Daniel Ontem, ao jantar, num restaurante do Bairro Alto, faltava-me uma cor para concluir o quadro em esboço... Ao meu lado, na mesa, sentava-se a... Linda como sempre! O colar sugava-me o olhar para o decote de pele firme ao abandono... E o sorriso e os olhos. E as palavras e os lábios. E as mãos e as carícias.
Presentes de sons e cores. Uma pauta e uma paleta. Pat Metheny e Hopper. O pincel e o desejo.
Só me faltava o vermelho!
E os meus sentidos despertaram num acorde maior. Num hino. E o olfacto saboreou um beijo. E o olhar demorou no aroma. E o tacto repousou na sede. E propus com o silêncio que me escutasse um segredo.
Senti-lhe, sob o tampo da mesa, a ternura e a tremura. E os meus toques mudos murmuraram-lhe tons nos lábios do ouvido. E o vermelho brotou corado. Dióspiros nas maçãs do rosto. Zeus alimentava-se connosco.
Podia concluir o quadro. Nos tons de vermelho. E os frutos regaram sumo entre vinhos. Assinei a orgia.
Um abraço. Pedro
Além de sensual, és um irreverente! Eu... levaria um estalo. Mas tu és diferente!
Em teoria... ... ser-se-à mais feliz enquanto se criam paixões por saciar do que após se saciarem as paixões que se reprimem. Como se fosse preferível manter a fome a matá-la... daniel
"... na ceia dos teus seios a meias devorámos as ameias e traçámos um passeio sem receio ... Sei-os!" Eu li-te, Pedro, impresso a vermelho num lenço de papel amarrotado. daniel
"rooms by the sea" de edward hopper Conceba-se Pedro por Paulo. Um Silva mais.
Mas pai, naquela noite de luar,consumido em labaredas, entre os cantos da barraca. Fora da madeira! De si! Três passos de sofrimento desmedido. Quilómetros de gritos e gemidos gelados. Cansados!
paulo e maria casados pais de pedrinho o menino diferente ferrado com um quarto crescente nas costas da mão esquerda paulo ria as lágrimas que chorava vestia o frio que o gelava comia a fome que o matava bebia a sede que o secava espontâneo como a erva simples como o mar deus dum sedutor de mulheres que o sonhavam suado no terraço dum T zero seio do sul cavaleiro da praia sob um raio de sol sensual com um serra da estrela adormecido ao lado
Maria é mãe de Pedrinho. Do menino pobre, ferrado e diferente. Pedrinho é fruto parido de semente acolhida entre quentes. E Maria foi mãe. Silva, Maria dos Santos... também.
maria será sempre a mãe de pedrinho ferrado por um raio de luar em quarto crescente
amou muito e sempre por isso é mãe de um menino diferente
Segredou-me o fio de água: - Dá-me tempo e serei mais duro que o granito que me acolhe e onde te sentas! Na serra. À merenda. Neste Outono... tão morno!
Como se eu não fosse um fio de água a aspirar por mais tempo para ferir os meus granitos...
"geopoliticus child" de salvador dalí pedro é o nome próprio santos silva são os apelidos da família santos da mãe silva do pai
pedrinho é nome próprio de menino pedrinho é o nome do próprio pedrinho é silva, pedro santos
Pedrinho é menino e pobre. Parido em barraca de madeira.
Mas Pedrinho é diferente. Tem um sinal mais moreno. Cinzelado, na noite negra do nascimento. Por um raio de luar, nascido num orifício. Talhado por pica-pau no telhado do barraco. Coberto de contraplacado.
Nas costas da mão esquerda foi ferrado. A lua em quartocrescente.
"sem título" de armanda passos trilhos retalhados por cicatrizes na fronteira de actos extremados medeiam e sacralizam absurdos sentimentos selvagens são culpas de Medeia sacerdotisa de gelo assassina cruel dos filhos de linho fino num desgrenhado acto premeditado para vingança servida por neves eternas daniel
"book transforming itself into a nude woman" salvador dalí
as páginas do meu livro sobrevoam as árvores nuas num outono de torturas que o inverno cobre de manchas datinta dos rolos que me trituram o corpo impresso aos pedaços
... não me refiro a qualquer sinal... ... nem tão pouco a qualquer sábia figura escondida pelos bastidores... ... este ponto mora num beco do bairro do cérebro, mesmo no entroncamento de duas avenidas... a dos olhares com a dos ouvidos.
... garantia-me um filósofo grego ou um político germânico que...
"Todos vivemos debaixo do mesmo céu... mas nem todos temos o mesmo horizonte."
Mas... ... será o meu céu o mesmo que o teu? ... será o teu horizonte diferente do meu? Não é, pois não? Não faremos parte de todos... Seremos um todo em duas partes.