foto de chema madoz serei nuvem quando sombra e chuva no ardor da sede cama e castelo da serra de amor odre de couro de trovões e faíscas algodão bebido de quedas e feridas
o amigo é pessoa e a roda uma coisa o amigo ampara e a roda circula o amigo é fixe e a roda desanda
não falo de gente em roda dadas as mãos em rodopio em canto de quem é a rosa em giro de giroflé flé flá
falo de estar à roda nos bancos de madeira da mesa do pão de milho e do vinho branco de palavras surdas e silêncios música de lágrimas sonoras e gargalhadas mudas
falo de roda de encontro falo de roda à dentada falo de roda que conta falo de roda molhada
vai uma rodada vai outra rodada para roda de amigos
erro se desvio do bom caminho erro se vagueio sem rumo certo
erro acidental ou constante erro de direito ou de facto erros
erro se deixo de acertar no alvo erro se incorro em erro e engano erro se ofendo ou injurio e não me culpo eu erro
errar é próprio dum ser que procura e escolhe
errante ser errado regressa ao desvio retoma nova rota crível e possível um viver de ir e vir de opções por caminhos supostos correctos
erros são jogos de xadrez escolha de caminhos e saltos o talvez de cada uma das peças a nudez do peão ao rei e à rainha às torres aos cavalos e aos bispos peças de avanços e recuos
não quero mais modelos nem oferecidos nem vendidos de silicone ou monstros sagrados
para quê mais modelos? se maquetes... eu não sou arquitecto! se moldes... eu não sou artista! se partes... eu sou um todo! se protótipos... eu uso de série! se minutas... eu tenho folhas em branco! se fórmulas... eu não sou advogado! se vestidos... eu não estou nu! se de virtudes... eu nem acredito neles! se mitos... eu sou caminhada sem fim!
mais modelos? não! só os que me impuseram! só os que já escolhi! che-gam-e-so-be-jam... basta!
no texto duas palavras escritas somente baratinhas e simples sementes
no contexto não há imagem que te motive Onde um amplo silêncio de um templo imenso onde ecoasse o texto de duas palavras lidas?
no texto não escutas som nem tom não sentes toque nem olhar
no contexto preciso dos teus sentidos preciso de ti toda
da tua boca para que as leias alta a voz entoada do teu ouvido para que as escutes na tua leitura do teu tacto para que te entreabras e te deixes ensopar no silêncio do tal templo imenso da tua imaginação para que me cries presente nos sentidos
Agora... sim! Lê, como te pedi, as duas palavras que escrevi para ti...
- Mãe...? - Sim... - Diz-se pintas? - Sim... - Pintor, pinturas e... pintas! - Não! Tintas! - Porquê? - É assim... - Eu trouxí tintas da escola... - Não é "eu trouxí".. É "eu trouxe"! - Porquê, mãe? - Porque... porque... não sei explicar-te... - Porquê, mãe? - Deixa ver se consigo... Como tu as palavras nascem e crescem e vivem... Percebeste? - Parece que sim... É como as minhas duas fotografias? Numa sou bebé. E nesta... aqui... tenho o dedo no nariz...
o irregular é a não regra é a excepção à regra é o anormal e o anormal não é conveniente nem simétrico nem uniforme é irregular
irregular ou anormal é o pavimento ou o polígono coisas
irregular ou anormal é o carácter ou o comportamento de pessoas
entre tantos anormais também há as palavras sofrem de anormalidade como os verbos irregulares
- Ouves? - Ouvo! - Não é ouvo. É oiço! Ouviste? - Oici!
normal será toda a mente flexível sensível às regras e às excepções mente anormal é excepção à regra é logica e normalmente anormal é um normal animal irracional
Que feitiço invade um aeroporto à chegada e à partida? Que feitiço afoga saudades e veste desejos? Que feitiço acama lágrimas sob sorrisos? Que feitiço finge nas lágrimas alívio ? Que feitiço molha os beijos? Que feitiço no aeroporto? Que feitiço?
O aeroporto não vive sem gente! As pessoas são o feitiço! Tu e eu, esta manhã, eram cinco...
Recordas-te de quando te escutei pela primeira vez? Senta-te nos meus joelhos... Foi no ventre da minha mãe quando me notou um ser-muito-dela e me chamou meu amor! Como esperneei e a abracei! Que alegria escutar-te na voz e nas mãos da minha feiticeira na festinha acariciada na sua pele e na minha cabeça! Garanto-te que te senti assim... pela primeira vez!
Minha querida palavra!
E nunca mais me abandonaste! Nunca... jamais! Se rouco... ... chamava-te olhar ou gesto. Se cego... ... escutava-te em sons e tons. Se surdo... ... contemplava-te por dentro. Se paixão... ... aparecias sedutora e provocante toda vestida de negro sobre-salto alto-fino decote generoso de alças preguiçosas descaídas sob longos cabelos verdes com o azul no olhar... Se apressado ou lento... Se obsceno ou contido... Se triste ou alegre... Se irado ou dorido... Se... e se... e se... e... ...doavas-te em dádiva doçura.
Querida palavra minha!
Pertinho do meu último ai... ... já... logo... amanhã... mais tarde... quando for... ...segreda-me num sussurro murmurado...
Daniel, meu amor! Sou o alfa e o omega da tua vida! Sou a Palavra, a tua eternidade!
são mudas palavras contidas sinais repetidos sem espaços
são pausa em melodia sem pauta interrupção e hesitação suspensão para surpresas tuas dúvidas e timidez pastos para as palavras aguilhões da tua imaginação
são só três só três pontos escritos duma vez sinal de essências sinal com pontos sinal de pontuação as reticências
se soubesses o que eu quero... se soubesses o que eu quero escrever... dizias-me o que são estes três pontos... dizias-me que palavras deveriam ser...
três...tão pouco... três pontos... tanto para escrever... tanto num quase nada...
se te observo sinto-me servo duma obsessão laçar abraço nos teus braços atracção pelo belo palpável côdea de pão escasso se te comtemplo sou contigo templo e oração num terno silêncio interno limbo de inverno inferno pão de forno de lenha
tão bela se te observo tão meiga se te contemplo daniel
- Segura que escorre... - O que é? Gelo? - Sim. Uma lágrima gelada... - Lágrima? E gelada? Estás a brincar... - Não! Encontrei-a hoje, de manhã... - Isso é gota gelada... leitosa! - Será... Água salgada ou leitosa... mas lágrima! - Onde estava? Na arca congeladora? - Não. No nosso quarto... - No quarto? No nosso? Brincas... - Não brinco! Foi da noite tão frígida... - (...)
amor clandestino de encontros marcados secretos de minutos contados ao segundo de dois corpos fundidos em nenhum de murmúrios entre sussurros de gargalhadas com sorrisos de um quarto alugado em motel de sujos subúrbios clandestinos de prisão entre quatro paredes
amor bandido do lado de fora da janela cerrada da porta a sete trancada à chave nem nada nem ninguém nem os mortos tango maldito da noite de fumo e copos um bésame mucho como si fuera la última
amor clandestino de milagres de conto de fadas de dois amantes agrilhoados de pesadelos e de amor e uma cabana privados de ar puro das searas e ruas condenados ao céu e ao inferno quer acabem de vez quer sigam em frente
da laranja sem casca em pétalas abertas sobre a mesa da sala afundaste nos meus lábios dois gomos em dois dedos húmidos dum suco lento e da sobremesa sobrou para mim um caroço nascido entre os dois gomos e para ti uma das pétalas colhida do prato sobre a mesa da sala onde jantávamos
"A leitura de palavras relacionadas com aromas activa regiões olfactivas do cérebro. (...) Alho, incenso, urina, limão, suor, alfazema..."
Se bem percebi estes cientistas... lemos "alfazema" e sentimos-lhe o aroma... Isto é... a semântica construída com a linguística e o sensorial. Novidade? Parece-me bem que não... Vamos experimentar? Ora, limitemo-nos aos restantes exemplos e recordemos o cheiro a alho... a incenso... a urina... a suor...
ontem sentia-me fome de cão rafeiro bastava-me um osso em curva de lama
que anúncio foi a tua chegada troaste faiscaste inundaste trovões e raios e coriscos cortinas de água opaca sob trovoadas de luz ó chuva ensopada a alma bramaste escuta cão rafeiro só vim lavar as curvas do monte para que o sol nasça mesmo molhado o sol renasceu pressinto-o na luz do dia embora encharcado e sumido passeia-se em boa hora por aí pelas curvas sulcadas pela chuva e enxugando as vidraças chorosas
Era uma vez um lobo esfaimado pela neve que cobria, por completo, a serra e que o separara da loba a quem fora sempre fiel. Cada dia era dia de mais fome. Até que, numa madrugada de delírio, desceu da toca ao povoado. Parou num galinheiro bem frequentado. E, dentre os galináceos, escolheu uma franga torneada, tenrinha, tentadora. Entrou pelo buraco da rede. E comeu-a sem a depenar.
Garantiu-me o lobo, já saciado, com uma pena espetada nos dentes, a um canto dos beiços: - Que saborosa, Daniel, que tenrinha! Se não fosse a fome... - Acredito, lobo, acredito! Foi a fome... os lobos devem ser alimentados quando as ervas são neve ou os lobos só comem frangas quando a fome os separa da loba
daniel
Se te apetecer, troca o sexo ao lobo, à loba e à franga.
recorro aos bolsos nada nem o cotão nas bainhas do forro nada de nada do avesso nem o ar lhes resta nem o nada mesmo
socorro-me do que sou só palavras num caos de babel a cama dorme com o vazio o cavalo corre com o navio a lógica uma batata o beijo um biscoito o mil feito num oito o calendário sem data
mas se nada tenho para dar sirvo-me das palavras que sou mas não me matem as palavras eu morro
Em lençol de linho do tear dos nossos dias, gravaste uma nódoa. Resistente ao mais poderoso dos detergentes, restava, ainda, a diminuta área circunscrita, empalidecida e entranhada no tecido. A nódoa!
Recortei com uma amolada tesoura de pontas o rebordo da tua nódoa. Sobrevivia a nódoa num buraco em arco. O buraco da nódoa!
Estampei pedaços de linho novo no buraco deixado pelo corte da nódoa. Sobrevivia o arco dum buraco remendado. Os remendos da nódoa!
Quanto tempo precisou o bicho-da-seda para alongar os fios do casulo! Uma meada bastou para tecer o lenço de seda natural que nos descobre! Onde os remendos, o buraco e a nódoa? Novo o lenço e de seda natural!
em mim as lágrimas movimentam-se em círculo de dentro por fora para dentro de novo
de mim renascem na hum(an)idade dum saco desatam nós de angústia no estômago afrouxam dedos em garra entranhados enfraquecem a fúria irada das saudades afloram renitentes à saída dos olhares cintilam e lavam num baile mandado transbordam salgadas pingo em gota desaguam nos lábios áridos dessalgam-se nas papilas e regressam pura água ao saco das lágrimas
a mim garantiu-me a dor ontem à noite ao serão à saída
para quê as promessas de aparato e pompa de palácios em metal se me bastam as cabanas de madeira de pinheiro bravo empoleiradas na falda sul das montanhas ali e além
para quê as promessas de jardins zoológicos de animais em jaula se me bastam os papagaios estrelas de guita e cana seca embrulhados em papel de delírio e fantasia além tão longe
para quê as promessas de mulheres de silicone de feiras e calendário se me bastam a sabedoria e as garantias da raposa matreira repara que os cachos verdes em alta parreira só servem para ser tragados com olhos de ver aqui ao perto