Ser palhaço não dói. Tintas meias ou de mais ou menos. Nariz vermelho de ping-pong ou copos. Carapuças enfiadas até às orelhas. Em públicas arenas ou espectáculos íntimos e gratuitos. Contigo a sós, ao ouvido, ou na roda dos amigalhaços... Até gargalhamos de nós próprios... Nós que acreditávamos que os risos eram sinais de momentos de alegria e felizes... Palhaços amados e queridos!
Ser palhaço não dói. O que dói é tomar consciência de que se é um parvo de serviço. Um ser ridículo. Um ser palha-de-aço, um ser esfregão de fumaças de chamas amarelas ou de esturros negros de fundo de panelas e tachos... Palhaços de ocasião e aos fogachos!
Ser palhaço não dói. O que dói profundamente é ser palha, esfregão, aço tenro e ter disso consciência. No momento do desprezo, estoiram os balões dos sonhos de sabão. Restam salpicos que se enxugam com mata-borrão a que se chega um fósforo aceso para que as cinzas do desnorte se ventem forte.
Meninos e meninas, senhoras e senhores! Estimado público aqui presente! O circo fracasso tem a subida honra de vos apresentar... ... os palhaaaaaaaaaaaaaaços! daniel
- Tantas lágrimas... Por que choras? Que mal te fiz ? Diz! - (...) - Que foi que aconteceu? Que te deu? - (...) - Tens dores? Onde te dói? Sofres? - (...) - Não respondas que não foi nada... - (...) - Que pranto! Morreu alguém?
- Espera um pouco...
- Não me digas que são lágrimas de crocodilo... Pareces uma manhã de orvalho... Um rio de gotas essas lágrima a fio...
- Espera mais um pouco... Sufoquei...
[Brincou nervosa com a lágrima que trazia ao pescoço... Um pingente. Sinal presente de um-dia-de-não-sei-quê...]
- Não te assustes! Cheirei o frasco do amoníaco... Falta de siso! Só isso!
[Desdobrou o riso em gargalhadas. Chorou de riso. Outras lágrimas.]
no bar frente ao mar uma bica pequena cremosa morena sem açúcar amarga um quadrado de chocolate quase cacau amargo prova sorve saboreia que tal? o amargo é delicioso!
beijei teus lábios amargos
na estrada para o cabo uma azeda na berma do caminho caule verde fino sob pétalas amarelas azedo ... que tal? o azedo é delicioso!
beijei teus lábios azedos
na serra nua junto ao convento este caule mais grosso de seiva láctea acre e doce ... o agridoce é delicioso!
beijei teus lábios amaros e doces
... prova sorve saboreia que tal? não é semi-frio é muito doce e semi-quente!
beijei teus lábios muito (Este texto encontra-se publicado... ... no meu livro)
Não me julgues! Nunca! Não me julgues pelo meu comportamento! Não me julgues porque te dizes meu amigo... Como se ser-meu-amigo te desse o direito de me julgares e de seres justo ou injusto!
Mesmo amigo, não conheces o meu pensamento a não ser que eu to diga e consiga confessar tudo! ...
... O pensamento é o pensamento! O comportamento é o comportamento!
Nem venhas com essa de que não julgas a pessoa... ...
Não me julgues... Nem porque te pareço santo nem porque te pareço uma merda.
Os santos também perdem os amigos! E a merda não é flor que se cheire! (Este texto encontra-se publicado... ... no meu livro)
(texto um) escalada penosa a da encosta dum vulcão julgado acessível no entanto ... e ... queimei os dedos na lava rubra do vulcão julgado adormecido
(texto dois) escalada penosa a da encosta dum vulcão julgado acessível no entanto ... e .... queimei os dedos na lava rubra do teu vulcão ... (Este texto encontra-se publicado... ... no meu livro)
- Que queres dizer? - Foi só um desabafo... - Não. Uma ameaça! Ela expressou a emoção. Chorou. Emoção de si. A emoção.
- Sinto-me triste, tensa. Um mal-estar imenso... - Foi um desabafo... - Não. Foi uma ameaça servida quente! Lábios trémulos. Face vermelha. Olhar no chão. Ela sentiu o sentimento. O mesmo. Já sentido. Sentimento de si. O sentimento.
- Sais tu ou saio eu? - Um desabafo... - Decide. Tu ou eu? Ela conheceu o sentimento. O mesmo. Já conhecido. Conhecimento do sentimento. Conhecimento de si. A consciência. Daniel Sant'Iago
paulo césar (redimensionada) - Hoje, não me apetece escrever sobre nada. - ... - Sobre o fogo? Não! Já escrevi... - ... - Porque se grito fogo... dá aflição! Incêndio! Tiro! - ... - Só se for sobre um fogo fogoso, ofegante, sufocante... - ... - Está bem! Eu escrevo! O fogo que sinto é... doce e... - ... - Não... Iria abrir fogo, atiçar as chamas, brincar com o fogo... - ... - Não! Hoje, não! Não me apetece!
nem os teus nem os meus nem os teus e meus haveres nem os nossos poderes e saberes nos impedem de ultrapassar o limite imposto obstáculo ... e mesmo que nos soltássemos à desfilada num correria louca cavalgada infindável assaltando... era chegada a hora à decisão inadiável sorrir juntos ou sofrer separados
tu eu sei que me choras eu também e não só de madrugada lágrimas... para tarde ou cedo te aplacar a sede (Este texto encontra-se publicado... ... no meu livro)
basic instinct na noite da última fila duma sala de cinema perto senti tu vestida nua eu uma mão a tua (Este texto encontra-se publicado... ... no meu livro)
não resisti à oferta dum pêssego fruto do pessegueiro do teu pomar carnudo sumarento rosáceo e maduro envolto em penugem sedosa que acamei de cima a baixo e do centro aos lados
rodei-o nas palmas das mãos e...
escorreu o aroma do suco pelos dedos e nas pontas sorvi-o gota a gota pingo a pingo solto o caroço suguei-o... .
e foi então que esfomeado...
ao caroço enterrei-o debaixo do pessegueiro com a esperança de que no próximo ano não precises de mo mostrar e eu o possa arrancar sem ter que to pedir (Este texto encontra-se publicado... ... no meu livro)