quarta-feira, 15 de novembro de 2006

princesa de muitos mimos - I


michael wertz

Oito horas duma manhã sonolenta.
Seria outro o Novembro.
Subia eu e a preguiça a alameda de acesso
ao edifício da escola.

De um grupo de alunos, saltaram o Fábio e o Mário,
com voz pequena e olhar amarelo:

- Setor, está ali uma cadelinha grávida... meio morta!
Levou uma bolada!

Despertei dos passos arrastados...
De facto, de patas para o ar, como quem mendiga
umas carícias na barriga, de olhos em bugalhos,
esperneando, o animal parecia não ir durar muito...

Para plantão à cadela sobraram dois dum exército
de detectives, de lupa em punho, em busca do agressor perdido...
Só encontrámos a bola...


Oito e catorze. O primeiro toque.
- Para a sala! Impus...
Assustaram-se...

daniel

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

sótão para os teus cabelos brancos


"morning sun" de edward hopper

Reacendo o sonho.
De meu pai.
Um Tê0!

sótão para sul

Com um terraço.
Arribado sobre areia.
Brinco de uma rocha.
Areado pelo sol.
Roxo de anil.
Dois livros.
Um CD.
Luz.
Ar.

sótão para sol

para teus cabelos brancos
saciei-me numa bola de sabão
no sol de uma verde madrugada
vermelha a sul em nascente azul
de águas salgadas sobre a mareia

sótão para rua

entre os farrapos dos trapos velhos
rasgados às dentadas pelo serra da estrela

sótão para mar

Que a lua nos desperte, em quarto crescente, a nascente,
e nos adormeça, em quarto minguante, a poente.
Que o enrolar quente das ondas nos baloice, amantes.
Que a nortada refresque as tardes, suados.
Que a morte nos seduza, abraçados.
Que o canto de Fauré nos encaminhe In Paradisum. Requiem!
Que o meu serra da estrela acorde e uive, mansinho. Serenos.

o sótão para os teus cabelos brancos

Pedrinho.
Menino parido em barraca de madeira.
Cinzelado na noite negra do nascimento.
Por um raio de luar, nascido dum orifício.
Talhado por um pica-pau no contraplacado.
Ferrado nas costas da mão esquerda.
Sinal de lua em quarto crescente.
Pobre. Ferrado. Diferente.
Fui
bola de sabão
só tão para nós.

daniel

domingo, 12 de novembro de 2006

aos domingos - 12 de novembro


" l'attesa " de rudy bagozzi

rédeas

Não se imponham rédeas a cavalos selvagens!
Mas se o não são... então... rédea curta!
Não muito... que lhes tolhem os movimentos.

E se já me proíbem tanto sal e pimenta...
para quê condenar-me eu a uma vida tão insossa?

Rédeas à solta!!

daniel

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

simples mente simples


"dive in", sherry's

Daniel

Revivi com os teus últimos posts. Confirmo que te autorizei a entrares "fundo na alma da (minha) alma".
(Ainda me deslumbro com poetas. Destes. A sério!
Como Fernando Pessoa.)

E pedes-me o impossível.
"O que é ser simples? Tu sabes!".
Eu sei? Eu... que sou um complicado?

Mas... o que entendes tu por "ser simples"?

Ora... escolhe:
Modesto? (Tento...)
Não sofisticado? (Só exteriormente...)
Espontâneo? (Sim!)
Franco? (
Às vezes...)
Ignorante nas simulações e fingimentos? (
Assim... assim...)
Pobre? (
Que remédio!)
Ingénuo? (
Quase sempre...)
Sem malícia? (
Quase nunca...)
Com conhecimentos rudimentares? (
Há piores...)
Sem grande experiência? (
Com alguma...)
Com modos despretensiosos? (
Sem dúvida!)

E agora? Como descalço esta bota?
Para te ser franco... não sou simples. Pareço ser.
Por dentro... sou muito complicado! Nem calculas...
Se soubesses...

Este ar sereno, verdadeiro e humano dá muito trabalho!
É resultado de raciocínio, de sofisticação...
Simples? Assim?
Não! Muito complicado!

Simples é o ar que respiro.

Simples é a água que se bebe.
Simples é o fogo que me aquece.
Mas não os definas porque é muito complicado!

Tenho algumas vantagens.
Ser obrigado a distribuir pelos meses os euros do ordenado!
Não poder levar muito tempo a escolher roupa e calçado!
Preferir ser a ter!
Simples? Não!
Complicado!

A simplicidade para os simples! Tribo a que não pertenço.
Passei por Assis e teria por lá ficado... Com o Francisco.
Complicado... Muito complicado!

Seria simplista se simplificasse a simplicidade dos simples.

Um abraço. Simplesmente.

Pedro.

E eu que garantia, a pés juntos,
que serias muito simples...
Afinal... um complicado!


daniel

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

dar


"verletze wurde" de mariola bogacki

dou

me todo em tudo
dás
te toda em tudo

falo do amor
não de sexo

dar e receber
sinónimos de sentido
in_verso


Copiado do espelho do quarto...
Garantiu-me ela, Pedro!
O teu jeito de dar... De extremos!

daniel

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

a cor que faltava


"soir bleu" de edward hopper

Lisboa, 31 de Outubro de ...

Daniel
Ontem, ao jantar, num restaurante do Bairro Alto,
faltava-me uma cor para concluir o quadro em esboço...
Ao meu lado, na mesa, sentava-se a... Linda como sempre!
O colar sugava-me o olhar para o decote de pele firme ao abandono...
E o sorriso e os olhos. E as palavras e os lábios. E as mãos e as carícias.

Presentes de sons e cores.
Uma pauta e uma paleta. Pat Metheny e Hopper.
O pincel e o desejo.

Só me faltava o vermelho!

E os meus sentidos despertaram num acorde maior. Num hino.
E o olfacto saboreou um beijo. E o olhar demorou no aroma.
E o tacto repousou na sede.
E propus com o silêncio que me escutasse um segredo.

Senti-lhe, sob o tampo da mesa, a ternura e a tremura.
E os meus toques mudos murmuraram-lhe tons nos lábios do ouvido.
E o vermelho brotou corado. Dióspiros nas maçãs do rosto.
Zeus alimentava-se connosco.

Podia concluir o quadro. Nos tons de vermelho.
E os frutos regaram sumo entre vinhos.
Assinei a orgia.

Um abraço.
Pedro

Além de sensual, és um irreverente!
Eu... levaria um estalo.
Mas tu és diferente!


daniel

domingo, 5 de novembro de 2006

aos domingos - 5 de novembro


"liebesbrief" de mariola bogacki

paixões

Em teoria...
... ser-se-à mais feliz enquanto se criam paixões por saciar
do que após se saciarem as paixões que se reprimem.

Como se fosse preferível manter a fome a matá-la...


daniel

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

seios


"awakening" de fausto pirandello

"... na ceia dos teus seios
a meias
devorámos
as ameias
e
traçámos um passeio
sem receio

...
Sei-os!"


Eu li-te, Pedro,
impresso a vermelho
num lenço de papel amarrotado.

daniel

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

paulo


"rooms by the sea" de edward hopper

Conceba-se Pedro por Paulo.
Um Silva mais.

Mas pai,

naquela noite de luar,consumido em labaredas,
entre os cantos
da barraca. Fora da madeira!
De si!
Três passos de sofrimento desmedido.
Quilómetros de gritos e gemidos gelados.
Cansados!

paulo e maria
casados
pais de pedrinho
o menino diferente
ferrado
com um quarto crescente
nas costas da mão esquerda


paulo
ria as lágrimas que chorava

vestia o frio que o gelava
comia a fome que o matava
bebia a sede que o secava
espontâneo como a erva
simples como o mar
deus dum sedutor

de mulheres
que o sonhavam suado
no terraço dum T zero

seio do sul
cavaleiro da praia

sob um raio de sol sensual
com um serra da estrela adormecido ao lado

daniel

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

maria


"la femme de l'amour" de francis picabia

era
maria dos santos
somente

Maria é mãe de Pedrinho.
Do menino pobre, ferrado e diferente.
Pedrinho é fruto parido de semente acolhida entre quentes.
E Maria foi mãe.
Silva, Maria dos Santos... também.

maria será
sempre a mãe de pedrinho ferrado por um raio de luar
em quarto crescente

amou muito e sempre
por isso é mãe de um menino diferente

daniel

domingo, 29 de outubro de 2006

aos domingos - 29 de outubro


stone fountain

pedra

Segredou-me o fio de água:
- Dá-me tempo e serei mais duro que o granito
que me acolhe e
onde te sentas!
Na serra. À merenda. Neste Outono... tão morno!

Como se eu não fosse um fio de água a aspirar por
mais tempo para ferir os meus granitos...

daniel

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

pedro












"geopoliticus child" de salvador dalí

pedro é o nome próprio

santos silva são os apelidos da família
santos da mãe
silva do pai

pedrinho é nome próprio de menino
pedrinho é o nome do próprio
pedrinho é
silva, pedro santos



Pedrinho é menino e pobre. Parido em barraca de madeira.


Mas Pedrinho é diferente.
Tem um sinal mais moreno. Cinzelado, na noite negra
do nascimento. Por um raio de luar, nascido num
orifício. Talhado por pica-pau no telhado do
barraco.
Coberto de contraplacado.

Nas costas da mão esquerda foi ferrado.
A lua em quarto crescente.

Pedrinho é um menino.
Pobre.
Ferrado.
Diferente.

daniel

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

trilhos cruéis


"sem título" de armanda passos

trilhos retalhados por cicatrizes na fronteira de actos extremados
medeiam e sacralizam absurdos sentimentos selvagens

são culpas de Medeia
sacerdotisa de gelo assassina cruel dos filhos de linho fino num desgrenhado acto premeditado para vingança servida por neves eternas

daniel

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

as palavras que eu sou


"book transforming itself into a nude woman"
salvador dalí


as páginas do meu livro
sobrevoam as árvores nuas

num outono
de torturas que o inverno cobre
de manchas
da tinta dos rolos
que me trituram o corpo
impresso aos pedaços

as
palavras que eu sou

daniel

domingo, 22 de outubro de 2006

aos domingos - 22 de outubro


"head" de tony bevan

um ponto

... não me refiro a qualquer sinal...
... nem tão pouco a qualquer sábia figura
escondida pelos bastidores...
... este ponto mora num beco do bairro do
cérebro, mesmo no
entroncamento de duas
avenidas... a dos olhares com a dos
ouvidos.

Um ponto de gemidos e de
gritos!

daniel

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

dois professores


"intimité - un couple dans un intérieur" de françois vallotton

Professor de quadro de zona pedagógica.
Beja.
35 anos.
Dá a última aula a correr...
6ª. 5 da tarde.
Até 2ª! Às 8 da manhã!

Voa-lhe o desejo pela IP2...
1 bica e 1 queque, por favor!
Prego a fundo que se faz tarde... muito cedo!

Professora de quadro de escola. Numa aldeia.
37 de idade. 5 da tarde. 6ª.

Ele acabou a última aula... Só mais 2 horas!
Meninos! Banho! Jantar! O pai está a chegar!

Alto... a Guarda! Em casa!
Estaciona devagar... olha que as jantes roçam
no passeio. Uma chave e a porta. Que alvoroço!

Parti um vidro na escola...
Caiu a cabeça à boneca!

Jantar! Os desenhos animados são para amanhã de manhã!
Ó-ó!


Na mesa... uma vela acesa!
Na cama... a luz dum raio e o eco dum trovão!

2ª. 5 da manhã. Outra semana...
Ele beija! Ela aguarda!

Bom dia! Hoje, no fim da aula, gostaria que
soubessem
com que suor é amassado o pão...
deste vosso professor.

E, na 6ª, às 5 da tarde...
No mês seguinte...
Durante um ano...

Para o próximo... logo se verá!


daniel

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

mais um dia


contemplation

teri rosario


ouvi
rir e sorri
ler e escolhi
confessar e perdoei

calei

escuto o silêncio fala

hoje é mais um
dia que passa
mais perto de ti

passo a passo


daniel

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

eu remo


ocean blue
kenny primmer


tanto mar
tanto amar

sulcos

de remos
sobre dentro

a remar a remar a remar


velas
de mastro

brancas febril

a remar a remar a remar

leme

à ré
firme

a remar a remar a remar


âncora
de espuma
presa ao fundo

sem remar
no teu mar

daniel

domingo, 15 de outubro de 2006

aos domingos - 15 de outubro


"landscape near figueras" (1910)
salvador dalí


salvador dalí


"Não tenham medo da perfeição. É impossível atingi-la!"

Não tenho medo de Deus...
E gosto de loucuras...

daniel

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

sonhos por cumprir


"rainbow, sun, rain" (child art painting)

Numa mão... a mão da mãe.
Na outra... um papel amarrotado.
Um desenho!

Em baixo, ao fundo, meio palmo de verde.
Totalmente verde!
A Terra!

No quarto superior direito, ao centro, um círculo.
Tremido, com raios amarelos todos tortos.
O Sol!

No canto superior esquerdo, tantos riscos.
De todas as cores da colecção dos marcadores...
O Arco-íris!

Um arco-íris sem chuva?
Este só precisa de sol!

Sobre a Terra verde um arco-íris, sem chuva,
espelho do Sol e dos olhos do menino.

daniel