quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

des_construção


baltz bietenholz


sou
sou sossego
sou cego
....
sou sé
sou
sou só
...
sou sono
...
sou sono lento
...
sou


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

domingo, 24 de dezembro de 2006

aos domingos - 24 de dezembro


"maternidade" de almada negreiros

natal de 2006 - IV


Há muitos anos, neste dia,
perto da meia-noite,
nasceu, para ti,
um menino.

Sim...
Para ti...
Neste dia...
Era quase meia-noite...
Já há muitos, muitos anos...

Não acreditas?

É verdade!
Só que minha mãe não me chamou jesus...

daniel

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

palavras que sou


recorro aos bolsos

nada

socorro-me do que sou
palavras num caos de babel

não me matem as palavras
que morro

daniel

"not the words"
patricia gooden


segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

adouro-te


"sleeper red" de william kentridge

não
não te amo
porquê?
porque amo-te é palavra violada


não
não te adoro
porquê?
porque o teu sobrenatural é tão humano

prefiro
adourar-te
porquê?

porque sim!

porque não?


daniel

domingo, 17 de dezembro de 2006

aos domingos - 17 de dezembro


"creation hands" de michelangelo

natal de 2006 - III


O Natal está a chegar!
Garantias entre luzes nas ruas...
Alonguei o olhar.
Donde vem?

O Natal está à porta!
Garantias entre laços nos embrulhos...
Abri.
Foi engano!


daniel

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

nasceram mais estrelas


"presépios"
alunos de anabela pinto


diferentes
só mais lentos
só mais activos
meninos
como os outros
diferentes

todos os seis sentidos
nos dedos
nas palmas
das mãos

seis sim porque cinco mais um

burros vermelhos de barro
verdes vacas de plasticina
anjos com fimo nas asas
josé em pasta de barbas de papel
maria de ráfia serena
gruta do monte de cartão canelado

os meninos
chamavam-se jesus
de carne e osso
cada um

gritava o olhar
no sorriso das mãos
chorava o sabor
na bigorna do ouvido
pingava o aroma
nos berlindes dos ourives

filigranas dos seis sentidos

amálgamas de amor e arte
amansadas as massas na mesa
tão mansas de tão amassadas
tons e sons no toar dos sinos

assim nasceram mais estrelas no firmamento
numa sala
de aula


daniel

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

sons em... jogo... de palavras - III

"summer interior" de edward hopper

(a)gosto

gosto do...
...gosto louco no calor do nosso (a)gosto


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

domingo, 10 de dezembro de 2006

aos domingos - 10 de dezembro


"embraceable you"
ruth rosengarten


natal de 2006 - II


não me prendas com presentes
nessa noite
enlaça-me as mãos
soltas dos laços que me prendem
ao frio
de vinte e quatro para vinte e cinco
graus abaixo de zero

aquece-me
brasido de lareira
em dezembro
sem natal presente
que me prenda

daniel

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

a sedução da utopia


dom quixote
picasso



A Utopia é
Thomas More.
Uma ilha. Tão imaginária.

A utopia é um ideal.
Um projecto.
Um modelo.
Um plano.


A utopia é o inatingível.
O impraticável.
O inexequível.


A utopia é o não lugar.

A utopia é a sedução.
A quimera.
A fantasia.

A utopia é um caminho.

A caminho dum infinito.

Uma caminhada até ao limite do ser.
A sedução do caminho para a utopia.

Seduz-me a caminhada e a fantasia.

daniel

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Sons em... jogo... de palavras - II


"morning" de dod procter

tudo de ti toda

não me bastas

de todo...
...bastava
tudo de ti...

(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

domingo, 3 de dezembro de 2006

aos domingos - 3 de dezembro


"flower vendor with child"
diego rivera


natal de 2006 - I

e ? ou

os meus meninos
precisam
de mim
do pai natal
do menino jesus

ou ? e

o meu natal
vive-se
numa data
todos os dias
num estado de espírito

e ? ou

a minha vida
pinta-se
a preto
a branco
às cores

ou ? e

natal
é

dia
noite
entardecer
madrugada

E?
Ou?
Ou ou e e?

Não...
Sim...
Nim...

daniel

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Sons em... jogo... de palavras - I


"les amants" de rené magritte


gruda-me

madruga-me de madrugada...
...
gritarei no grude da tua gruta

grato


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

terça-feira, 28 de novembro de 2006

do tempo


"eleven AM" de edward hopper

dos ponteiros dos relógios
libertei-me dos
minutos
agrilhoaram-me segundos

escarr_os
com_tudo
m_açaimo
quando carrasc_o tempo
me chicoteia
escravo
d_um _a_troz_descrenç_a_bsoluta_


daniel

domingo, 26 de novembro de 2006

aos domingos - 26 de novembro


"le cri muet" de valcárcel guevara

o silêncio

calei-me
para te escutar
e
aprender a falar

falei-te
para me escutares
e
aprendi a calar-me

desde então
grito nu
silêncio

daniel

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

foice eu fosse

ah
se
eu
fosse foice
e ceifasse searas
saciaria a sede
da seda suada

ah

se eu
foice fosse

"head" de antoine pevsner

daniel

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

princesa de muitos mimos - V


michael wertz

Aninhado num canto da biblioteca da escola
e às aranhas com um computador, desvendava
os segredos do Word de acordo com a lição
imposta pelo Gustavo. Um dos meus loucos!

Elas e eles e aos empurrões e aos gritos:
- Setor, a Kintudê está a parir!
Venha depressa! Olhe que a matam!

Eu. O último a chegar ao alarido.
A casota. De cimento. Rosa e branca.
Eles. Uma matilha imensa de gente curiosa.

O tal berro berrado aos berros afastou-os
para um semi-círculo de cinco metros de raio.
Mais olhos que silêncio. Naquele momento.

A Kintudê lambia carinhosamente o filho.
Porquê? Quantos são? É cachorro?
Como nasceu? Toma nota para a cédula!
Abaixa! Deixa ver! Bruto! Não empurres!
Escuta o setor...

Foi assim que fui parteiro e explicador de um
acto de parir com mais de setenta assistentes.

Por pouco... muito pouco, o funeral do cachorrinho
nado-morto não teve honras de cerimónia fúnebre...
e religiosa! Os miúdos perceberam, a custo, que
cadela é cadela e pessoa é pessoa.
A custo!

A Kintudê estava de boa saúde quando o relógio
a sério, amarelo, lindo, único passou para
o pulso de uma colega professora com quem
vive desde então.

Foi uma cadela rafeira, senhora de vermelha trela
e princesa de muitos mimos.
Foi noutro Novembro, às oito horas duma manhã sonolenta.
Subia eu e a preguiça a alameda de acesso à escola quando...

daniel

terça-feira, 21 de novembro de 2006

princesa de muitos mimos - IV


michael wertz

Não é ficção este relato do dia-a-dia da Kintudê.

Acredita!
A cadelinha foi, durante o ano lectivo,
uma princesa de vermelha trela e de muitos mimos.

Acredita!
Pela manhã, a rafeira era o centro das atenções de
toda a gente, pequena e grande, na importância ou
no tamanho. Daqui um olá. Dali uma festa.
E os latidos soltavam-se como pulos...

Acredita!
Só um menino tinha o dom de ser obedecido:
o tratador de serviço, por uma semana, portador
do relógio a sério, todo amarelo, lindo, único!

Acredita!
No ritual de uma lambidela no amarelo do relógio.
Solta a corrente, trela vermelha na mão,
a Kintudê seguia-o para a sala de aula.
Atada a trela à perna duma cadeira da última fila,
não consta, até hoje, uma queixa de mau comportamento.

Acredita!
Fui parteiro e explicador dum acto de parir...

Os meus olhos viram.
Eu acreditei.

daniel

sábado, 18 de novembro de 2006

a morte

um momento mais
entre
actos de amor
nos
passos da vida

só um traço-de-união

entre
margens de rios
de dor e de saudade

também

daniel

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

princesa de muitos mimos - III


michael wertz

Regressaram aos gritos... por recreios e corredores...
Alagados em sorrisos e apinhados nas palavras...

- Acordámos o veterinário...
- Dois euros e cinquenta cêntimos para as vacinas...

Na cédula da cadelinha constava um nome. "A Kintudê"!
Tal e qual. Com capa e tudo. O nome da turma... 5ºD.
E ainda... a trela de cabedal vermelho... a coleira
medicinal... a comida fina... o champô para as pulgas e carraças...

- Eu dou-lhe banho - comprometia-se a Joana. Sei como é!

Muita publicidade colorida... e um relógio a sério, lindo, todo amarelo... Mas só um!

- Trezentos e cinquenta euros para a casota de cimento, branca nas paredes e rosa nas telhas... Vem mais tarde!
Era pesada...

E alguns pais, tão loucos como o veterinário e os miúdos, acolhiam a cadelinha ao fim-de-semana ou saltavam a grade da escola para que "A Kintudê" não passasse fome nem sede nem morresse de saudades...

Passados dias, recontei os trocos sobejos.
Sobrara muito mais do que havia sido gasto...
Seriam os trocos sementes em terreno fértil?
Alguém repôs o vazio do saco de plástico vermelho...

Ai se eu vos confessasse como leveda o fermento desta "massa"...
Pela trela, arrastavam a cadelinha, princesa de muitos meninos!

daniel

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

princesa de muitos mimos - II


michael wertz

Já na aula, de pé, armei-me em todo-poderoso.
- Abrir a lição!
- E a cadelinha?
- A brir a li ção...
- Temos dinheiro... Da venda do jornal de turma.
- ABRIR A LIÇÃO!
- E podíamos ir ao veterinário...
Com o berro... aquele ar gelado de professor cumpridor... inflexível.
- E se a cadelinha morre?
E eu convencido que, naquele momento, cadelinha... já fora!
- Ela está à espera de bebé...
Estranhamente, os cadernos diários mantinham-se aferrolhados...
- Já morreu. Cochichou a Inês.

Desisti! Dei-me por vencido! Impossível resistir à força interior dos miúdos...
Passei-lhes para a mão o saco de plástico vermelho... o nosso cofre-forte.
Distribuímos tarefas... E responsabilizei-os por tudo... Por tudo mesmo!
Desapareceram-me da vista num ápice! Todos!

À secretária, comigo e com o livro de ponto nos dedos, grudou-se-me a angústia.
- Meti-me noutra...
Os meus botões anuíram...
- E o programa? Que vou escrever no sumário? E se acontece alguma coisa a algum?

Mas... para que estás tu tão angustiado se a cadelinha já morreu?
Pois...

daniel