
chema madoz
"Sem-ossos" era alcunha dum menino. Onze anos.
Corria a lenda pela escola:
- Foi num enxerto de porrada dado pelo pai...
Nunca me confirmou o enxerto. Limitava-se a
esclarecer:
- Perdi uns ossos num traumatismo craniano...
Nunca aprofundei a causa.
Poderia ser verdade...
Naquele dia, entrou no gabinete acompanhado
por um colega meu:
- Deixo-te aqui esta encomendinha...
- Outra?
- Ele que ta conte!
Confessou tudo não escondendo qualquer pormenor
mais importante. De início, fiquei desarmado com
a verdade e com o olhar molhado do "sem-ossos".
Fraquezas...
Conversei, calmo. Subi o tom de voz. Ralhei.
Barafustei. Passei-me.
E uma lapada esteve por um triz...
Contive-me nem sei como...
O menino esperava qualquer desenlace.
Das palavras à acção. Do ralhete à suspensão.
Acreditem! Não era caso para menos...
Mas não. Nada de mais grave aconteceu.
Num instante, sem eu o prever, lançou-se ao meu pescoço
e a chorar:
- Seja o senhor o meu pai...
- Desaparece já daqui para fora! Ala! Não te quero aqui outra vez!
Já deve ter ouvido o resto da ralhete depois da porta
do gabinete. E ainda bem... não fosse o "sem-ossos"
ver-me chorar e perguntasse com o seu ar de menino:
- Por que está a chorar?
E eu não soubesse reponder...
Tenho a certeza de que o hei-de encontrar um dia
e saberei pela verdade dele por que razão disse
o que disse. E, sobretudo, fez o que fez...
Ainda hoje, estou por saber se a frase revelava
a sua vontade ou se foi o argumento daquele dia
para se safar das consequências de mais uma malandrice...
Se o virem por aí, digam-lhe que preciso
de falar com ele para que me conte a verdade...
Tinha só onze anos
o meu menino traquinas
alcunhado de "sem-ossos".
Corria a lenda pela escola:
- Foi num enxerto de porrada dado pelo pai...
Nunca me confirmou o enxerto. Limitava-se a
esclarecer:
- Perdi uns ossos num traumatismo craniano...
Nunca aprofundei a causa.
Poderia ser verdade...
Naquele dia, entrou no gabinete acompanhado
por um colega meu:
- Deixo-te aqui esta encomendinha...
- Outra?
- Ele que ta conte!
Confessou tudo não escondendo qualquer pormenor
mais importante. De início, fiquei desarmado com
a verdade e com o olhar molhado do "sem-ossos".
Fraquezas...
Conversei, calmo. Subi o tom de voz. Ralhei.
Barafustei. Passei-me.
E uma lapada esteve por um triz...
Contive-me nem sei como...
O menino esperava qualquer desenlace.
Das palavras à acção. Do ralhete à suspensão.
Acreditem! Não era caso para menos...
Mas não. Nada de mais grave aconteceu.
Num instante, sem eu o prever, lançou-se ao meu pescoço
e a chorar:
- Seja o senhor o meu pai...
- Desaparece já daqui para fora! Ala! Não te quero aqui outra vez!
Já deve ter ouvido o resto da ralhete depois da porta
do gabinete. E ainda bem... não fosse o "sem-ossos"
ver-me chorar e perguntasse com o seu ar de menino:
- Por que está a chorar?
E eu não soubesse reponder...
Tenho a certeza de que o hei-de encontrar um dia
e saberei pela verdade dele por que razão disse
o que disse. E, sobretudo, fez o que fez...
Ainda hoje, estou por saber se a frase revelava
a sua vontade ou se foi o argumento daquele dia
para se safar das consequências de mais uma malandrice...
Se o virem por aí, digam-lhe que preciso
de falar com ele para que me conte a verdade...
Tinha só onze anos
o meu menino traquinas
alcunhado de "sem-ossos".
daniel

































