domingo, 29 de outubro de 2006

aos domingos - 29 de outubro


stone fountain

pedra

Segredou-me o fio de água:
- Dá-me tempo e serei mais duro que o granito
que me acolhe e
onde te sentas!
Na serra. À merenda. Neste Outono... tão morno!

Como se eu não fosse um fio de água a aspirar por
mais tempo para ferir os meus granitos...

daniel

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

pedro












"geopoliticus child" de salvador dalí

pedro é o nome próprio

santos silva são os apelidos da família
santos da mãe
silva do pai

pedrinho é nome próprio de menino
pedrinho é o nome do próprio
pedrinho é
silva, pedro santos



Pedrinho é menino e pobre. Parido em barraca de madeira.


Mas Pedrinho é diferente.
Tem um sinal mais moreno. Cinzelado, na noite negra
do nascimento. Por um raio de luar, nascido num
orifício. Talhado por pica-pau no telhado do
barraco.
Coberto de contraplacado.

Nas costas da mão esquerda foi ferrado.
A lua em quarto crescente.

Pedrinho é um menino.
Pobre.
Ferrado.
Diferente.

daniel

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

trilhos cruéis


"sem título" de armanda passos

trilhos retalhados por cicatrizes na fronteira de actos extremados
medeiam e sacralizam absurdos sentimentos selvagens

são culpas de Medeia
sacerdotisa de gelo assassina cruel dos filhos de linho fino num desgrenhado acto premeditado para vingança servida por neves eternas

daniel

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

as palavras que eu sou


"book transforming itself into a nude woman"
salvador dalí


as páginas do meu livro
sobrevoam as árvores nuas

num outono
de torturas que o inverno cobre
de manchas
da tinta dos rolos
que me trituram o corpo
impresso aos pedaços

as
palavras que eu sou

daniel

domingo, 22 de outubro de 2006

aos domingos - 22 de outubro


"head" de tony bevan

um ponto

... não me refiro a qualquer sinal...
... nem tão pouco a qualquer sábia figura
escondida pelos bastidores...
... este ponto mora num beco do bairro do
cérebro, mesmo no
entroncamento de duas
avenidas... a dos olhares com a dos
ouvidos.

Um ponto de gemidos e de
gritos!

daniel

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

dois professores


"intimité - un couple dans un intérieur" de françois vallotton

Professor de quadro de zona pedagógica.
Beja.
35 anos.
Dá a última aula a correr...
6ª. 5 da tarde.
Até 2ª! Às 8 da manhã!

Voa-lhe o desejo pela IP2...
1 bica e 1 queque, por favor!
Prego a fundo que se faz tarde... muito cedo!

Professora de quadro de escola. Numa aldeia.
37 de idade. 5 da tarde. 6ª.

Ele acabou a última aula... Só mais 2 horas!
Meninos! Banho! Jantar! O pai está a chegar!

Alto... a Guarda! Em casa!
Estaciona devagar... olha que as jantes roçam
no passeio. Uma chave e a porta. Que alvoroço!

Parti um vidro na escola...
Caiu a cabeça à boneca!

Jantar! Os desenhos animados são para amanhã de manhã!
Ó-ó!


Na mesa... uma vela acesa!
Na cama... a luz dum raio e o eco dum trovão!

2ª. 5 da manhã. Outra semana...
Ele beija! Ela aguarda!

Bom dia! Hoje, no fim da aula, gostaria que
soubessem
com que suor é amassado o pão...
deste vosso professor.

E, na 6ª, às 5 da tarde...
No mês seguinte...
Durante um ano...

Para o próximo... logo se verá!


daniel

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

mais um dia


contemplation

teri rosario


ouvi
rir e sorri
ler e escolhi
confessar e perdoei

calei

escuto o silêncio fala

hoje é mais um
dia que passa
mais perto de ti

passo a passo


daniel

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

eu remo


ocean blue
kenny primmer


tanto mar
tanto amar

sulcos

de remos
sobre dentro

a remar a remar a remar


velas
de mastro

brancas febril

a remar a remar a remar

leme

à ré
firme

a remar a remar a remar


âncora
de espuma
presa ao fundo

sem remar
no teu mar

daniel

domingo, 15 de outubro de 2006

aos domingos - 15 de outubro


"landscape near figueras" (1910)
salvador dalí


salvador dalí


"Não tenham medo da perfeição. É impossível atingi-la!"

Não tenho medo de Deus...
E gosto de loucuras...

daniel

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

sonhos por cumprir


"rainbow, sun, rain" (child art painting)

Numa mão... a mão da mãe.
Na outra... um papel amarrotado.
Um desenho!

Em baixo, ao fundo, meio palmo de verde.
Totalmente verde!
A Terra!

No quarto superior direito, ao centro, um círculo.
Tremido, com raios amarelos todos tortos.
O Sol!

No canto superior esquerdo, tantos riscos.
De todas as cores da colecção dos marcadores...
O Arco-íris!

Um arco-íris sem chuva?
Este só precisa de sol!

Sobre a Terra verde um arco-íris, sem chuva,
espelho do Sol e dos olhos do menino.

daniel

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

pretérito imperfeito


foto de virgiliu narcis

queria abraçar o sol com asas de ícaro
queria abarcar o mar com mãos de areia

tempo passado

em sonhos desfeitos
de suspiros
soprados

tempo incompleto
dum passado sem nada de errado
com saudades dum futuro inteiro

pretérito não acabado
de passado não perfeito

daniel

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

dos verbos


"idílio" de francis picabia

sou tua
vem

fui
do verbo ir
vim
do verbo vir

foste
do verbo ser
o verbo amar
em todos os tempos
de qualquer modo
a minha puta

daniel

domingo, 8 de outubro de 2006

aos domingos - 8 de outubro


"honey is sweeter than blood"
salvador dalí

coisas

... garantia-me um filósofo grego
ou um político germânico que...

"Todos vivemos debaixo do mesmo céu...
mas nem todos temos o mesmo horizonte."

Mas...
... será o meu céu o mesmo que o teu?
... será o teu horizonte diferente do meu?
Não é, pois não?
Não faremos parte de todos...
Seremos um todo em duas partes.

Ou apenas uns trocos
num jogo de trocadilhos?

daniel

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

da esperança


" unsatisfied desires" de salvador dalí

desnudei o céu
o meu e o teu
era o nosso

despi o horizonte
o meu e o teu
era o mesmo

da nau das vagas
um mumúrio de nome
o meu
ecoou na areia
ao fim da tarde
pelo trilho dum sol
vermelho de prata

tarda pouco
a quem muito aguarda

daniel

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

gemi teu nome



sob o arvoredo do pinhal do rei
frente ao mar de são pedro

enleei-me num abraço
a um pinheiro manso
prostrado do sol
ulcerado do sal
sulcado do pó

rente
outro pinheiro
resistia de pé
não por ser bravo
mas porque um pinheiro

de mansinho
se deitara primeiro

no pinhal dum rei
escravo de abraço
gemi teu nome

daniel

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

sonho com febre de lírios

"el sueño", salvador dalí

40,tal graus de febre

brasas e pânico
delírios de lírios-fétidos
odor quente de carne esmagada

doamos sempre as noites a quem amamos
em sono profundo
na fadiga dum mal dormir
por dor ou amor
dos outros
de nós próprios

40º,tal graus delirantes

amar-te-ei como ainda não sabes
se te convenceste de que as mãos não dizem
nunca amaste
só remexeste e mal

40,tal graus de lírios-d'água

já devo ter dito muito
tudo
não me importo de continuar a ser
embrulho

40,tal graus de suor
sinto-me molhado

daniel

sábado, 30 de setembro de 2006

... o poder da palavra em TPC para fim-de-semana...

"Relaxing on the veranda", de Shui Mei


Transcrevo, "ipsis verbis"...

[Tire um tempo para relaxar e recuperar a energia.
Já experimentou a "resposta relaxante"?

Esta técnica consiste na repetição de uma palavra, som ou frase enquanto está sentada com os olhos fechados.
A repetição permite-lhe alhear-se de outros pensamentos.
Experimente durante 10-20 minutos por dia num ambiente tranquilo e sem distracções.

Cereal Partners - Nestlé & General Mills]"


Em que consiste a técnica?
Repetir!

O quê?
Som ou palavras!

Como e quando?
Sentada com os olhos fechados!

Quanto?
10 a 20 minutos por dia!

Onde?
Ambiente tranquilo e sem distracções!

Será que se relaxa e se recupera a energia?
Aceitam-se descrições das respostas relaxantes... ou não!


daniel

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

entre cais


"venus and sailor", salvador dalí

cais a oriente
o comboio num cais de chegada
num oriente de nascentes

dois beijos de dúvidas com tremuras nos lábios
de ir mais além e esperar

pelos degraus até ao carro
para viagem por infinitos da foz do estuário ao mar
não recordo um único som
surdo não amputado


cais a ocidente
a traineira num cais de partida
num ocidente de acasos

ocaso de todas as dúvidas
num jantar de linguado de pescaria fértil
a prazo

daniel

terça-feira, 26 de setembro de 2006

me


redrainbow, beatriz matar

aceita que ofereço
tateia que careço

queima que arrefeço

aguarda
retarda
guarda

resguarda
me

daniel

sábado, 23 de setembro de 2006

um "bacio" ou a inaptidão para comprar presentes...

"O Beijo", de Di Cavalcanti

blogonovela às postas
posta quinta


Deixa...
... que te confesse que adoro o italiano!
É sonoro!
É cantabile!
É idioma!
Tem aroma a pizza!
Sabe a ópera!

Deixa...
... que fique bem claro!
Um "bacio" italiano não é... um beijo!
O "bacio" é bombom... chocolate!
Entreabrem-se os lábios e o bem_bom desliza, húmido, entre a língua e o céu-da-boca.
Desfaz-se!
Esgueira-se pela garganta!
Sumiu.

Era...
Foi um bombom, de nome "bacio", italiano, um só, embrulhado em papel prateado...
... com um laço no nó...

Dominó!
Palhaço!

Deixa...
... que te beije.
Um beijo em português.
Foneticamente surdo...labial e dento-palatal.
Vem embrulhado com um nada de tudo...

É brasa quando, doce, nos alaga os lábios e a boca...
É sal quando se demora no sulco duma lágrima evaporada...
É fome quando, leve e breve, resvala na pele.

Deixa...
... que este beijo tão bom... te aqueça.
... que o milagre aconteça.
... que a minha falta de jeito para comprar presentes te faça esboçar um sorriso aberto.
... que se soltem gargalhadas sem siso.
... que se renovem os estreitos carreiros dos afectos.

(fim da blogonovela - posta última )

daniel

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

um "bacio" ou a inaptidão para comprar presentes...


blogonovela às postas
posta quarta

- Quanto devo?
Paguei.
E recebi de troco:
- Era só um "bacio" que queria?

Era... Bastava-me um só! Desde que tivesse um laço prateado no nó...

E saí porta fora, feliz como um garoto armado em petiz...
O presente na mão, pendurado, seguro pela ponta da fita, entre o polegar e o indicador.
Que coisa! Saberia italiano a empregada do balcão?

[És louco, meu velho, pataroco de todo!
Foi tão só a tua apregoada falta de jeito para comprar presentes!
Foi tão só a tua apregoada falta de jeito para entender sorrisos!
Já sabia... O tal parvo-de-serviço!]

(fim da penúltima posta)

daniel

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

um "bacio" ou a inaptidão para comprar presentes...

foto de Lauranne, "Le monstre au miroir"
blogonovela às postas
posta terceira

A empregada do balcão pousou-me o bombom entre os cotovelos...

- É um presente... Embrulhe-mo em papel de festa, com um nó no laço prateado. Por favor...
Fixou-me nervosa. Visivelmente perturbada. E repeti, primeiro, para dentro e, em seguida, para ela, sem sombra de qualquer culpa...
- É um presente! Embrulhe-mo em papel de... por favor!
Que estranho! Que dificuldade em embrulhar-me o presente: sobrava o papel de festa prateado... o laço não dava o nó...
Mas será tão difícil assim dar o nó? Passar o laço?
É só fita! Prateada...

[Assustaste a pequena, meu monstro! Sem querer... mas assustaste!]

Olhei-me ao espelho da prateleira dos bombons... Não tinha mudado nada! Era exactamente o mesmo da manhã, no espelho da minha casa-de-banho! Tal e qual! Sem tirar nem pôr! Eu!
Onde estava o monstro, afinal?

[Pediste um "bacio"...
Pediste um "bacio"-por-favor...
Pediste um "bacio"-por-favor-embrulhado-em-papel-prateado...
Pediste um "bacio"-por-favor-embrulhado-em-papel-
prateado-com-laço-no-nó...]


(fim da terceira posta)

daniel

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

um "bacio" ou a inaptidão para comprar presentes...


blogonovela às postas
posta segunda

Renovei o pedido, armado em parvo.
E, dedo em riste, apontei
(Não se aponta que é feio...) a prateleira espelhada por detrás da empregada donde me convidavam os bombons "bacios" (Assim, à portuguesa, porque este blogue não brinca com italianas e palavras...).

- Um bombom "bacio", se faz favor!
- Só um?
- Sim, só um!

[Nem sorriso nem ar de cumplicidade... Adivinhei-lhe um rosto frustrado. Ou seria da minha miopia?]

Pegou num bombom "bacio". Pousou-o entre os meus cotovelos, sobre o vidro gordo do balcão.

(fim da segunda posta)

daniel

terça-feira, 19 de setembro de 2006

um "bacio" ou a inaptidão para comprar presentes...

blogonovela às postas
posta primeira

Deixa-te envolver nesta história de era-uma-vez...

Entrei, meio tímido meio decidido, na pastelaria.
Pousei os cotovelos pesados no vidro gordo do balcão. E aguardei, distraído, a minha vez.
- Que deseja?
- Um "bacio"!
A empregada esboçou um sorriso corado.

[Curioso... Teria eu, inadvertidamente, cometido uma palermice? Mas que foi que disse para provocar tal reacção? Ah, claro! Fui mesmo malcriado... Esqueci-me do "se-faz-favor"...]

- Um "bacio", por favor!
Pedi assim como quem se esquece sem querer.
Agora cúmplice, a empregada rasgou-se num sorriso vermelhudo...

[Desta vez... percebi! Então, meu velho? Cuidado... Foste abelhudo!]

E, renovei o pedido, armado em parvo...

(fim da primeira posta)

daniel

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

das marés

"Embrace", de Egon Schiele

preia-mar de águas-vivas em marés de espuma

mondam e ceifam com chicotes de caruma brava
que me harpeiam a pele em carne viva

baixa-mar de marés-vivas em águas
sobre rochedos do medo entre covos
de polvos que me rondam e tenteiam

numa maré-vermelha de algas e iodo

és maré-viva de setembro
numa atracção de sol com lua
que me arrasta contra a maré num cais
a que me acosto e amarro nuas
as cordas


daniel

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

dos cabelos compridos


"el gran masturbador" de salvador dali

... mas quando te namoro os cabelos compridos laçados
em rabo de cavalo e ergo encharcados dedos furiosos esguedelhados por poros de setembro suado
acontece
cegarem-me indiferenças e equilíbrios prudentes em alucinações de crinas a que me algemo nas quedas e cavalgo sobre ancas com pernas em arco para me esmagar no dorso
que escorre e percorro e corro a passo lento num trote a galope a galope sem freio nos dentes nem rédeas nos dedos que te domem sob força de animal selvagem miragem dum fogoso cavalo sem asas

acontece

que enlouqueço

daniel

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

do vinho


deborah richardson

sinto o vinho que me
embebeda em lavaredas que me
encharcam de instinto cego que não me
enxergo faminto de vinho tinto sede que me
forra a garganta ébria de seda e azedo que me
completa a mente de vinho tinto que me
embriaga de ques e mes
estou bêbado


daniel

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

com pedras


paula rego

das quatro pedras

na mão
uma
a primeira
foi jogada

numa atitude de pedra lascada
nem tu nem eu
éramos de pedra
para sermos alvo de tanta pedrada

pedra por pedra
de pedra e cal
sangrámos pedregulhos

e destruímos o templo
não restou pedra sobre pedra

daniel

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

mutilação em delírio


foto de christophe duret

pegar na régua e no estilete
recortar-te a pele ferida
em inúmeros centímetros quadrados
coloridos a cheio de vermelho quente e
sujo branco
como vários tabuleiros de xadrez
com patas de cavalos a galope em assaltos de cavaleiros
sobre obstáculos e valas de carne pisada por um desejo
voraz de reacender-te as chamas de incendiária
quando sondada no centro de cada quadrado desenhado
pelo estilete e pela régua

daniel

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

da vida


foto de alexandro bavario

que vício este de viver sempre a correr...


como se a vida crescesse se mais longa e veloz a correria...

como se a medida da vida se medisse aos metros e aos minutos...
como se a medida da minha vida não fosse o outro e tu sobre_tudo...
como se a medida da vida morresse na infinidade do mundo...
como se a medida se tornasse uma corrida desmedida...
como se vida não fosse morte...
como se vida não fosse...
como se vida...
como se...
começasse a querer ser um passo com_passado
a querer ser uma voz com_passiva...
a querer só ser sem ter...
a ser só começo...
a ser só...
a ser...
o recomeço...

por que corro se morro em cada recomeço?

daniel

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

limites


michal barteczko

onde os limites
ao poder dum amor cego
sob a venda negra da paixão

onde os limites
se

a pele é seda
a dor é prazer
o obsceno aguilhão
a exaustão prado ameno

retirada a venda à paixão
resta a calma no olhar
ao mais fundo da alma
com limites

daniel

terça-feira, 29 de agosto de 2006

invariáveis


foto de chema madoz

.
.
.
Quando?
Agora!

Já?
Sim!

Onde?
Aqui!

Mais?
.
.
.

daniel

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

Carta a Sexa

Excelentíssimo Senhor

Permita que ouse, com simplicidade, dirigir a Vossa Excelência algumas palavras de profunda admiração. A dignidade com que exerce as suas funções não me agrada! Deslumbra-me!

Testemunho vivo do reconhecimento foi a sessão de homenagem na terrinha de Vexa a que tive a honra de assistir. Um honroso convite dos seus amigos, honestos e penhorados, que souberam retribuir-lhe o muito que lhe devem. Quanta energia dispendida na divulgação da festa! Merece!


A palestra que proferiu será inesquecível e digna de edição de luxo. Pecado meu a incapacidade para a compreender. Nem calcula como me penitencio.

Não!
Vossa Excelência é rei, dada a corte que o envolve, mas não vai nu!
Vi-o vestido de fato completo e bem acompanhado por genuíno champanhe francês sobre a mesa da conferência.

Embalado, adormeci ao fixar-me na taça onde o gás borbulhava! Outro pecado!

Mas não me fiz rogado ao aplaudi-lo, de pé e com entusiasmo! Contágio da imensa trovoada de aplausos com que os seus amigos, familiares e conterrâneos,
tão grata gente, comprometida com o poder que Vexa exerce, o distinguiram e me acordaram.

Deixe-me que lhe confesse quanto me sensibilizou a naturalidade e a elegância daquele gesto sublime ao levar os dedos aos lábios para evitar que o gás regressasse! Tive pena que o fizesse porque o champanhe era francês e foi sorvido com um
melodioso prazer .

Cumprimenta-o com estima.

X...

PS: Permita-me um conselho de amigo convidado.
Não se iniba de libertar o gás do champanhe francês, por cima à frente ou por baixo atrás. Não é todos os dias que a sua corte de colaboradores tão próximos podem usufruir dum aroma tão sonoramente europeu!


Deus guarde Vossa Excelência porque só Ele é infinitamente justo e não consta das Escrituras que alguma vez tivesse tido o nariz entupido.

X...

daniel

domingo, 27 de agosto de 2006

Jóia para Sexa


cultura lambayeque

Presente idêntico foi oferecido a Sua Excelência por ocasião
da sessão de homenagem na sua terrinha.


" Muito obrigado. Servir-me-ei deste bule nos momentos de lazer."

Disse Sexa.

daniel

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

nós


foto de júlio viena


corri nós
os lassos

dos meus aos teus abraços

nós
unidos em traços de segredos
das minhas palmas aos teus dedos

as palavras gritaram beijos
os silêncios fartaram desejos

magia de um dia
à hora da aurora

só nós

daniel

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

nocturno - opus 173


eugenio recuenco

boa noite
maria
mulher mar
onda ria
boa noite

boa noite
agosto
mês sem mas
chamas com pez
boa noite

boa noite
farol
falo da luz
em cabo sem sono
boa noite

boa noite
maria
farol de agosto
em cabo de ria
boa noite

daniel

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

pedidos (a)gosto

se me pedires
o céu
dar-te-ei uma mancheia
de estrelas
seis brilhantes brancos
um a um

se me pedires
a terra
dar-te-ei um punhado
de areias
águas marinhas mil
grão a grão

se me pedires
o fogo
dar-te-ei uma lareira
de rubis escuros
sangue em brasas
gota a gota

se me pedires
a água
dar-te-ei uma fonte
de ametistas
rios de rocha roxa
pingo a pingo

se mo pedires
dar-te-ei

se ma pedires
também

se pedires
darei

daniel

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

possuir


eugenio recuenco

possuir
não é segurar
e
arremessar um seixo
solto


é caminhada

de ida e volta


possuir é
ver e ouvir

olhar e contemplar
escutar e acolher
desejar e querer
em ida e volta

possuír é
convite à surpresa

cama e sobre a mesa
unir a união
ser um
respirar bem fundo
torcer o mundo
em ida e volta

nova a mente
escutar e olhar
acolher e contemplar
de novo

...

na ida
e
na volta
possuir

daniel

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

sem


autor desconhecido

iremos descalços

sobre
cardos e caruma

à aventura
sem destino

iremos descalços
sobre
brasas e espuma

à procura
sem caminho

iremos descalços
sobre
tudo
sem tino

daniel

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

contar de novo



contei
uma
duas
três
e
à quarta
perdi
o conto
outra vez

Vamos contar
de novo?
Só mais uma vez...

uma
duas
três
quatro
cinco

Chega...
Mais não...
Que bem me sinto!

daniel