sexta-feira, 21 de abril de 2006

insisto


eugenio recuenco

Já tudo foi dito sobre o amor todo.
Tudo!
Mas eu insisto (mais um que insiste...)!
...
Mas quero repetir o acto de amar
e não só mais um coito...

deixa insistir
até à exaustão
que o amor é loucura que
mata...
...
desespera
sacia...

deixa insistir

até mais não
que no amor
renasço...
...
deslaço

E, se...

Sabes, então, por que insisto...
Acredito que me olhas ao ler-me.

(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

quinta-feira, 20 de abril de 2006

esquecimento








nicolas de rosabon

Esqueci-me do dia dos teus anos.
Esqueci-me da prenda...
Esqueci-me da...
Esqueci-me.
E entristeci.
Não por te ver triste.
Não por me ter...

Mas...
... de ti.

(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

quarta-feira, 19 de abril de 2006

a bissectriz


o que se quer
nem sempre será o que se deve
nem sempre será o que se pode

querer
seria uma semi-recta
que partisse de um vértice
ângulo agudo recto ou obtuso
a que um lado se chamaria
dever
e ao outro
poder

não será a bissectriz de vida
porque o ângulo não se divide
em duas partes iguais nem nós
somos um simples transparente
conceito geométrico
nem por um triz


Daniel Sant'Iago

terça-feira, 18 de abril de 2006

sinais


avisos de alarme crus
pintas tintas na carne nua
círculos de trânsito triângulos
vermelhos verdes amarelos azuis
de pontuação pontos de interrogação
acenos insígnias trejeitos vestígios
sinais dos tempos
outros sinais

mas estes
são os sinais de ontem
dobre fúnebre de sinos
ao fim da tarde tristes
em campanário de aldeia
na despedida de corpo de Amiga
dolentes saudosos es pa ça dos
só dois tons de intervalo menor
repetia o primeiro mais em cima
respondia o segundo em tom baixo
assim
talim.... talim.... talão....
talim.... talim.... talão....

sons de meu tempo de menino que
agora repito ridículo sujeito a
gracejos brutescos de gente que
não sente o que eu sinto
de sino
sinais

Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 17 de abril de 2006

passo a passo


olhares

... foi de favo em favo
que escravo de abelhas
me deixei adoçar...

... foi de migalha em migalha
que escravo de mesas
me deixei açaimar...

... foi de ninho em ninho
que entre trancas de troncos
me deixei afundar...


Daniel Sant'Iago

domingo, 16 de abril de 2006

caminho no silêncio


chema madoz

na vinha
herdada do avô
na encosta virada a sul
desfolhei parras à cepa
desbaguei cachos engaço
esmaguei bagos em vinho
sumo e óleo de grainhas

difícil passo seguinte
a caminho de silêncios
...

da
vinha vazia de fora
infindo lugar exterior
para vazia consciência
um interior sem limite
....

e neste
mito progresso
sinto regressos vários
...

valem esforços diários
de clarificar caminhos
da interioridade valor

e morrer por amar quem


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

sábado, 15 de abril de 2006

onde o silêncio


"la vigne rouge" de van gogh

naquela encosta virada ao sul
plantou meu avô cepa estendal
de uva moscatel com bagos mil
passa em verde madurecida mel

naquela encosta virada ao sul
...

naquela encosta virada ao sul
...
mora o silêncio
...
onde não pára
nada
nem tão pouco
a ideia do
nada

nada de nada

anda de mão dada comigo
até à cepa de moscatel
perdi de vista

(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

sexta-feira, 14 de abril de 2006

sofrimento


in fotogigital 13

Bêbado, assassino,
incólume canino na prisão,
da puta filho e marido cabrão.

Devora-me a ânsia de vingança.
Quero-te retalhos de bisturi:
ali, torresmos a esmo...
brasas, aqui, ao lume...
cinzas negras, aí...
tragadas por cardume!

E, na tua ressurreição e do inferno,
que sejas maldito para a vida eterna !

Destino fatal?
Não há destino fatal!
Há a-bu-so-da-li-ber-da-de!

Lugar, tempo errado, coincidência?
Não-há-co-in-ci-dên-ci-as!
Por que não o teu filho mas sim o meu?
Talvez, então, percebesses que não há erro
no lugar, no tempo e na coincidência.

"Os meus pêsames..."
"Sentidas condolências..."
Não vos proíbo o falar e o choro!
Mas, para quê essas palavras surdas,
moucas, em lágrimas tão ocas?

Se eu chegar a muito velho,
quem me vai alisar as rugas,
aparar a baba,
mudar as fraldas?
Tu? Ou tu? Talvez tu?
E a ti, muito velho também,
quem te limpa o cu?
Alguém?


... estou exausto...
... dá-me um comprimido...
... quero adormecer bem fundo
e
acordar abraçado ao meu filho
porque
as saudades venceram a
vida

daniel

quinta-feira, 13 de abril de 2006

o peso dos sons


chema madoz

pesar
na palavra o peso do som
será tarefa de louco internado

seja

estende a mão esquerda e segura
na palavra amor um leve esvoaçar
de fofas...

estende a mão direita e segura
na palavra amor um furacão de paixão
sobre...


Balanceia as duas mãos.
Palavras não têm peso?
...

Gosto do teu gosto,
minha loucura,
minha louca!


(Este texto encontra-se publicado...

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quarta-feira, 12 de abril de 2006

ais


chema madoz

apetece-me ser deusa de tons
para uns ais palavra escrita
preciso do outro louco de ti
para jogar o jogo do tom que
a palavra escrita ai não tem

o brinquedo é ai interjeição expressão
...
primeiro o ai-de-suspiro
...
isso assim

agora o ai-de-dor
...
isso assim

por fim um ai-de prazer
...
pára pára pára páára jáá
isso assiiim ...
sim acabou o jogo do tom

fim


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

terça-feira, 11 de abril de 2006

surpreendeste-me


eugenio recuenco

Surpreendi-te?

Causei-te surpresa...
Provoquei-te com algo inesperado...

Fui imprevisível ou desconcertante?
Apanhado em flagrante?

Não dei por isso.
Por que não o confessaste logo?
Tinha-me sido mais fácil perceber o motivo...
Bastava atar o meu acto ou palavra ou...
ao teu olhar, esgar ou sábio parecer...

A surpresa foi pão ou pedra?
Se foi pão estava fresco e quente?
Se foi pedra que seja construção.
Se for construção que seja casa.
Se for casa que seja mansão.

Surpresa só surpresa... não!
Quero lágrimas ou sorriso.

E, agora, surpreendi-te?


Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 10 de abril de 2006

huamor


chema madoz

(Verbete para entrada no léxico impróprio
da Língua Portuguesa. Palavra nascida já
no século XXI...


Huamor. s.m. Palavra composta por
aglutinação (De humor+amor).
Comportamento...

és instrumento de sedução q.b.
sémen de humor em amor

és pitada q.b. de sal...

és dedada q.b...

és piropo...

és palavra parida...
és palavra regada...

serás palavra resistente à minha morte...
porque fruto maduro...
porque raiz...
nos silêncios da minha eterna ausência sentida



(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

domingo, 9 de abril de 2006

talvez em chinês (II)


martin roemers

Lau, filho mais novo do velho Chong,
seduzido pela fogosidade de uma das
éguas selvagens, não resistiu. Montou-a.
Primeiro a passo seguido de trote.
Breve o galope. Quis domá-la. A queda
inevitável. Lau partiu uma perna.

E os tais vizinhos, todos-todos, os mesmos...
...
fitou-os imóvel e murmurou:
- Talvez... talvez.... talvez!

Nesses tempos, a China...
...
E o velho Chong, afagando a face ao filho,
fitou-os imóvel e murmurou:

- Talvez!


Obrigado, Chan, neto de Chong e
filho de Lau, meu amigo chinês de
Macau.
Até sempre.


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

sábado, 8 de abril de 2006

talvez em chinês


eugenio recuenco

Era muito velho o pobre Chong.
De precioso, muito precioso,
o bem mais precioso e único bem
sem preço,
possuía um cavalo, ganha-arroz
de cada dia.

Pela calada da noite, um dia...
...
manifestando a sua mais profunda
mágoa.
E o muito pobre velho Chong,
com o olhar espelho do arrozal
raso de água, fitou-os imóvel e
murmurou:
- Talvez!
. . .
E o velho Chong, menos pobre, com o olhar
espelho dum dia azul feito céu a acariciar
a garupa do cavalo e as ancas das seis
éguas selvagens, fitou-os imóvel e
murmurou:
- Talvez... talvez!

Até amanhã, meu velho amigo Chong.


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

sexta-feira, 7 de abril de 2006

a quente


eugenio recuenco

Abraso, vermelho de sangue e raiva.
Escrevo a quente como se malhasse em ferro à boca do fole.
Mas, a palavra martelada...
...
Escrever a quente é malhar em ferro frio:
parece que dobra a preceito...
e, de repente, quebra sem jeito...


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

quinta-feira, 6 de abril de 2006

um guia


eugenio recuenco

Quando o meu olhar é o guia dos
teus dedos...

Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 5 de abril de 2006

ser natureza


mãe natureza

seixo rolado da ribeira do sabor
partia e desnudava pinhão torrado
em penedo duro à sombra do chorão
naquele momento encharcado de suor

eu e o meu periquito-de-ombro
acolhidos naquela teia global
debicámos sementes e frescura
numa síntese perfeita natural
não ambiente meio mas inteiro

único ser pensante
senti-me
nem rainha nem centro
total interdependência
seixo chorão ribeira penedo e pinhão
pelos lados para cima frente trás e dentro
cúmplice na salvação de todos os seres


Daniel Sant'Iago

terça-feira, 4 de abril de 2006

vai à fava


eugenio recuenco

- Fazes-me aquilo? - insistia ele.
- Não insistas! - repetia ela.
- ...
- Dá-me vómitos! Engasgo-me! - repetia ela.
- Só uma vez... - insistia ele.
...
...eram favas...


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

segunda-feira, 3 de abril de 2006

saber esperar


ron mueck

saber esperar
hoje cá agora aqui
neste já momento futuro
nestes dias alucinantes
limo verde escorregadio

saber esperar
é o caminho mais seguro
para viver a esperança
desde que se saiba o que
se quer e se espere com
sabedoria


Daniel Sant'Iago

domingo, 2 de abril de 2006

vestígios


chema madoz

traços de lábios em batom vermelho
retraços de palha na camisola de lã
tracejado aroma de suores e perfume

vestígios do passeio febril desta tarde
vestígios testemunhas dum amor proibido

um medo atroz que esses vestígios te
façam sofrer e se assim for vou deixar
de te ter para não mais te magoar


Daniel Sant'Iago