terça-feira, 25 de julho de 2006

corais

sentir morrer
e
lutar por mais vida

entrar no hospital
e
sair com mais um filho

abrir as mãos
e
abraçar as dores

beber as lágrimas
e
libertar um sorriso

sair vencido
e
recomeçar de novo

sentar na praia

e
azular no alto-mar

olhar o firmamento

e
acolher as estrelas que caem

daniel

quinta-feira, 20 de julho de 2006

fragmentos de cristal



atear-te as mãos
e
gelar

olhar-te nos olhos
e
cegar

sentir-te nos lábios
e
molhar

escutar-te em gemidos
e
emudecer

deitar-me sobre ti
e
amanhecer

daniel

quarta-feira, 19 de julho de 2006

texto feito de cinzas...


sandra cinto

cinzas
da fogueira vermelha
cinzas
do cigarro...
...

cinzas
féria quarta
...


as cinzas não sobram da morte da vida
as cinzas sobram....

daniel

terça-feira, 18 de julho de 2006

palavra escrita



no pano cru da tela
a palavra escrita

a pressa ou o stresse
a dúvida ou a alegria
a fadiga ou a fúria
a mágoa ou a ironia
não se bordam
nem se pintam


falta-lhes

cor
tom
olhar
esgar

palavra escrita
síntese
de sentires
fundo sem fundo

moribundo sem sentidos

toco

olho

escuto

para ter entendimento

sujeito predicado complemento

frase muito correcta
sem o dom de ser

Escreve "merda".
O que queres dizer?

daniel

domingo, 16 de julho de 2006

quando eu for nuvem...


foto de chema madoz

serei nuvem quando

sombra e chuva no ardor da sede

cama e castelo da serra de amor
odre de couro de trovões e faíscas
algodão bebido de quedas e feridas

negra se chorares na ida
branca se rires na vinda

daniel

sexta-feira, 14 de julho de 2006

roda de amigos


autor desconhecido

não falo de amigos nem de rodas

o amigo é pessoa e a roda uma coisa
o amigo ampara e a roda circula
o amigo é fixe e a roda desanda

não falo de gente em roda
dadas as mãos em rodopio
em canto de quem é a rosa
em giro de giroflé flé flá

falo de estar à roda
nos bancos de madeira da mesa
do pão de milho e do vinho branco
de palavras surdas e silêncios música
de lágrimas sonoras e gargalhadas mudas

falo de roda de encontro
falo de roda à dentada
falo de roda que conta
falo de roda molhada

vai uma rodada
vai outra rodada
para roda de amigos

daniel

quinta-feira, 13 de julho de 2006

lágrimas


autor desconhecido

lágrimas nem uma

magoam se de dor
enganam se de riso

nem frios pingos de suor
palpitam pálpebras pálidas

pontes da morte e da vida
finais pontos interrogações

e
o que passeia por ti
adormece cá dentro

daniel

quarta-feira, 12 de julho de 2006

nua


foto de pedro moreira

não te dispas e solta-me os dedos
permissão e doação que te
desperte
entorpeça
alerte
desaperte
desça em deslize
suba contra represas

nua sim
não porque te despiste
sim porque te desnudei
nua enfim


daniel

terça-feira, 11 de julho de 2006

alucinação


autor desconhecido

viver deserto de
esperanças nos
pós e areias em
tempestades com
lábios gretas de
aridez das
cruas
dunas múmias de dor

ocaso frio oásis de
tâmaras e seiva com
beijos de sabor num
torpor de saber a sol

bêbada a mente por
completo de ti

daniel

segunda-feira, 10 de julho de 2006

erros das peças de xadrez


galeria do ricardo

erro se desvio do bom caminho
erro se vagueio sem rumo certo

erro acidental ou constante
erro de direito ou de facto
erros

erro se deixo de acertar
no alvo
erro se incorro em erro
e engano
erro se ofendo ou injurio
e não me culpo
eu erro

errar
é próprio dum ser
que procura e escolhe

errante ser errado
regressa ao desvio
retoma nova rota
crível e possível
um viver de ir e vir
de opções por caminhos
supostos correctos

erros são jogos de xadrez
escolha de caminhos e saltos
o talvez de cada uma das peças
a nudez do peão ao rei e à rainha
às torres aos cavalos e aos bispos
peças de avanços e recuos

daniel

sábado, 8 de julho de 2006

mais modelos... não


ron mueck

não quero mais modelos
nem oferecidos nem vendidos
de silicone ou monstros sagrados

para quê mais modelos?

se maquetes...
eu não sou arquitecto!

se moldes...
eu não sou artista!

se partes...
eu sou um todo!

se protótipos...
eu uso de série!

se minutas...
eu tenho folhas em branco!

se fórmulas...
eu não sou advogado!

se vestidos...
eu não estou nu!

se de virtudes...
eu nem acredito neles!

se mitos...
eu sou caminhada sem fim!

mais modelos?
não!
só os que me impuseram!
só os que já escolhi!
che-gam-e-so-be-jam...
basta!

para quê mais modelos
se és única
e
obra-de-arte


daniel

sexta-feira, 7 de julho de 2006

tentação da gula


foto de laurent askienazy

sê sumo
à mão esprimido
alívio do meu corpo febril

sê doce
de uva madura
barrada em fatia
de pão de centeio do dia

sê salada
de frutos em pedaços
regada com porto vintage
ébrio licor do meu deleite

sê gelado
de banana e figo
bolas derretidas num cone

sê a mesa posta
sê a tentação da gula

daniel

quinta-feira, 6 de julho de 2006

o que vales


foto de katharine tillman

vales
nojo e náusea e vómitos
como se em tanque de rega
boiasse
ao meu encontro
corpo informe
de ranho e escarros

não
nem isso

vales

daniel

quarta-feira, 5 de julho de 2006

o tamanho da montanha onde nasci


paul cézanne

nasci david
em montanha
colosso de rodes

cresci árvore-mãe
dessa montanha
corcovada

homem feito
meti-me por atalhos
nessa montanha
do meu tamanho

hoje em dia
essa montanha
cabe-me na memória

daniel

terça-feira, 4 de julho de 2006

só duas palavras ou um texto em contexto

o que lês não é o texto
é o contexto

no texto
duas palavras escritas somente
baratinhas e simples
sementes

no contexto
não há imagem que te motive
Onde um amplo silêncio de um templo imenso
onde ecoasse o texto de duas palavras lidas?

no texto
não escutas som nem tom
não sentes toque nem olhar

no contexto
preciso dos teus sentidos
preciso de ti
toda

da tua boca
para que as leias alta a voz entoada
do teu ouvido
para que as escutes na tua leitura
do teu tacto
para que te entreabras e te deixes ensopar
no silêncio do tal templo imenso
da tua imaginação
para que me cries presente nos sentidos

Agora... sim!
Lê,
como te pedi,
as duas palavras que escrevi para ti...


És linda!

daniel

segunda-feira, 3 de julho de 2006

diálogo três...


foto de chema madoz

- Mãe...?
- Sim...
- Diz-se pintas?
- Sim...
- Pintor, pinturas e... pintas!
- Não! Tintas!
- Porquê?
- É assim...
- Eu trouxí tintas da escola...
- Não é "eu trouxí".. É "eu trouxe"!
- Porquê, mãe?
- Porque... porque... não sei explicar-te...
- Porquê, mãe?
- Deixa ver se consigo... Como tu as palavras
nascem e crescem e vivem... Percebeste?
- Parece que sim... É como as minhas duas fotografias?
Numa sou bebé. E nesta... aqui... tenho o dedo no nariz...

daniel

domingo, 2 de julho de 2006

anormais irregulares


foto de chema madoz

o irregular é a não regra
é a excepção à regra
é o anormal
e
o anormal não é conveniente
nem simétrico nem uniforme
é irregular

irregular ou anormal
é o pavimento ou o polígono
coisas

irregular ou anormal
é o carácter ou o comportamento
de pessoas

entre tantos anormais
também há as palavras
sofrem de anormalidade
como os verbos irregulares

- Ouves?
- Ouvo!
- Não é ouvo. É oiço! Ouviste?
- Oici!

normal será toda a mente flexível
sensível às regras e às excepções
mente anormal é excepção à regra
é logica e normalmente anormal
é um normal animal irracional

daniel

sábado, 1 de julho de 2006

o aeroporto e o feitiço


Que feitiço invade um aeroporto à chegada e à partida?
Que feitiço afoga saudades e veste desejos?
Que feitiço acama lágrimas sob sorrisos?
Que feitiço finge nas lágrimas alívio ?
Que feitiço molha os beijos?
Que feitiço no aeroporto?
Que feitiço?

O aeroporto não vive sem gente!
As pessoas são o feitiço!
Tu e eu,
esta manhã,
eram cinco...

daniel

sexta-feira, 30 de junho de 2006

monstros


foto de moritz maya

nem ser nem gente
desumano e aberração
gelatinoso e disforme
monstro abjecto

ser e gente
artista renomado
mito intocável
isento de críticas
monstro sagrado

coisa ou pessoa
abjecto ou sagrado
sempre um monstro

daniel

quinta-feira, 29 de junho de 2006

Palavra, meu amor!


foto de eugenio recuenco

Palavra, minha querida!

Recordas-te de quando te escutei pela primeira vez?
Senta-te nos meus joelhos...
Foi no ventre da minha mãe quando me notou um
ser-muito-dela e me chamou meu amor!
Como esperneei e a abracei!

Que alegria escutar-te na voz e nas mãos
da minha feiticeira na festinha acariciada
na sua pele e na minha cabeça!

Garanto-te que te senti assim... pela primeira vez!

Minha querida palavra!

E nunca mais me abandonaste!
Nunca... jamais!
Se rouco...
... chamava-te olhar ou gesto.
Se cego...
... escutava-te em sons e tons.
Se surdo...
... contemplava-te por dentro.
Se paixão...
... aparecias sedutora e provocante toda
vestida de negro sobre-salto alto-fino decote
generoso de alças preguiçosas descaídas sob longos
cabelos verdes com o azul no olhar...

Se apressado ou lento...
Se obsceno ou contido...
Se triste ou alegre...
Se irado ou dorido...
Se... e se... e se... e...
...doavas-te em dádiva doçura.

Querida palavra minha!

Pertinho do meu último ai...
... já... logo... amanhã... mais tarde... quando for...
...segreda-me num sussurro murmurado...

Daniel, meu amor!
Sou o alfa e o omega da tua vida!
Sou a Palavra, a tua eternidade!

daniel

quarta-feira, 28 de junho de 2006

... três pontos... só três...


foto de sophie broadbridge

são
mudas palavras contidas
sinais repetidos
sem espaços

são
pausa em melodia sem pauta
interrupção e hesitação
suspensão para surpresas
tuas dúvidas e timidez
pastos para as palavras
aguilhões da tua imaginação

são
só três
só três pontos
escritos duma vez
sinal de essências
sinal com pontos
sinal de pontuação
as reticências

se soubesses o que eu quero...
se soubesses o que eu quero escrever...
dizias-me o que são estes três pontos...
dizias-me que palavras deveriam ser...

três...tão pouco...
três pontos...
tanto para escrever...
tanto num quase nada...

daniel

terça-feira, 27 de junho de 2006

quando te contemplo...


foto de claúdio lopes

se te observo
sinto-me servo duma obsessão
laçar abraço nos teus braços
atracção pelo belo palpável
côdea de pão escasso

se te comtemplo

sou contigo templo e oração
num terno silêncio interno
limbo de inverno inferno
pão de forno de lenha

tão bela se te observo
tão meiga se te contemplo

daniel

segunda-feira, 26 de junho de 2006

Um olhar com as mãos...


foto jean perie

venda negra vedou-me a luz da tarde
fez-se noite mais escura que o breu

olha-me com as mãos

só roupão de linho
longos cabelos seda
olhos de sumaúma
ar fresco ar quente ar de narinas
grossos lábios em gozo de sumo

dedos que riscam cotornos
dedos que ondulam em dunas
dedos que derrubam pinos firmes

mãos que traçam curvas de frutos
mãos que sulcam leiras de arados
mãos que travam em atalhos ocultos

deixa
agora eu
minhas mãos guiam teus dedos

e como os meus dedos olharam
o
que jamais meus olhos viram

lagos de neve
tremuras de terra
vulcão em convulsão
tempo indefinido a espaços repetido
lavas renovadas
tremores de serra
lassidão de mares e marés

e no escuro breu
dedos entre laços
entrei em contemplação

daniel

domingo, 25 de junho de 2006

diálogo dois...


foto de ludovic goubet

- Segura que escorre...

- O que é? Gelo?
- Sim. Uma lágrima gelada...
- Lágrima? E gelada? Estás a brincar...
- Não! Encontrei-a hoje, de manhã...
- Isso é gota gelada... leitosa!
- Será... Água salgada ou leitosa... mas lágrima!
- Onde estava? Na arca congeladora?
- Não. No nosso quarto...
- No quarto? No nosso? Brincas...
- Não brinco! Foi da noite tão frígida...
- (...)

daniel

sábado, 24 de junho de 2006

olhar para carta de amor


fotografia de didier-louis

roças o anil do olhar
no meu
um prado febril


eu
cravo fundo
num mundo vermelho
fornalhas de linho

tu
coras
cerejas e amoras e ginjas

do olhar que em mim beijas

eu e tu
tela única
pincel e tintas

para cores absinto
para pomares famintos

para naturezas em flor

a carta de amor
que nunca lerei

daniel

sexta-feira, 23 de junho de 2006

amor bandido...


fotografia de rob sloane

amor clandestino
de encontros marcados secretos
de minutos contados ao segundo
de dois corpos fundidos em nenhum
de murmúrios entre sussurros
de gargalhadas com sorrisos
de um quarto alugado em motel
de sujos subúrbios clandestinos
de prisão entre quatro paredes

amor bandido
do lado de fora da janela cerrada
da porta a sete trancada à chave
nem nada nem ninguém nem os mortos
tango maldito da noite de fumo e copos
um bésame mucho como si fuera la última

amor clandestino
de milagres de conto de fadas
de dois amantes agrilhoados
de pesadelos e de amor e uma cabana
privados
de ar puro das searas e ruas
condenados ao céu e ao inferno
quer acabem de vez
quer sigam em frente

amor bandido...

daniel

quinta-feira, 22 de junho de 2006

uma laranja sobre a mesa...


rolandaël

da laranja sem casca em pétalas
abertas sobre a mesa da sala
afundaste nos meus lábios
dois gomos em dois dedos
húmidos dum suco lento
e
da sobremesa sobrou
para mim
um caroço nascido entre os dois gomos
e
para ti
uma das pétalas colhida do prato
sobre a mesa da sala onde jantávamos

daniel

quarta-feira, 21 de junho de 2006

raio de luar em gota de orvalho
















o meu

raio de luar
em camas orvalhadas
diamante puro das gotas
em noites de lua cheia
pelo sol quando nova
enamorou-se por uma
gota de orvalho

a tua

daniel

terça-feira, 20 de junho de 2006

Mais poder às palavras...


fotografia de eugenio recuenco

"Público online" de ontem.
Cito:


"A leitura de palavras relacionadas com aromas
activa regiões olfactivas do cérebro.
(...)
Alho, incenso, urina, limão, suor, alfazema..."

Se bem percebi estes cientistas...
lemos "alfazema" e sentimos-lhe o aroma...
Isto é...
a semântica construída com a linguística
e o sensorial.


Novidade?

Parece-me bem que não...
Vamos experimentar?
Ora, limitemo-nos aos restantes exemplos
e recordemos o cheiro

a alho...
a incenso...
a urina...
a suor...

Não! Essa não vale!
Basta o último...

Que tal?
Deixem-me rir!

daniel

segunda-feira, 19 de junho de 2006

No encontro...


fotografia de maurício ianês

impossível
o silêncio das mãos
quando
se amarram as palavras

daniel

domingo, 18 de junho de 2006

meia-palavra basta...


fotografia de chema madoz

- Estás muito bonita, hoje!
- Como está a tua mulher?
- (...)

Para mau entendedor...


daniel

sábado, 17 de junho de 2006

o cão e as curvas à chuva


autor desconhecido

ontem sentia-me fome de cão rafeiro
bastava-me um osso em curva de lama

que anúncio foi a tua chegada
troaste faiscaste inundaste
trovões e raios e coriscos
cortinas de água opaca
sob trovoadas de luz
ó chuva

ensopada a alma
bramaste
escuta cão rafeiro
só vim lavar as curvas do monte
para que o sol nasça mesmo molhado

o sol renasceu
pressinto-o na luz do dia
embora encharcado e sumido
passeia-se
em boa hora por aí
pelas curvas sulcadas pela chuva
e enxugando as vidraças chorosas

daniel

sexta-feira, 16 de junho de 2006

A fábula do lobo esfaimado


eugenio recuenco

Era uma vez um lobo esfaimado
pela
neve que cobria, por completo,
a
serra e que o separara da loba a
quem fora sempre fiel.
Cada dia era dia de mais fome.
Até que, numa madrugada de delírio,
desceu da toca ao povoado.
Parou num galinheiro bem frequentado.
E, dentre os galináceos, escolheu uma
franga torneada, tenrinha, tentadora.
Entrou pelo buraco da rede.
E comeu-a sem a depenar.

Garantiu-me o lobo, já saciado, com
uma
pena espetada nos dentes, a um
canto dos
beiços:
- Que saborosa, Daniel, que tenrinha!
Se
não fosse a fome...
- Acredito, lobo, acredito! Foi a fome...

os lobos devem ser alimentados quando
as
ervas são neve
ou

os lobos só comem frangas quando a fome
os
separa da loba

daniel

Se te apetecer, troca o sexo ao lobo, à loba e à franga.

quinta-feira, 15 de junho de 2006

não me matem as palavras... eu morro


chema madoz

recorro aos bolsos
nada
nem o cotão nas bainhas do forro
nada de nada
do avesso nem o ar lhes resta
nem o nada mesmo

socorro-me do que sou
só palavras num caos de babel
a cama dorme com o vazio
o cavalo corre com o navio
a lógica uma batata
o beijo um biscoito
o mil feito num oito
o calendário sem data

mas se nada tenho para dar
sirvo-me das palavras que sou
mas
não me matem as palavras

eu morro


daniel

quarta-feira, 14 de junho de 2006

sintaxe de um beijo


graça (olhares)

quando partilhares comigo o sabor
de um beijo recorda-te por favor


beijar é acto de dar
e
beijar-te será acto de amar

então se
beijar-te for acto de amor


beijar será o acto

e
tu o amor

daniel

terça-feira, 13 de junho de 2006

da nódoa à seda ou o tempo da espera


autor desconhecido

Em lençol de linho do tear dos nossos dias,
gravaste uma nódoa.

Resistente ao mais poderoso dos detergentes,
restava, ainda, a
diminuta área circunscrita,
empalidecida e entranhada no tecido.

A nódoa!

Recortei com uma amolada tesoura de pontas o
rebordo da tua
nódoa. Sobrevivia a nódoa num
buraco em arco.

O buraco da nódoa!

Estampei pedaços de linho novo no buraco
deixado pelo corte da
nódoa. Sobrevivia
o arco dum buraco remendado.

Os remendos da nódoa!

Quanto tempo precisou o bicho-da-seda
para alongar os fios do
casulo! Uma
meada bastou para tecer o lenço de
seda natural
que nos descobre!
Onde os remendos, o buraco e a nódoa?


Novo o lenço e de seda natural!


daniel