sábado, 23 de setembro de 2006

um "bacio" ou a inaptidão para comprar presentes...

"O Beijo", de Di Cavalcanti

blogonovela às postas
posta quinta


Deixa...
... que te confesse que adoro o italiano!
É sonoro!
É cantabile!
É idioma!
Tem aroma a pizza!
Sabe a ópera!

Deixa...
... que fique bem claro!
Um "bacio" italiano não é... um beijo!
O "bacio" é bombom... chocolate!
Entreabrem-se os lábios e o bem_bom desliza, húmido, entre a língua e o céu-da-boca.
Desfaz-se!
Esgueira-se pela garganta!
Sumiu.

Era...
Foi um bombom, de nome "bacio", italiano, um só, embrulhado em papel prateado...
... com um laço no nó...

Dominó!
Palhaço!

Deixa...
... que te beije.
Um beijo em português.
Foneticamente surdo...labial e dento-palatal.
Vem embrulhado com um nada de tudo...

É brasa quando, doce, nos alaga os lábios e a boca...
É sal quando se demora no sulco duma lágrima evaporada...
É fome quando, leve e breve, resvala na pele.

Deixa...
... que este beijo tão bom... te aqueça.
... que o milagre aconteça.
... que a minha falta de jeito para comprar presentes te faça esboçar um sorriso aberto.
... que se soltem gargalhadas sem siso.
... que se renovem os estreitos carreiros dos afectos.

(fim da blogonovela - posta última )

daniel

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

um "bacio" ou a inaptidão para comprar presentes...


blogonovela às postas
posta quarta

- Quanto devo?
Paguei.
E recebi de troco:
- Era só um "bacio" que queria?

Era... Bastava-me um só! Desde que tivesse um laço prateado no nó...

E saí porta fora, feliz como um garoto armado em petiz...
O presente na mão, pendurado, seguro pela ponta da fita, entre o polegar e o indicador.
Que coisa! Saberia italiano a empregada do balcão?

[És louco, meu velho, pataroco de todo!
Foi tão só a tua apregoada falta de jeito para comprar presentes!
Foi tão só a tua apregoada falta de jeito para entender sorrisos!
Já sabia... O tal parvo-de-serviço!]

(fim da penúltima posta)

daniel

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

um "bacio" ou a inaptidão para comprar presentes...

foto de Lauranne, "Le monstre au miroir"
blogonovela às postas
posta terceira

A empregada do balcão pousou-me o bombom entre os cotovelos...

- É um presente... Embrulhe-mo em papel de festa, com um nó no laço prateado. Por favor...
Fixou-me nervosa. Visivelmente perturbada. E repeti, primeiro, para dentro e, em seguida, para ela, sem sombra de qualquer culpa...
- É um presente! Embrulhe-mo em papel de... por favor!
Que estranho! Que dificuldade em embrulhar-me o presente: sobrava o papel de festa prateado... o laço não dava o nó...
Mas será tão difícil assim dar o nó? Passar o laço?
É só fita! Prateada...

[Assustaste a pequena, meu monstro! Sem querer... mas assustaste!]

Olhei-me ao espelho da prateleira dos bombons... Não tinha mudado nada! Era exactamente o mesmo da manhã, no espelho da minha casa-de-banho! Tal e qual! Sem tirar nem pôr! Eu!
Onde estava o monstro, afinal?

[Pediste um "bacio"...
Pediste um "bacio"-por-favor...
Pediste um "bacio"-por-favor-embrulhado-em-papel-prateado...
Pediste um "bacio"-por-favor-embrulhado-em-papel-
prateado-com-laço-no-nó...]


(fim da terceira posta)

daniel

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

um "bacio" ou a inaptidão para comprar presentes...


blogonovela às postas
posta segunda

Renovei o pedido, armado em parvo.
E, dedo em riste, apontei
(Não se aponta que é feio...) a prateleira espelhada por detrás da empregada donde me convidavam os bombons "bacios" (Assim, à portuguesa, porque este blogue não brinca com italianas e palavras...).

- Um bombom "bacio", se faz favor!
- Só um?
- Sim, só um!

[Nem sorriso nem ar de cumplicidade... Adivinhei-lhe um rosto frustrado. Ou seria da minha miopia?]

Pegou num bombom "bacio". Pousou-o entre os meus cotovelos, sobre o vidro gordo do balcão.

(fim da segunda posta)

daniel

terça-feira, 19 de setembro de 2006

um "bacio" ou a inaptidão para comprar presentes...

blogonovela às postas
posta primeira

Deixa-te envolver nesta história de era-uma-vez...

Entrei, meio tímido meio decidido, na pastelaria.
Pousei os cotovelos pesados no vidro gordo do balcão. E aguardei, distraído, a minha vez.
- Que deseja?
- Um "bacio"!
A empregada esboçou um sorriso corado.

[Curioso... Teria eu, inadvertidamente, cometido uma palermice? Mas que foi que disse para provocar tal reacção? Ah, claro! Fui mesmo malcriado... Esqueci-me do "se-faz-favor"...]

- Um "bacio", por favor!
Pedi assim como quem se esquece sem querer.
Agora cúmplice, a empregada rasgou-se num sorriso vermelhudo...

[Desta vez... percebi! Então, meu velho? Cuidado... Foste abelhudo!]

E, renovei o pedido, armado em parvo...

(fim da primeira posta)

daniel

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

das marés

"Embrace", de Egon Schiele

preia-mar de águas-vivas em marés de espuma

mondam e ceifam com chicotes de caruma brava
que me harpeiam a pele em carne viva

baixa-mar de marés-vivas em águas
sobre rochedos do medo entre covos
de polvos que me rondam e tenteiam

numa maré-vermelha de algas e iodo

és maré-viva de setembro
numa atracção de sol com lua
que me arrasta contra a maré num cais
a que me acosto e amarro nuas
as cordas


daniel

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

dos cabelos compridos


"el gran masturbador" de salvador dali

... mas quando te namoro os cabelos compridos laçados
em rabo de cavalo e ergo encharcados dedos furiosos esguedelhados por poros de setembro suado
acontece
cegarem-me indiferenças e equilíbrios prudentes em alucinações de crinas a que me algemo nas quedas e cavalgo sobre ancas com pernas em arco para me esmagar no dorso
que escorre e percorro e corro a passo lento num trote a galope a galope sem freio nos dentes nem rédeas nos dedos que te domem sob força de animal selvagem miragem dum fogoso cavalo sem asas

acontece

que enlouqueço

daniel

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

do vinho


deborah richardson

sinto o vinho que me
embebeda em lavaredas que me
encharcam de instinto cego que não me
enxergo faminto de vinho tinto sede que me
forra a garganta ébria de seda e azedo que me
completa a mente de vinho tinto que me
embriaga de ques e mes
estou bêbado


daniel

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

com pedras


paula rego

das quatro pedras

na mão
uma
a primeira
foi jogada

numa atitude de pedra lascada
nem tu nem eu
éramos de pedra
para sermos alvo de tanta pedrada

pedra por pedra
de pedra e cal
sangrámos pedregulhos

e destruímos o templo
não restou pedra sobre pedra

daniel

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

mutilação em delírio


foto de christophe duret

pegar na régua e no estilete
recortar-te a pele ferida
em inúmeros centímetros quadrados
coloridos a cheio de vermelho quente e
sujo branco
como vários tabuleiros de xadrez
com patas de cavalos a galope em assaltos de cavaleiros
sobre obstáculos e valas de carne pisada por um desejo
voraz de reacender-te as chamas de incendiária
quando sondada no centro de cada quadrado desenhado
pelo estilete e pela régua

daniel

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

da vida


foto de alexandro bavario

que vício este de viver sempre a correr...


como se a vida crescesse se mais longa e veloz a correria...

como se a medida da vida se medisse aos metros e aos minutos...
como se a medida da minha vida não fosse o outro e tu sobre_tudo...
como se a medida da vida morresse na infinidade do mundo...
como se a medida se tornasse uma corrida desmedida...
como se vida não fosse morte...
como se vida não fosse...
como se vida...
como se...
começasse a querer ser um passo com_passado
a querer ser uma voz com_passiva...
a querer só ser sem ter...
a ser só começo...
a ser só...
a ser...
o recomeço...

por que corro se morro em cada recomeço?

daniel

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

limites


michal barteczko

onde os limites
ao poder dum amor cego
sob a venda negra da paixão

onde os limites
se

a pele é seda
a dor é prazer
o obsceno aguilhão
a exaustão prado ameno

retirada a venda à paixão
resta a calma no olhar
ao mais fundo da alma
com limites

daniel

terça-feira, 29 de agosto de 2006

invariáveis


foto de chema madoz

.
.
.
Quando?
Agora!

Já?
Sim!

Onde?
Aqui!

Mais?
.
.
.

daniel

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

Carta a Sexa

Excelentíssimo Senhor

Permita que ouse, com simplicidade, dirigir a Vossa Excelência algumas palavras de profunda admiração. A dignidade com que exerce as suas funções não me agrada! Deslumbra-me!

Testemunho vivo do reconhecimento foi a sessão de homenagem na terrinha de Vexa a que tive a honra de assistir. Um honroso convite dos seus amigos, honestos e penhorados, que souberam retribuir-lhe o muito que lhe devem. Quanta energia dispendida na divulgação da festa! Merece!


A palestra que proferiu será inesquecível e digna de edição de luxo. Pecado meu a incapacidade para a compreender. Nem calcula como me penitencio.

Não!
Vossa Excelência é rei, dada a corte que o envolve, mas não vai nu!
Vi-o vestido de fato completo e bem acompanhado por genuíno champanhe francês sobre a mesa da conferência.

Embalado, adormeci ao fixar-me na taça onde o gás borbulhava! Outro pecado!

Mas não me fiz rogado ao aplaudi-lo, de pé e com entusiasmo! Contágio da imensa trovoada de aplausos com que os seus amigos, familiares e conterrâneos,
tão grata gente, comprometida com o poder que Vexa exerce, o distinguiram e me acordaram.

Deixe-me que lhe confesse quanto me sensibilizou a naturalidade e a elegância daquele gesto sublime ao levar os dedos aos lábios para evitar que o gás regressasse! Tive pena que o fizesse porque o champanhe era francês e foi sorvido com um
melodioso prazer .

Cumprimenta-o com estima.

X...

PS: Permita-me um conselho de amigo convidado.
Não se iniba de libertar o gás do champanhe francês, por cima à frente ou por baixo atrás. Não é todos os dias que a sua corte de colaboradores tão próximos podem usufruir dum aroma tão sonoramente europeu!


Deus guarde Vossa Excelência porque só Ele é infinitamente justo e não consta das Escrituras que alguma vez tivesse tido o nariz entupido.

X...

daniel

domingo, 27 de agosto de 2006

Jóia para Sexa


cultura lambayeque

Presente idêntico foi oferecido a Sua Excelência por ocasião
da sessão de homenagem na sua terrinha.


" Muito obrigado. Servir-me-ei deste bule nos momentos de lazer."

Disse Sexa.

daniel

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

nós


foto de júlio viena


corri nós
os lassos

dos meus aos teus abraços

nós
unidos em traços de segredos
das minhas palmas aos teus dedos

as palavras gritaram beijos
os silêncios fartaram desejos

magia de um dia
à hora da aurora

só nós

daniel

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

nocturno - opus 173


eugenio recuenco

boa noite
maria
mulher mar
onda ria
boa noite

boa noite
agosto
mês sem mas
chamas com pez
boa noite

boa noite
farol
falo da luz
em cabo sem sono
boa noite

boa noite
maria
farol de agosto
em cabo de ria
boa noite

daniel

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

pedidos (a)gosto

se me pedires
o céu
dar-te-ei uma mancheia
de estrelas
seis brilhantes brancos
um a um

se me pedires
a terra
dar-te-ei um punhado
de areias
águas marinhas mil
grão a grão

se me pedires
o fogo
dar-te-ei uma lareira
de rubis escuros
sangue em brasas
gota a gota

se me pedires
a água
dar-te-ei uma fonte
de ametistas
rios de rocha roxa
pingo a pingo

se mo pedires
dar-te-ei

se ma pedires
também

se pedires
darei

daniel

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

possuir


eugenio recuenco

possuir
não é segurar
e
arremessar um seixo
solto


é caminhada

de ida e volta


possuir é
ver e ouvir

olhar e contemplar
escutar e acolher
desejar e querer
em ida e volta

possuír é
convite à surpresa

cama e sobre a mesa
unir a união
ser um
respirar bem fundo
torcer o mundo
em ida e volta

nova a mente
escutar e olhar
acolher e contemplar
de novo

...

na ida
e
na volta
possuir

daniel

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

sem


autor desconhecido

iremos descalços

sobre
cardos e caruma

à aventura
sem destino

iremos descalços
sobre
brasas e espuma

à procura
sem caminho

iremos descalços
sobre
tudo
sem tino

daniel

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

contar de novo



contei
uma
duas
três
e
à quarta
perdi
o conto
outra vez

Vamos contar
de novo?
Só mais uma vez...

uma
duas
três
quatro
cinco

Chega...
Mais não...
Que bem me sinto!

daniel

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

mais um dia de vida


roswell-in-space

debruei com o anel
num pedaço de casca de pinheiro
um barquinho castanho
com um fósforo
por mastro
e
por vela

um triângulo branco de papel
e
no lago verde do jardim
um peixinho vermelho
guiou-o nos ombros
e
uniu a minha margem à tua
com a aragem dum sopro
dos meus lábios
feitos beijo

o céu numa aguarela de azul
o sol numa chama de fogo

muito ao longe fugia
uma nuvem muito negra
duma violenta tempestade

daniel

domingo, 30 de julho de 2006

naufrágil


rafael trelles, pintor

voga a vida
frágil nau

ara a vaga

rumo à praia
à deriva


numa volta do mar

o naufrágio

afogo
entre muralhas
flutuo

entre destroços

náufrago

abraço
tábuas
em pedaços

de vaga em vaga

resto de restos

dou à praia

sem nada
com tudo

a vida


daniel

terça-feira, 25 de julho de 2006

corais

sentir morrer
e
lutar por mais vida

entrar no hospital
e
sair com mais um filho

abrir as mãos
e
abraçar as dores

beber as lágrimas
e
libertar um sorriso

sair vencido
e
recomeçar de novo

sentar na praia

e
azular no alto-mar

olhar o firmamento

e
acolher as estrelas que caem

daniel

quinta-feira, 20 de julho de 2006

fragmentos de cristal



atear-te as mãos
e
gelar

olhar-te nos olhos
e
cegar

sentir-te nos lábios
e
molhar

escutar-te em gemidos
e
emudecer

deitar-me sobre ti
e
amanhecer

daniel

quarta-feira, 19 de julho de 2006

texto feito de cinzas...


sandra cinto

cinzas
da fogueira vermelha
cinzas
do cigarro...
...

cinzas
féria quarta
...


as cinzas não sobram da morte da vida
as cinzas sobram....

daniel

terça-feira, 18 de julho de 2006

palavra escrita



no pano cru da tela
a palavra escrita

a pressa ou o stresse
a dúvida ou a alegria
a fadiga ou a fúria
a mágoa ou a ironia
não se bordam
nem se pintam


falta-lhes

cor
tom
olhar
esgar

palavra escrita
síntese
de sentires
fundo sem fundo

moribundo sem sentidos

toco

olho

escuto

para ter entendimento

sujeito predicado complemento

frase muito correcta
sem o dom de ser

Escreve "merda".
O que queres dizer?

daniel

domingo, 16 de julho de 2006

quando eu for nuvem...


foto de chema madoz

serei nuvem quando

sombra e chuva no ardor da sede

cama e castelo da serra de amor
odre de couro de trovões e faíscas
algodão bebido de quedas e feridas

negra se chorares na ida
branca se rires na vinda

daniel

sexta-feira, 14 de julho de 2006

roda de amigos


autor desconhecido

não falo de amigos nem de rodas

o amigo é pessoa e a roda uma coisa
o amigo ampara e a roda circula
o amigo é fixe e a roda desanda

não falo de gente em roda
dadas as mãos em rodopio
em canto de quem é a rosa
em giro de giroflé flé flá

falo de estar à roda
nos bancos de madeira da mesa
do pão de milho e do vinho branco
de palavras surdas e silêncios música
de lágrimas sonoras e gargalhadas mudas

falo de roda de encontro
falo de roda à dentada
falo de roda que conta
falo de roda molhada

vai uma rodada
vai outra rodada
para roda de amigos

daniel

quinta-feira, 13 de julho de 2006

lágrimas


autor desconhecido

lágrimas nem uma

magoam se de dor
enganam se de riso

nem frios pingos de suor
palpitam pálpebras pálidas

pontes da morte e da vida
finais pontos interrogações

e
o que passeia por ti
adormece cá dentro

daniel

quarta-feira, 12 de julho de 2006

nua


foto de pedro moreira

não te dispas e solta-me os dedos
permissão e doação que te
desperte
entorpeça
alerte
desaperte
desça em deslize
suba contra represas

nua sim
não porque te despiste
sim porque te desnudei
nua enfim


daniel

terça-feira, 11 de julho de 2006

alucinação


autor desconhecido

viver deserto de
esperanças nos
pós e areias em
tempestades com
lábios gretas de
aridez das
cruas
dunas múmias de dor

ocaso frio oásis de
tâmaras e seiva com
beijos de sabor num
torpor de saber a sol

bêbada a mente por
completo de ti

daniel

segunda-feira, 10 de julho de 2006

erros das peças de xadrez


galeria do ricardo

erro se desvio do bom caminho
erro se vagueio sem rumo certo

erro acidental ou constante
erro de direito ou de facto
erros

erro se deixo de acertar
no alvo
erro se incorro em erro
e engano
erro se ofendo ou injurio
e não me culpo
eu erro

errar
é próprio dum ser
que procura e escolhe

errante ser errado
regressa ao desvio
retoma nova rota
crível e possível
um viver de ir e vir
de opções por caminhos
supostos correctos

erros são jogos de xadrez
escolha de caminhos e saltos
o talvez de cada uma das peças
a nudez do peão ao rei e à rainha
às torres aos cavalos e aos bispos
peças de avanços e recuos

daniel

sábado, 8 de julho de 2006

mais modelos... não


ron mueck

não quero mais modelos
nem oferecidos nem vendidos
de silicone ou monstros sagrados

para quê mais modelos?

se maquetes...
eu não sou arquitecto!

se moldes...
eu não sou artista!

se partes...
eu sou um todo!

se protótipos...
eu uso de série!

se minutas...
eu tenho folhas em branco!

se fórmulas...
eu não sou advogado!

se vestidos...
eu não estou nu!

se de virtudes...
eu nem acredito neles!

se mitos...
eu sou caminhada sem fim!

mais modelos?
não!
só os que me impuseram!
só os que já escolhi!
che-gam-e-so-be-jam...
basta!

para quê mais modelos
se és única
e
obra-de-arte


daniel

sexta-feira, 7 de julho de 2006

tentação da gula


foto de laurent askienazy

sê sumo
à mão esprimido
alívio do meu corpo febril

sê doce
de uva madura
barrada em fatia
de pão de centeio do dia

sê salada
de frutos em pedaços
regada com porto vintage
ébrio licor do meu deleite

sê gelado
de banana e figo
bolas derretidas num cone

sê a mesa posta
sê a tentação da gula

daniel

quinta-feira, 6 de julho de 2006

o que vales


foto de katharine tillman

vales
nojo e náusea e vómitos
como se em tanque de rega
boiasse
ao meu encontro
corpo informe
de ranho e escarros

não
nem isso

vales

daniel

quarta-feira, 5 de julho de 2006

o tamanho da montanha onde nasci


paul cézanne

nasci david
em montanha
colosso de rodes

cresci árvore-mãe
dessa montanha
corcovada

homem feito
meti-me por atalhos
nessa montanha
do meu tamanho

hoje em dia
essa montanha
cabe-me na memória

daniel

terça-feira, 4 de julho de 2006

só duas palavras ou um texto em contexto

o que lês não é o texto
é o contexto

no texto
duas palavras escritas somente
baratinhas e simples
sementes

no contexto
não há imagem que te motive
Onde um amplo silêncio de um templo imenso
onde ecoasse o texto de duas palavras lidas?

no texto
não escutas som nem tom
não sentes toque nem olhar

no contexto
preciso dos teus sentidos
preciso de ti
toda

da tua boca
para que as leias alta a voz entoada
do teu ouvido
para que as escutes na tua leitura
do teu tacto
para que te entreabras e te deixes ensopar
no silêncio do tal templo imenso
da tua imaginação
para que me cries presente nos sentidos

Agora... sim!
Lê,
como te pedi,
as duas palavras que escrevi para ti...


És linda!

daniel