
total interdependência
seixo chorão ribeira penedo e pinhão
pelos lados para cima frente trás e dentro
cúmplice na salvação de todos os seres


Daniel Sant'Iago

terça-feira, 4 de abril de 2006

vai à fava


eugenio recuenco

- Fazes-me aquilo? - insistia ele.
- Não insistas! - repetia ela.
- ...
- Dá-me vómitos! Engasgo-me! - repetia ela.
- Só uma vez... - insistia ele.
...
...eram favas...


(Este texto encontra-se publicado...

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segunda-feira, 3 de abril de 2006

saber esperar


ron mueck

saber esperar
hoje cá agora aqui
neste já momento futuro
nestes dias alucinantes
limo verde escorregadio

saber esperar
é o caminho mais seguro
para viver a esperança
desde que se saiba o que
se quer e se espere com
sabedoria


Daniel Sant'Iago

domingo, 2 de abril de 2006

vestígios


chema madoz

traços de lábios em batom vermelho
retraços de palha na camisola de lã
tracejado aroma de suores e perfume

vestígios do passeio febril desta tarde
vestígios testemunhas dum amor proibido

um medo atroz que esses vestígios te
façam sofrer e se assim for vou deixar
de te ter para não mais te magoar


Daniel Sant'Iago

sábado, 1 de abril de 2006

elevador do carmo


eléctrico, in FotoDigital 13

sentaste-te
mesmo à minha frente num elevador
do carmo sorrias leve a mente sem
esforço a olhares por dentro

cruzaste
o brilho verde...

perguntaste

ao porquê do meu sorriso...

desapareceste

por entre os carros...

renasci para um novo sorriso
enlevado sentido sem resposta
nem dor definitiva


(Este texto encontra-se publicado...

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sexta-feira, 31 de março de 2006

profissão de fé


chema madoz

Sexta-feira da quaresma.

Renunciar
será confirmar o não ou
negar o sim?

Renuncias à paixão?
Não renuncio!
Renuncias ao prazer?
Não renuncio!
Renuncias ao silêncio?
Não renuncio!

Renuncias ao desprazer?
Sim, renuncio!
Renuncias a dar razões?
Sim, renuncio!
Renuncias às certezas?
Sim, renuncio!

Renunciar é sinónimo de ser feliz!
Renunciar é responder sim ou não!

Mesmo na quaresma desta sexta-feira.


Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 30 de março de 2006

flores


chema madoz

para o dia das mentiras
dá-me um ramo de flores
de rosas ou túlipas negras

terei o cuidado de as
embeber em vinho e de as
entronizar em jarra de cristal

no dia das mentiras ao
acordar agasalharei as pétalas

queimarei os caules os espinhos


e partirei

Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 29 de março de 2006

ser mais livre


chema madoz

estreito o carreiro da falésia
do rio douro
em ondas sinuosas
percorrido como sonhado nessa
madrugada sem sono

o sonho cumprir-se-ia...


um limite apenas
não chorar...

nesse dia
fomos mais livres...

mais livre

gritei do alto da falésia

assustou-se a águia...

no regresso estava tudo como dantes


(Este texto encontra-se publicado...

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terça-feira, 28 de março de 2006

ser pessoa


nuno ferro, olhares

acolhi-me à sombra dos pinheiros mansos
colhi pinhões torrados...
desfolhei o olhar...
recolhi-me...
fundi-me em silêncio...
inteiramente corpo num espírito inteiro
e
renasci pessoa

(Este texto encontra-se publicado...

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segunda-feira, 27 de março de 2006

ser feliz


aloísio brito, olhares

todos queremos ser felizes
não somos seres felizes

a felicidade não existe

sondei...
encontrei
momentos fugazes...
momentos tenazes...
...
se sou feliz?
não sou!
tenho momentos felizes
em silêncio
com prazer
em mim


(Este texto encontra-se publicado...

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domingo, 26 de março de 2006

és uma besta


in fotodigital 13, "estrela"


dizias tu primo tibúrcio
meu urso
que a tua agenda electrónica...
último modelo da marca sanguessuga (sic)
... estava prenha de adresses e numbers
de senhoras donas e de meninos
bonitos...
que olhasse...
...
Tu não sendas messages destas?
Como se não tenho disso?
Estás fora de moda... Coitado!

Ó pá! Não me lixes!
Não me enfades!
Não me ofendas!
Não me fodas!


(Este texto encontra-se publicado...

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sábado, 25 de março de 2006

riscos


eugenio recuenco

deixa correr o risco de um beijo
beijo que...
... de um toque
toque que...
... de um grito
....contido
...
corridos os riscos em lugar isolado
deixaremos todas as dúvidas de lado


(Este texto encontra-se publicado...

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sexta-feira, 24 de março de 2006

aleg(o)ria


chema madoz

Anda cá, meu rapaz, anda cá!
...
Que se passa? Terás sarna?
Não te satisfaz esse osso?
...
Ah! Não é osso! É plástico?
É brinquedo tão eficaz...
...
Brinca, trinca e afinca
no osso esse dente roaz!
Mas...
Que voo! Zzzz
zzzás-catrapás-pás-pás!
...

Dá cá o osso, dá!
Toma! Vai buscar, vai!
Busca, busca! Dá cá ao dono!
Isso! Isso! Menino bonito!
Apetecível vida de cão!
Não é, meu velho
daniel, não é?

(Este texto encontra-se publicado...

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quinta-feira, 23 de março de 2006

diferente


eugenio recuenco

és diferente

és abrigo dum-não-sei-quê
bisturi cinzel ou laser
que...
és carne-e-osso
mas...
talvez os meus olhos
sejam palavras que
só tu lês


(Este texto encontra-se publicado...

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quarta-feira, 22 de março de 2006

o meu sorriso


chema madoz

confuso
chamei a terreiro
de dentro de mim
quem pensa e quem sente

pedi...

quem sente ouviu e sorriu
quem pensa calou e fugiu
...
agora entendo que o sorriso
sou eu


(Este texto encontra-se publicado...

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terça-feira, 21 de março de 2006

21 de março



hoje és primavera

renasceste sob mim
nesta manhã de maio
tronco de árvore em arco
coxas e dentes cerrados
marcas de lábios gemidos

debruçado por ti
encharcado em fios suados
fatigado na fadiga cansada
lascivo na carne serena

hoje és poesia

moldado nos braços e ouvido
descrevi sentidos de ternura
montanhas de neve eterna
regatos frescos de verdura
acariciei em círculos ternos
estreitei dedos afilados
aplanei mãos em palmas
torneei faces rosadas

olhei-te
terias adormecido
calei e deixei de te roçar
de novo um sorriso e repetiste

sonhei com o paraíso

respiração profunda
recostei-me no teu braço
adormeci

nesta manhã
nasceu a primavera e uma árvore
e ao meu bom dia
saudaste
fértil manhã
de vinte-e-um de março

daniel