segunda-feira, 22 de maio de 2006

... duas hipóteses para um fim...


- Aqui?
- Sim...
- Que surpresa!
- A primeira...

- E a segunda?
- Dois bilhetes de avião... Estes!
- Dois?
- O outro é pra ti...

- Quando?
- Hoje. Agora. Daqui a duas horas...

- O quê?
- É a terceira surpresa...
- E as malas?

- Sem malas...
- E o dinheiro?
- Cartões...
- Não posso! A agenda... cheia de compromissos.
- Troca os compromissos por mim...
- És imprevisível, desconcertante...
- Vamos?
- Quando o regresso?
- Os bilhetes são só de ida...
(...)

( hipótese um para um fim)
- De que mais gostaste?
- De ti e da segunda noite em paris...
- Que doidos... na noite!

( hipótese dois para um fim)
- Não vou!
- Está bem! Rasgo os bilhetes!
- Vamos para casa. O jantar... A telenovela... O cansaço... cama!
- Vamos. O jantar... O futebol... O cansaço... cama!
- Amanhã é outro dia...
- Será...

E, no dia seguinte, foi outro o dia.

daniel

domingo, 21 de maio de 2006

a água de um mago


eugenio recuenco

magia de um sedutor

das minhas palavras
ao teu semblante


desgosto de vida em recolhimento

traços de água transparente

água de um mago

mágoa

daniel

sábado, 20 de maio de 2006

parvo de serviço


(autor desconhecido) "ridículo"


Ser palhaço não dói.
Tintas meias ou de mais ou menos. Nariz vermelho de ping-pong ou copos.
Carapuças enfiadas até às orelhas. Em públicas arenas ou espectáculos íntimos e gratuitos.
Contigo a sós, ao ouvido, ou na roda dos amigalhaços...
Até gargalhamos de nós próprios...
Nós que acreditávamos que os risos eram sinais de momentos de alegria e felizes...
Palhaços amados e queridos!

Ser palhaço não dói.
O que dói é tomar consciência de que se é um parvo de serviço.
Um ser ridículo. Um ser palha-de-aço, um ser esfregão de fumaças
de chamas amarelas ou de esturros negros de fundo de panelas e tachos...
Palhaços de ocasião e aos fogachos!

Ser palhaço não dói.
O que dói profundamente é ser palha, esfregão, aço tenro e ter disso consciência.
No momento do desprezo, estoiram os balões dos sonhos de sabão. Restam salpicos que se enxugam
com mata-borrão a que se chega um fósforo aceso para que as cinzas do desnorte se ventem forte.

Meninos e meninas, senhoras e senhores!
Estimado público aqui presente!
O circo fracasso tem a subida honra de vos apresentar...
... os palhaaaaaaaaaaaaaaços!

daniel

sexta-feira, 19 de maio de 2006

monólogo dois


louis runemberg, "venus fauve"

fome e sede sem medida a atracção pelo abismo
a paixão

fome e sede saciadas sem sinal doutra promessa
o amor

momento em fuga que se rende à memória
a saudade

consome-me a saudade da sede e da fome

daniel

quinta-feira, 18 de maio de 2006

lágrimas em contexto


paco labiano, lágrimas

- Tantas lágrimas... Por que choras? Que mal te fiz ? Diz!
- (...)
- Que foi que aconteceu? Que te deu?
- (...)
- Tens dores? Onde te dói? Sofres?
- (...)
- Não respondas que não foi nada...
- (...)
- Que pranto! Morreu alguém?

- Espera um pouco...

- Não me digas que são lágrimas de crocodilo... Pareces uma manhã de orvalho... Um rio de gotas essas lágrima a fio...

- Espera mais um pouco... Sufoquei...

[Brincou nervosa com a lágrima que trazia ao pescoço... Um pingente.
Sinal presente de um-dia-de-não-sei-quê...]

- Não te assustes! Cheirei o frasco do amoníaco... Falta de siso! Só isso!

[Desdobrou o riso em gargalhadas. Chorou de riso. Outras lágrimas.]

Acreditaste.
Nas minhas lágrimas de amoníaco.

daniel

quarta-feira, 17 de maio de 2006

como ver-te



comover-te
como ver-te
com o ver-te

como se comover-te fosse
ver-te com o olhar
comer-te com os olhos

afinal
comover-te foi
pôr-me-e-te em movimento
abalar-te-e-me
e
no momento de abalar
não comer
para não te voltar a ver

daniel

terça-feira, 16 de maio de 2006

beijos de sabores


olhares (autor deconhecido)

no bar frente ao mar
uma bica pequena cremosa morena sem açúcar
amarga
um quadrado de chocolate quase cacau
amargo
prova sorve saboreia
que tal?
o amargo é delicioso!

beijei teus lábios amargos

na estrada para o cabo
uma azeda na berma do caminho
caule verde fino sob pétalas amarelas
azedo
...
que tal?
o azedo é delicioso!

beijei teus lábios azedos

na serra nua junto ao convento
este caule mais grosso de seiva láctea
acre e doce
...
o agridoce é delicioso!

beijei teus lábios amaros e doces

...
prova sorve saboreia
que tal?
não é semi-frio
é muito doce e semi-quente!

beijei teus lábios muito


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

segunda-feira, 15 de maio de 2006

mel de aguarela



uma aguarela
flor abelha amarela vermelha labor

sugado o néctar da flor vermelha amarela
a abelha não destrói nem a cor nem o perfume

extrai o mel
da aguarela

daniel

domingo, 14 de maio de 2006

manhã de assis


ding musa - "fundo infinito"

que

a dor seja água
e a mágoa flor

a prisão seja...
...
que seja
assis

daniel

sábado, 13 de maio de 2006

um brinquinho a azul


As palavras...
pedras que se estilhaçam
contra os muros,
contra o peito
que incendiaste e
deixaste por lavrar.




O'Sanji, Aqui

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Não me julgues...


chema madoz

Não me julgues!
Nunca!
Não me julgues pelo meu comportamento!
Não me julgues porque te dizes meu amigo...
Como se ser-meu-amigo te desse o direito de
me julgares e de seres justo ou injusto!

Mesmo amigo, não conheces o meu pensamento
a não ser que eu to diga e consiga confessar tudo!
...

...
O pensamento é o pensamento!
O comportamento é o comportamento!

Nem venhas com essa de que não julgas a pessoa...
...

Não me julgues...
Nem porque te pareço santo
nem porque te pareço uma merda.

Os santos também perdem os amigos!
E a merda não é flor que se cheire!


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

quinta-feira, 11 de maio de 2006

dois vulcões



(texto um)
escalada penosa a da encosta dum vulcão
julgado acessível
no entanto
...
e
...
queimei os dedos na lava rubra do vulcão
julgado adormecido

(texto dois)
escalada penosa a da encosta dum vulcão
julgado acessível
no entanto
...
e
....
queimei os dedos na lava rubra do
teu vulcão
...


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

quarta-feira, 10 de maio de 2006

....não a tudo menos...


ron mueck

nega que
é certa a morte
nega que
a água mata
nega que
a fome vive

nega tudo

não negues jamais que te amo


Daniel Sant'Iago

terça-feira, 9 de maio de 2006

emoções... sentimentos... consciência...


ron muek

- Depois... não te queixes!

- Que queres dizer?
- Foi só um desabafo
...
- Não. Uma ameaça!
Ela expressou a emoção. Chorou.
Emoção de si.
A emoção.

- Sinto-me triste, tensa. Um mal-estar imenso...
- Foi um desabafo...
- Não. Foi uma ameaça servida quente!
Lábios trémulos. Face vermelha. Olhar no chão.
Ela sentiu o sentimento. O mesmo. Já sentido.
Sentimento de si.
O sentimento.

- Sais tu ou saio eu?
- Um desabafo...
- Decide. Tu ou eu?
Ela conheceu o sentimento. O mesmo. Já conhecido.
Conhecimento do sentimento. Conhecimento de si.
A consciência.


Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 8 de maio de 2006

monólogo um


paulo césar (redimensionada)

- Hoje, não me apetece escrever sobre nada.

- ...


- Sobre o fogo? Não! Já escrevi...


- ...


- Porque se grito fogo... dá aflição! Incêndio!
Tiro!


- ...


- Só se for sobre um fogo fogoso, ofegante,
sufocante...


- ...


- Está bem! Eu escrevo! O fogo que sinto é...
doce e...


- ...


- Não... Iria abrir fogo, atiçar as chamas,
brincar com o fogo...


- ...


- Não! Hoje, não! Não me apetece!


Daniel Sant'Iago

domingo, 7 de maio de 2006

amêndoa


camilla sposati, árvore

uma amêndoa é semente amarga

lançada à terra
apodrece
e
renasce
árvore em flor

moura encantada
doces de amêndoa
olhos amendoados
forma semente
cor da flor

amarga era a amêndoa


Daniel Sant'Iago

sábado, 6 de maio de 2006

cuida de mim... não me cures


di cavalcanti

... porque se me curares deixas de te preocupar
comigo
eu
que te afligia

... porque se me cuidares continuas a olhar
por mim
sem fim


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

sexta-feira, 5 de maio de 2006

o sofrimento é o limite


rubens gerchman "casal intenso"

nem os teus nem os meus
nem os teus e meus haveres
nem os nossos poderes e saberes
nos impedem de ultrapassar o limite imposto
obstáculo ...

e


mesmo que nos soltássemos à desfilada

num correria louca cavalgada infindável
assaltando...

era chegada a hora à decisão inadiável

sorrir juntos ou sofrer separados

tu eu sei que me choras
eu também e não só de madrugada
lágrimas...
para tarde ou cedo te aplacar a sede


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

quinta-feira, 4 de maio de 2006

... numa sala de cinema perto de...


basic instinct

na noite da última fila
duma sala de cinema
perto
senti
tu
vestida nua
eu
uma mão
a tua


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

quarta-feira, 3 de maio de 2006

pêssego-de-aparta-caroço


"wikipedia"

não resisti à oferta dum pêssego
fruto do pessegueiro do teu pomar
carnudo sumarento rosáceo e maduro
envolto em penugem sedosa que acamei
de cima a baixo e do centro aos lados

rodei-o nas palmas das mãos e...

escorreu o aroma do suco pelos dedos e nas
pontas sorvi-o gota a gota pingo a pingo solto
o caroço suguei-o... .

e foi então que esfomeado...

ao caroço enterrei-o debaixo do pessegueiro com a
esperança de que no próximo ano não precises de mo
mostrar e eu o possa arrancar sem ter que to pedir


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)