sábado, 3 de março de 2007

o meu sofá de orelhas


in "Die grosse Reise des Nikolaus"
Marlies Klein

o meu sofá de orelhas veste-se do verde azeitona
de elvas

o meu sofá de orelhas serve-me para descanso
dolente não se vestisse ele dum verde azeitona
de elvas

o meu sofá de orelhas escuta-me enquanto descanso
porque tem orelhas e revestidas dum verde azeitona
de elvas

no meu sofá de orelhas descanso e escuto-me
enquanto roo os caroços das azeitonas verdes
de elvas

Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 1 de março de 2007

o meu cão


"dog on the beach" de jo crowther

ou leão ou turco ou só cão ou
porque não

ou serra ou castro laboreiro ou
só rafeiro

mas cão

busca busca busca
dá cá ao dono dá cá

suados
das correrias
mergulharemos na água fria

um osso com raspas para ti
para mim um naco de pão saloio
com torresmos

ao diabo o colesterol e a diabetes

só quero que sejas o meu prozac_ão!

na praia do verão
no sótão do inverno

mas cão
meu

Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

maria alice III



Não resisti!
Abri meia-porta da minha janela-saca-
da.
Pelo constante rodopiar da cabeça,
percebia-se
que a senhora gorda e bai-
xinha desconhecia para
onde fugira a
criancinha e donde regressaria.


O fresco da manhã inundou-me as narinas.
E apercebi-me que deixara de haver drama.
A dita
estendia o braço acima da cabeça e,
com a palma da
mão virada para baixo, agi-
tava-o freneticamente no
sentido vertical,
uivando ainda um anda-cá-anda-cá-anda-cá.


Segui o gesto com o olhar. Ao fundo da rua
do café do
Senhor Mário, numa curva do em-
pedrado do passeio,
ainda húmido do borriço
daquela manhã, derrapava um
ser que de cri-
ancinha nada tinha.


Uma cadelinha!
A tão gritada Maria Aliiiiiiiice... era uma
cadela. Vestia
sobre o cinzento tronco tos-
quiado um colete vermelho
com mangas à cava.
Na ponta da cauda e nas quatro
patas farfa-
lhudos pompons de pêlo. Orelhas hirtas e
ma-
gra que nem caniço.


E entre palavrinhas e latidos de carinho,
aconchegou-se
no colo da dona.
E entre lábios e beiços trocaram-se lambi-
delas e beijos
salivados.
Marchou o que restava do bolo de arroz.
Guardado esta
va o bocado...

Uma mútua paixão correspondida.
À "maria alice" cabia
o papel de prozac
matinal da senhora baixa e gordinha.


Cerrei a meia-porta da janela-sacada.
Corri as cortinas.

Descalcei os chinelos de quarto e
regressei à cama já fria.


Daniel Sant'Iago

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

maria alice II

Como fazer-vos ouvir aquele uivo estridente?
Como... se foi indescritível e entre dentes?

A hiena entoou num tom pesado e martelado.

(Exactamente como quando o papá, vestida a
pele de lobo mau, quer dar a sensação de
que é lobo mesmo e que está deveras furioso.

Malha, então, em cada sílaba com pausas in-
ter
mitentes... An-da-cá-que-que-ro-con-ver-
sar-con-ti-go... Lembram-se?)


Dado o tom, a senhora gorda e baixinha
atingiu, na sílaba "li", duas oitavas
acima, um silvo prolongado até à exaustão
do fôlego final. Quase que se ia... A úl-
tima sílaba já não interessava. O que
ver-
dadeiramente importava não era o
nome. O
essencial do chamamento residia
naquele
cume escarpado,
bem esganiçado, total-
mente fora de si. Sem
dó...

Foi esse monstro agudo e obtuso que me
furou os tímpanos. E, de tão lancinante-
mente repetido... fiquei muito preocupado.
Deveras! Caso para 115... o 112 de então?

Perdera-se uma criancinha, com certeza...
E teria zarpado para bem longe dado ser
tão
insistente o uivo da senhora gorda e
baixinha.

Parte do bolo de arroz mantinha-se entre
os dedos...

- Maria Aliiiiiiiiice!

Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

maria alice I

Domingo.
Oito horas e quinze minutos duma manhã
fresquinha.
Acordo sobressaltado. Logo naquele dia
em que um filme serôdio e uma insónia
precoce detinham-me encovado entre lençóis.
Pulo da cama. Um ai. Subo o estore. Outro.

(Esqueci-me de vos informar que moro num
primeiro andar, mesmo em frente dum café.
O horário? Das 8 às 24. O Senhor Mário,
o patrão,é muito pontual. À entrada e à
saída. Já agradeci à esposa ele ser assim.
Vantagem para mim... de ele ser casado com
uma mulher de saudáveis prazeres na vida!
Porquê? Ora.. porquê.. porquê! Porque sim!)

Contava-vos eu que, em dois ais, estava
à minha janela de sacada espreitando por uma
nesga da cortina de renda. À entrada do café,
uma senhora muito gorda e baixinha sufocava,
por entre migalhas de um bolo de arroz:

- Maria Aliiiiiiiiiiice!

Daniel Sant'Iago

sábado, 24 de fevereiro de 2007

enterro e flores


"sacrifice"
mark rothko


Não respondi ao grito.

Vivia longe e ocupado.

Pensava num título de um documentário
de homenagem a Vinicius de Moraes:

"Quem pagará o enterro e as flores
se eu morrer de amores?"

Fora de mim não escutei uma palavra tua.
Castiga
a minha presunção.
Quando eu me deitar de costas, põe-me
um pé na garganta e outro na boca.

E passa sobre mim três vezes.

Donde me vem tanta soberba?

Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

que assis seja


"bleu II" de joan miro

que

a dor seja água
e a mágoa flor

a prisão...
...
e o amor uma tenda

seja assis
assim seja



(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007


"quarta feira de cinzas"
benjamin silva


sou
pó do levante
na guerra da vida

serei
do ocaso
nos restos
da morte

cinzas dum entardecer
em quarta-feira de páscoa

Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

ela e ele e eu


"hustler" de arthur sarnoff

- Fazes-me aquilo? - ele.
- Não insistas! - ela.
- ...

- ...

- ... - insistia ele
.
- ... - repetia ela.
- ...
- Dá-me vómitos! Engasgo-me!
- Só uma vez... - ele.
- Nunca farei isso! - ela.


Aquilo e isso...
eram...

Julgo eu.


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

domingo, 18 de fevereiro de 2007

kitsch_text



no segredo dum rochedo
introduza
na blusa
sem medo
dois dedos
húmidos da boca
e
provoque o toque
nos brinquedos

se

con_tusa do choque
se sentir confusa
sem rei
nem roque
e
se usa e abusa
dos berloques
sairá da toca
deusa ou musa
que
me seduza
agora
sob arvoredo
sem blusa
nem segredo

e
sem medo
das bocas sujas


Kitsch_test
!


Este
texto é um teste.
Ao meu mau gosto.
À minha escrita obscena.
E à mediocridade carnavalesca.

Reli obscenidades picantes.
Bocage e
Marcial.
Senti-me desculpado!
É que... (já) Bocage não sou...

Mas... que título para este escrito?

A títulos de "posts" em blogues exige-se-lhes
síntese e a amarração
fulminante dos leitores.

Escolhi um híbrido "kitsch" entre:
"Uma merda de texto!"

"A Bocage desbocado, Rei do Carnaval!"
"Hino à parvoíce!"


Que tal? Indecente? Eu? O texto?
O título... não! É só "kitsch"!
Mas que dizer
face ao soneto de Bocage?
"Cagando estava a dama mais formosa..."

Comentem mas não me desanquem!
Acarnavalem comigo!
Des_(mas)_cara_da_mente!

Daniel Sant'Iago

sábado, 17 de fevereiro de 2007

máscara seis




e
a um intenso prazer
chamou-lhe o confessor
pecado e_mortal


Daniel Sant'Iago

aqui

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

máscara cinco





à ternura
sem eco
chamo-lhe tortura


Daniel Sant'Iago

aqui

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

máscara quatro





à guerra
chama-lhe o ditador
um caminho para a paz



Daniel Sant'Iago

aqui

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

máscara três





ao sorriso
entre quem ama
chamo-lhe hu_amor


Daniel Sant'Iago


aqui

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

máscara dois






ao infiel

quando ama
chama-se amante

Daniel Sant'Iago

aqui

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

máscara um






ao teu silêncio
quando me magoa
chamo desprezo


Daniel Sant'Iago

aqui

sábado, 10 de fevereiro de 2007

dia não


"depression"
alexey linkov


hoje

o sol

não subiu o monte
...
a lua
morreu em quarto minguante
...
as estrelas
desmaiaram sem luar


hoje
não existiu

(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

sol - pôr

Solto as rédeas ao freio.
Do meu olhar.


Pelo ocaso, o azul acinza.
E a cinza enrola-se à prata.
A_fogo em chamas nas águas.

O silêncio não marulha.
E da terra ecoa o nada.

No banco de ripado verde,
escurecem as páginas do moleskine.

Cego, estalo o elástico negro.
Sobra a franja da fita do marcador.


Eu sei porque quero que a alma desespere.
Escorreu-me a esperança por entre os dedos.

- Tenho uma triste notícia a dar-te.
A Teresa morreu.


Cedeu ao aneurisma. Numa cama deslavada do hospital.
De São José.

Resta-me o sal no pôr do sol.


Porto Côvo.

Aos tantos do tal de mil novecentos e muitos!

Daniel Sant'Iago

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

olhar de amêndoa e mágoa


"mother and child" de gustav klimt

Tropecei nos teus olhos de amêndoa e mágoa.
Talhes de doçuramara na ira dum olhar. Eiras

de grão moído. Pó entre mós. De pedras rudes.

De ataque com funda. Do fundo. Mal ditas.

- O meu marido...

Segredei-te o meu ombro.
Reservei-te um bilhete de ida.

Manchei-te os lábios de cafés.
Li-te poesia na Fnac do Colombo.

Cravei-te no olhar o verde da vida.

- O teu filho...
E adubei-te com uma mancheia de sorrisos.

Dos olhos amendoados regressou a mágoa.
Comigo.
Em nódoas feridas na pele.
Do meu casaco.


Daniel Sant'Iago

ano dois









BRINCO DE PALAVRAS
Daniel Sant' Iago