quinta-feira, 1 de junho de 2006

mais um dia... o teu

ron mueck

queridos os frutos de paixões partilhadas

frutos do prazer paridos nas dores
amadurados frutos frutados
os frutos

os nossos frutos
de ti mãe frutos de mim pai
frutos semente para novos frutos
os filhos

os vossos frutos
de ti filho e de ti filha
frutos de açúcar e mel cobertos
os netos

daniel

quarta-feira, 31 de maio de 2006

um recorte amarelecido por 25 anos...



Recorte duma notícia crua publicada em 81, in...

"No Hospital de Belfast, Irlanda do Norte, uma criança de 12 anos,Carol Kelly, morreu, na passada terça-feira, devido às lesões de balas de plástico..."

Não me interessa o lugar... Por que não aqui?

Não me interessa a data... Por que não ontem?

Não me interessa o nome... Por que não Carolina?

Não me interessa o plástico...
Como se balas de plástico não matassem!

Tudo isto porque um menino me disse, a rir, que aquele brinquedo empunhado...
não matava... não era a sério... só plástico a fingir...
não disparava... não eram tiros... só barulho...
não comprava ele... não chegavam as moedas do mealheiro ...

Foi há 25 anos?
Ainda bem... que hoje este escarro já não acontece!
Sou demagogo?
Ainda bem... que sou o único que vegeta por aí!

Bom dia, Carol! Amanhã é teu o dia!
Outros dias da criança virão em que as notícias amarelecidas serão verdes como um prado e azuis como o mar e o teu céu!

Daniel Sant'Iago

terça-feira, 30 de maio de 2006

a lenda do arco-íris



o pincel um raio de sol
na paleta...

o modelo um menino


numa mão...

na outra o arco colorido
na íris... o arco reflectido

assim
nasceu o arco-íris


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

segunda-feira, 29 de maio de 2006

"Sem-ossos"... alcunha de menino


chema madoz

"Sem-ossos" era alcunha dum menino. Onze anos.
Corria a lenda pela escola:
- Foi num enxerto de porrada dado pelo pai...
Nunca me confirmou o enxerto. Limitava-se a
esclarecer:
- Perdi uns ossos num traumatismo craniano...
Nunca aprofundei a causa.
Poderia ser verdade...

Naquele dia, entrou no gabinete acompanhado
por um colega meu:
- Deixo-te aqui esta encomendinha...
- Outra?
- Ele que ta conte!

Confessou tudo não escondendo qualquer pormenor
mais importante. De início, fiquei desarmado com
a verdade e com o olhar molhado do "sem-ossos".
Fraquezas...
Conversei, calmo. Subi o tom de voz. Ralhei.
Barafustei. Passei-me.
E uma lapada esteve por um triz...

Contive-me nem sei como...
O menino esperava qualquer desenlace.
Das palavras à acção. Do ralhete à suspensão.
Acreditem! Não era caso para menos...

Mas não. Nada de mais grave aconteceu.
Num instante, sem eu o prever, lançou-se ao meu pescoço
e a chorar:
- Seja o senhor o meu pai...
- Desaparece já daqui para fora! Ala! Não te quero aqui outra vez!

Já deve ter ouvido o resto da ralhete depois da porta
do gabinete. E ainda bem... não fosse o "sem-ossos"
ver-me chorar e perguntasse com o seu ar de menino:
- Por que está a chorar?
E eu não soubesse reponder...

Tenho a certeza de que o hei-de encontrar um dia
e saberei pela verdade dele por que razão disse
o que disse. E, sobretudo, fez o que fez...

Ainda hoje, estou por saber se a frase revelava
a sua vontade ou se foi o argumento daquele dia
para se safar das consequências de mais uma malandrice...

Se o virem por aí, digam-lhe que preciso
de falar com ele para que me conte a verdade...

Tinha só onze anos
o meu menino traquinas
alcunhado de "sem-ossos".

daniel

domingo, 28 de maio de 2006

sou uma criança


autor desconhecido

a criança de
ontem
perdura
ainda
na criança que resiste

amanhã
socorrer-me-ei
da criança que sempre fui

daniel

sábado, 27 de maio de 2006

ossos ou caroços ou vice-versa


eugenio recuenco

Ele:
Três anos e uns pós. Dez réis de gente com
quatro palmos
e uma língua de trapos esfarrapada.
Ela:
Sessenta e tais e com flocos de neve eterna
nos
cabelos. Uma língua numa fértil imaginação.

Ele:
Saltou para os bicos dos ténis. Puxou pelo poial
de mármore que cedeu às pontas dos dedos. Num
alguidar
amarelo de plástico, boiavam a fruta
da sobremesa e as
pontas do queixo e do
arrebitado nariz.

Ela:
Trinchava, para o jantar, o frango assado de comer
à mão,
junto ao puto e às cerejas e às ginjas.
Suava do calor
do fogão e das infindas
perguntas do neto.


- Ó avó, as cerejas têm ossos, não é?
- Não, fofo. As cerejas têm caroços.

- Ó avó, o frango tem caroços, não é?
- Não, fofo. O frango tem ossos.

- Não, avó! As cerejas têm ossos e o frango tem caroços!
- Está bem, fofo... Mas só hoje... até ires para a cama.

Ele... sorriu malandreco.
- Já te enganei, avó...
- Pois já...
Sorriu babada...
ela.

(...)

Ela:
- Era uma vez um frango que tinha caroços no papo...
Ele:
- Pois era... Os caroços das cerejas do jantar...

Eu:
Vi a ternura crescer com a lua.

daniel

sexta-feira, 26 de maio de 2006

minha indira indiana




Ónix o cabelo sob esmeralda do véu do teu sari.
Canela a tez num corpo em espirais de incenso.
Safiras num olhar de especiarias.
Indiana hindu
em nova deli.
Agosto de noventa e nove.
Nos sorrisos trocámos os nomes.
Indira.Daniel.
Palavras num canto de mantra com sitar.

Com que languidez te doaste após...
... o desdobrar de cinco metros de comprido por um e vinte de largo dum sari brocado de seda tingida com sensualidade de açafrão...
... o abrir de botões de coco...
... o descalçar de sandálias de couro.

Eu vi!
A pele era canela e a noite âmbar...

daniel

quinta-feira, 25 de maio de 2006

outro quase nada


ismael nery

na seda em flor da tua pele
aflorei meus dedos de mel
em mil amoradas carícias
e
do abismo das minhas mãos
só transbordou meiguice
uma face dum prisma
o amor

daniel

quarta-feira, 24 de maio de 2006

mata-me a sede


maurício ianês

quanta sede sou
contorcido em cortiça ressequida

dá-me de beber
naquela púcara de barro porosa
bojuda roliça sem asa

enleada nos teus dedos de oleiro
encharca-me
em esponja de suor empapado

ébrio
mancharei a neve dum linho leve

daniel

terça-feira, 23 de maio de 2006

coisa pequena



exiges o universo

e
eu não sou deus

mas

a estrela da meia-noite
entre os dois moinhos
no luar do monte
é tua
dou-ta

porque

amor é seu nome

Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 22 de maio de 2006

... duas hipóteses para um fim...


- Aqui?
- Sim...
- Que surpresa!
- A primeira...

- E a segunda?
- Dois bilhetes de avião... Estes!
- Dois?
- O outro é pra ti...

- Quando?
- Hoje. Agora. Daqui a duas horas...

- O quê?
- É a terceira surpresa...
- E as malas?

- Sem malas...
- E o dinheiro?
- Cartões...
- Não posso! A agenda... cheia de compromissos.
- Troca os compromissos por mim...
- És imprevisível, desconcertante...
- Vamos?
- Quando o regresso?
- Os bilhetes são só de ida...
(...)

( hipótese um para um fim)
- De que mais gostaste?
- De ti e da segunda noite em paris...
- Que doidos... na noite!

( hipótese dois para um fim)
- Não vou!
- Está bem! Rasgo os bilhetes!
- Vamos para casa. O jantar... A telenovela... O cansaço... cama!
- Vamos. O jantar... O futebol... O cansaço... cama!
- Amanhã é outro dia...
- Será...

E, no dia seguinte, foi outro o dia.

daniel

domingo, 21 de maio de 2006

a água de um mago


eugenio recuenco

magia de um sedutor

das minhas palavras
ao teu semblante


desgosto de vida em recolhimento

traços de água transparente

água de um mago

mágoa

daniel

sábado, 20 de maio de 2006

parvo de serviço


(autor desconhecido) "ridículo"


Ser palhaço não dói.
Tintas meias ou de mais ou menos. Nariz vermelho de ping-pong ou copos.
Carapuças enfiadas até às orelhas. Em públicas arenas ou espectáculos íntimos e gratuitos.
Contigo a sós, ao ouvido, ou na roda dos amigalhaços...
Até gargalhamos de nós próprios...
Nós que acreditávamos que os risos eram sinais de momentos de alegria e felizes...
Palhaços amados e queridos!

Ser palhaço não dói.
O que dói é tomar consciência de que se é um parvo de serviço.
Um ser ridículo. Um ser palha-de-aço, um ser esfregão de fumaças
de chamas amarelas ou de esturros negros de fundo de panelas e tachos...
Palhaços de ocasião e aos fogachos!

Ser palhaço não dói.
O que dói profundamente é ser palha, esfregão, aço tenro e ter disso consciência.
No momento do desprezo, estoiram os balões dos sonhos de sabão. Restam salpicos que se enxugam
com mata-borrão a que se chega um fósforo aceso para que as cinzas do desnorte se ventem forte.

Meninos e meninas, senhoras e senhores!
Estimado público aqui presente!
O circo fracasso tem a subida honra de vos apresentar...
... os palhaaaaaaaaaaaaaaços!

daniel

sexta-feira, 19 de maio de 2006

monólogo dois


louis runemberg, "venus fauve"

fome e sede sem medida a atracção pelo abismo
a paixão

fome e sede saciadas sem sinal doutra promessa
o amor

momento em fuga que se rende à memória
a saudade

consome-me a saudade da sede e da fome

daniel

quinta-feira, 18 de maio de 2006

lágrimas em contexto


paco labiano, lágrimas

- Tantas lágrimas... Por que choras? Que mal te fiz ? Diz!
- (...)
- Que foi que aconteceu? Que te deu?
- (...)
- Tens dores? Onde te dói? Sofres?
- (...)
- Não respondas que não foi nada...
- (...)
- Que pranto! Morreu alguém?

- Espera um pouco...

- Não me digas que são lágrimas de crocodilo... Pareces uma manhã de orvalho... Um rio de gotas essas lágrima a fio...

- Espera mais um pouco... Sufoquei...

[Brincou nervosa com a lágrima que trazia ao pescoço... Um pingente.
Sinal presente de um-dia-de-não-sei-quê...]

- Não te assustes! Cheirei o frasco do amoníaco... Falta de siso! Só isso!

[Desdobrou o riso em gargalhadas. Chorou de riso. Outras lágrimas.]

Acreditaste.
Nas minhas lágrimas de amoníaco.

daniel

quarta-feira, 17 de maio de 2006

como ver-te



comover-te
como ver-te
com o ver-te

como se comover-te fosse
ver-te com o olhar
comer-te com os olhos

afinal
comover-te foi
pôr-me-e-te em movimento
abalar-te-e-me
e
no momento de abalar
não comer
para não te voltar a ver

daniel

terça-feira, 16 de maio de 2006

beijos de sabores


olhares (autor deconhecido)

no bar frente ao mar
uma bica pequena cremosa morena sem açúcar
amarga
um quadrado de chocolate quase cacau
amargo
prova sorve saboreia
que tal?
o amargo é delicioso!

beijei teus lábios amargos

na estrada para o cabo
uma azeda na berma do caminho
caule verde fino sob pétalas amarelas
azedo
...
que tal?
o azedo é delicioso!

beijei teus lábios azedos

na serra nua junto ao convento
este caule mais grosso de seiva láctea
acre e doce
...
o agridoce é delicioso!

beijei teus lábios amaros e doces

...
prova sorve saboreia
que tal?
não é semi-frio
é muito doce e semi-quente!

beijei teus lábios muito


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

segunda-feira, 15 de maio de 2006

mel de aguarela



uma aguarela
flor abelha amarela vermelha labor

sugado o néctar da flor vermelha amarela
a abelha não destrói nem a cor nem o perfume

extrai o mel
da aguarela

daniel

domingo, 14 de maio de 2006

manhã de assis


ding musa - "fundo infinito"

que

a dor seja água
e a mágoa flor

a prisão seja...
...
que seja
assis

daniel

sábado, 13 de maio de 2006

um brinquinho a azul


As palavras...
pedras que se estilhaçam
contra os muros,
contra o peito
que incendiaste e
deixaste por lavrar.




O'Sanji, Aqui