terça-feira, 21 de novembro de 2006

princesa de muitos mimos - IV


michael wertz

Não é ficção este relato do dia-a-dia da Kintudê.

Acredita!
A cadelinha foi, durante o ano lectivo,
uma princesa de vermelha trela e de muitos mimos.

Acredita!
Pela manhã, a rafeira era o centro das atenções de
toda a gente, pequena e grande, na importância ou
no tamanho. Daqui um olá. Dali uma festa.
E os latidos soltavam-se como pulos...

Acredita!
Só um menino tinha o dom de ser obedecido:
o tratador de serviço, por uma semana, portador
do relógio a sério, todo amarelo, lindo, único!

Acredita!
No ritual de uma lambidela no amarelo do relógio.
Solta a corrente, trela vermelha na mão,
a Kintudê seguia-o para a sala de aula.
Atada a trela à perna duma cadeira da última fila,
não consta, até hoje, uma queixa de mau comportamento.

Acredita!
Fui parteiro e explicador dum acto de parir...

Os meus olhos viram.
Eu acreditei.

daniel

sábado, 18 de novembro de 2006

a morte

um momento mais
entre
actos de amor
nos
passos da vida

só um traço-de-união

entre
margens de rios
de dor e de saudade

também

daniel

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

princesa de muitos mimos - III


michael wertz

Regressaram aos gritos... por recreios e corredores...
Alagados em sorrisos e apinhados nas palavras...

- Acordámos o veterinário...
- Dois euros e cinquenta cêntimos para as vacinas...

Na cédula da cadelinha constava um nome. "A Kintudê"!
Tal e qual. Com capa e tudo. O nome da turma... 5ºD.
E ainda... a trela de cabedal vermelho... a coleira
medicinal... a comida fina... o champô para as pulgas e carraças...

- Eu dou-lhe banho - comprometia-se a Joana. Sei como é!

Muita publicidade colorida... e um relógio a sério, lindo, todo amarelo... Mas só um!

- Trezentos e cinquenta euros para a casota de cimento, branca nas paredes e rosa nas telhas... Vem mais tarde!
Era pesada...

E alguns pais, tão loucos como o veterinário e os miúdos, acolhiam a cadelinha ao fim-de-semana ou saltavam a grade da escola para que "A Kintudê" não passasse fome nem sede nem morresse de saudades...

Passados dias, recontei os trocos sobejos.
Sobrara muito mais do que havia sido gasto...
Seriam os trocos sementes em terreno fértil?
Alguém repôs o vazio do saco de plástico vermelho...

Ai se eu vos confessasse como leveda o fermento desta "massa"...
Pela trela, arrastavam a cadelinha, princesa de muitos meninos!

daniel

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

princesa de muitos mimos - II


michael wertz

Já na aula, de pé, armei-me em todo-poderoso.
- Abrir a lição!
- E a cadelinha?
- A brir a li ção...
- Temos dinheiro... Da venda do jornal de turma.
- ABRIR A LIÇÃO!
- E podíamos ir ao veterinário...
Com o berro... aquele ar gelado de professor cumpridor... inflexível.
- E se a cadelinha morre?
E eu convencido que, naquele momento, cadelinha... já fora!
- Ela está à espera de bebé...
Estranhamente, os cadernos diários mantinham-se aferrolhados...
- Já morreu. Cochichou a Inês.

Desisti! Dei-me por vencido! Impossível resistir à força interior dos miúdos...
Passei-lhes para a mão o saco de plástico vermelho... o nosso cofre-forte.
Distribuímos tarefas... E responsabilizei-os por tudo... Por tudo mesmo!
Desapareceram-me da vista num ápice! Todos!

À secretária, comigo e com o livro de ponto nos dedos, grudou-se-me a angústia.
- Meti-me noutra...
Os meus botões anuíram...
- E o programa? Que vou escrever no sumário? E se acontece alguma coisa a algum?

Mas... para que estás tu tão angustiado se a cadelinha já morreu?
Pois...

daniel

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

princesa de muitos mimos - I


michael wertz

Oito horas duma manhã sonolenta.
Seria outro o Novembro.
Subia eu e a preguiça a alameda de acesso
ao edifício da escola.

De um grupo de alunos, saltaram o Fábio e o Mário,
com voz pequena e olhar amarelo:

- Setor, está ali uma cadelinha grávida... meio morta!
Levou uma bolada!

Despertei dos passos arrastados...
De facto, de patas para o ar, como quem mendiga
umas carícias na barriga, de olhos em bugalhos,
esperneando, o animal parecia não ir durar muito...

Para plantão à cadela sobraram dois dum exército
de detectives, de lupa em punho, em busca do agressor perdido...
Só encontrámos a bola...


Oito e catorze. O primeiro toque.
- Para a sala! Impus...
Assustaram-se...

daniel

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

sótão para os teus cabelos brancos


"morning sun" de edward hopper

Reacendo o sonho.
De meu pai.
Um Tê0!

sótão para sul

Com um terraço.
Arribado sobre areia.
Brinco de uma rocha.
Areado pelo sol.
Roxo de anil.
Dois livros.
Um CD.
Luz.
Ar.

sótão para sol

para teus cabelos brancos
saciei-me numa bola de sabão
no sol de uma verde madrugada
vermelha a sul em nascente azul
de águas salgadas sobre a mareia

sótão para rua

entre os farrapos dos trapos velhos
rasgados às dentadas pelo serra da estrela

sótão para mar

Que a lua nos desperte, em quarto crescente, a nascente,
e nos adormeça, em quarto minguante, a poente.
Que o enrolar quente das ondas nos baloice, amantes.
Que a nortada refresque as tardes, suados.
Que a morte nos seduza, abraçados.
Que o canto de Fauré nos encaminhe In Paradisum. Requiem!
Que o meu serra da estrela acorde e uive, mansinho. Serenos.

o sótão para os teus cabelos brancos

Pedrinho.
Menino parido em barraca de madeira.
Cinzelado na noite negra do nascimento.
Por um raio de luar, nascido dum orifício.
Talhado por um pica-pau no contraplacado.
Ferrado nas costas da mão esquerda.
Sinal de lua em quarto crescente.
Pobre. Ferrado. Diferente.
Fui
bola de sabão
só tão para nós.

daniel

domingo, 12 de novembro de 2006

aos domingos - 12 de novembro


" l'attesa " de rudy bagozzi

rédeas

Não se imponham rédeas a cavalos selvagens!
Mas se o não são... então... rédea curta!
Não muito... que lhes tolhem os movimentos.

E se já me proíbem tanto sal e pimenta...
para quê condenar-me eu a uma vida tão insossa?

Rédeas à solta!!

daniel

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

simples mente simples


"dive in", sherry's

Daniel

Revivi com os teus últimos posts. Confirmo que te autorizei a entrares "fundo na alma da (minha) alma".
(Ainda me deslumbro com poetas. Destes. A sério!
Como Fernando Pessoa.)

E pedes-me o impossível.
"O que é ser simples? Tu sabes!".
Eu sei? Eu... que sou um complicado?

Mas... o que entendes tu por "ser simples"?

Ora... escolhe:
Modesto? (Tento...)
Não sofisticado? (Só exteriormente...)
Espontâneo? (Sim!)
Franco? (
Às vezes...)
Ignorante nas simulações e fingimentos? (
Assim... assim...)
Pobre? (
Que remédio!)
Ingénuo? (
Quase sempre...)
Sem malícia? (
Quase nunca...)
Com conhecimentos rudimentares? (
Há piores...)
Sem grande experiência? (
Com alguma...)
Com modos despretensiosos? (
Sem dúvida!)

E agora? Como descalço esta bota?
Para te ser franco... não sou simples. Pareço ser.
Por dentro... sou muito complicado! Nem calculas...
Se soubesses...

Este ar sereno, verdadeiro e humano dá muito trabalho!
É resultado de raciocínio, de sofisticação...
Simples? Assim?
Não! Muito complicado!

Simples é o ar que respiro.

Simples é a água que se bebe.
Simples é o fogo que me aquece.
Mas não os definas porque é muito complicado!

Tenho algumas vantagens.
Ser obrigado a distribuir pelos meses os euros do ordenado!
Não poder levar muito tempo a escolher roupa e calçado!
Preferir ser a ter!
Simples? Não!
Complicado!

A simplicidade para os simples! Tribo a que não pertenço.
Passei por Assis e teria por lá ficado... Com o Francisco.
Complicado... Muito complicado!

Seria simplista se simplificasse a simplicidade dos simples.

Um abraço. Simplesmente.

Pedro.

E eu que garantia, a pés juntos,
que serias muito simples...
Afinal... um complicado!


daniel

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

dar


"verletze wurde" de mariola bogacki

dou

me todo em tudo
dás
te toda em tudo

falo do amor
não de sexo

dar e receber
sinónimos de sentido
in_verso


Copiado do espelho do quarto...
Garantiu-me ela, Pedro!
O teu jeito de dar... De extremos!

daniel

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

a cor que faltava


"soir bleu" de edward hopper

Lisboa, 31 de Outubro de ...

Daniel
Ontem, ao jantar, num restaurante do Bairro Alto,
faltava-me uma cor para concluir o quadro em esboço...
Ao meu lado, na mesa, sentava-se a... Linda como sempre!
O colar sugava-me o olhar para o decote de pele firme ao abandono...
E o sorriso e os olhos. E as palavras e os lábios. E as mãos e as carícias.

Presentes de sons e cores.
Uma pauta e uma paleta. Pat Metheny e Hopper.
O pincel e o desejo.

Só me faltava o vermelho!

E os meus sentidos despertaram num acorde maior. Num hino.
E o olfacto saboreou um beijo. E o olhar demorou no aroma.
E o tacto repousou na sede.
E propus com o silêncio que me escutasse um segredo.

Senti-lhe, sob o tampo da mesa, a ternura e a tremura.
E os meus toques mudos murmuraram-lhe tons nos lábios do ouvido.
E o vermelho brotou corado. Dióspiros nas maçãs do rosto.
Zeus alimentava-se connosco.

Podia concluir o quadro. Nos tons de vermelho.
E os frutos regaram sumo entre vinhos.
Assinei a orgia.

Um abraço.
Pedro

Além de sensual, és um irreverente!
Eu... levaria um estalo.
Mas tu és diferente!


daniel

domingo, 5 de novembro de 2006

aos domingos - 5 de novembro


"liebesbrief" de mariola bogacki

paixões

Em teoria...
... ser-se-à mais feliz enquanto se criam paixões por saciar
do que após se saciarem as paixões que se reprimem.

Como se fosse preferível manter a fome a matá-la...


daniel

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

seios


"awakening" de fausto pirandello

"... na ceia dos teus seios
a meias
devorámos
as ameias
e
traçámos um passeio
sem receio

...
Sei-os!"


Eu li-te, Pedro,
impresso a vermelho
num lenço de papel amarrotado.

daniel

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

paulo


"rooms by the sea" de edward hopper

Conceba-se Pedro por Paulo.
Um Silva mais.

Mas pai,

naquela noite de luar,consumido em labaredas,
entre os cantos
da barraca. Fora da madeira!
De si!
Três passos de sofrimento desmedido.
Quilómetros de gritos e gemidos gelados.
Cansados!

paulo e maria
casados
pais de pedrinho
o menino diferente
ferrado
com um quarto crescente
nas costas da mão esquerda


paulo
ria as lágrimas que chorava

vestia o frio que o gelava
comia a fome que o matava
bebia a sede que o secava
espontâneo como a erva
simples como o mar
deus dum sedutor

de mulheres
que o sonhavam suado
no terraço dum T zero

seio do sul
cavaleiro da praia

sob um raio de sol sensual
com um serra da estrela adormecido ao lado

daniel

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

maria


"la femme de l'amour" de francis picabia

era
maria dos santos
somente

Maria é mãe de Pedrinho.
Do menino pobre, ferrado e diferente.
Pedrinho é fruto parido de semente acolhida entre quentes.
E Maria foi mãe.
Silva, Maria dos Santos... também.

maria será
sempre a mãe de pedrinho ferrado por um raio de luar
em quarto crescente

amou muito e sempre
por isso é mãe de um menino diferente

daniel

domingo, 29 de outubro de 2006

aos domingos - 29 de outubro


stone fountain

pedra

Segredou-me o fio de água:
- Dá-me tempo e serei mais duro que o granito
que me acolhe e
onde te sentas!
Na serra. À merenda. Neste Outono... tão morno!

Como se eu não fosse um fio de água a aspirar por
mais tempo para ferir os meus granitos...

daniel

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

pedro












"geopoliticus child" de salvador dalí

pedro é o nome próprio

santos silva são os apelidos da família
santos da mãe
silva do pai

pedrinho é nome próprio de menino
pedrinho é o nome do próprio
pedrinho é
silva, pedro santos



Pedrinho é menino e pobre. Parido em barraca de madeira.


Mas Pedrinho é diferente.
Tem um sinal mais moreno. Cinzelado, na noite negra
do nascimento. Por um raio de luar, nascido num
orifício. Talhado por pica-pau no telhado do
barraco.
Coberto de contraplacado.

Nas costas da mão esquerda foi ferrado.
A lua em quarto crescente.

Pedrinho é um menino.
Pobre.
Ferrado.
Diferente.

daniel

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

trilhos cruéis


"sem título" de armanda passos

trilhos retalhados por cicatrizes na fronteira de actos extremados
medeiam e sacralizam absurdos sentimentos selvagens

são culpas de Medeia
sacerdotisa de gelo assassina cruel dos filhos de linho fino num desgrenhado acto premeditado para vingança servida por neves eternas

daniel

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

as palavras que eu sou


"book transforming itself into a nude woman"
salvador dalí


as páginas do meu livro
sobrevoam as árvores nuas

num outono
de torturas que o inverno cobre
de manchas
da tinta dos rolos
que me trituram o corpo
impresso aos pedaços

as
palavras que eu sou

daniel

domingo, 22 de outubro de 2006

aos domingos - 22 de outubro


"head" de tony bevan

um ponto

... não me refiro a qualquer sinal...
... nem tão pouco a qualquer sábia figura
escondida pelos bastidores...
... este ponto mora num beco do bairro do
cérebro, mesmo no
entroncamento de duas
avenidas... a dos olhares com a dos
ouvidos.

Um ponto de gemidos e de
gritos!

daniel

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

dois professores


"intimité - un couple dans un intérieur" de françois vallotton

Professor de quadro de zona pedagógica.
Beja.
35 anos.
Dá a última aula a correr...
6ª. 5 da tarde.
Até 2ª! Às 8 da manhã!

Voa-lhe o desejo pela IP2...
1 bica e 1 queque, por favor!
Prego a fundo que se faz tarde... muito cedo!

Professora de quadro de escola. Numa aldeia.
37 de idade. 5 da tarde. 6ª.

Ele acabou a última aula... Só mais 2 horas!
Meninos! Banho! Jantar! O pai está a chegar!

Alto... a Guarda! Em casa!
Estaciona devagar... olha que as jantes roçam
no passeio. Uma chave e a porta. Que alvoroço!

Parti um vidro na escola...
Caiu a cabeça à boneca!

Jantar! Os desenhos animados são para amanhã de manhã!
Ó-ó!


Na mesa... uma vela acesa!
Na cama... a luz dum raio e o eco dum trovão!

2ª. 5 da manhã. Outra semana...
Ele beija! Ela aguarda!

Bom dia! Hoje, no fim da aula, gostaria que
soubessem
com que suor é amassado o pão...
deste vosso professor.

E, na 6ª, às 5 da tarde...
No mês seguinte...
Durante um ano...

Para o próximo... logo se verá!


daniel

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

mais um dia


contemplation

teri rosario


ouvi
rir e sorri
ler e escolhi
confessar e perdoei

calei

escuto o silêncio fala

hoje é mais um
dia que passa
mais perto de ti

passo a passo


daniel

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

eu remo


ocean blue
kenny primmer


tanto mar
tanto amar

sulcos

de remos
sobre dentro

a remar a remar a remar


velas
de mastro

brancas febril

a remar a remar a remar

leme

à ré
firme

a remar a remar a remar


âncora
de espuma
presa ao fundo

sem remar
no teu mar

daniel

domingo, 15 de outubro de 2006

aos domingos - 15 de outubro


"landscape near figueras" (1910)
salvador dalí


salvador dalí


"Não tenham medo da perfeição. É impossível atingi-la!"

Não tenho medo de Deus...
E gosto de loucuras...

daniel

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

sonhos por cumprir


"rainbow, sun, rain" (child art painting)

Numa mão... a mão da mãe.
Na outra... um papel amarrotado.
Um desenho!

Em baixo, ao fundo, meio palmo de verde.
Totalmente verde!
A Terra!

No quarto superior direito, ao centro, um círculo.
Tremido, com raios amarelos todos tortos.
O Sol!

No canto superior esquerdo, tantos riscos.
De todas as cores da colecção dos marcadores...
O Arco-íris!

Um arco-íris sem chuva?
Este só precisa de sol!

Sobre a Terra verde um arco-íris, sem chuva,
espelho do Sol e dos olhos do menino.

daniel

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

pretérito imperfeito


foto de virgiliu narcis

queria abraçar o sol com asas de ícaro
queria abarcar o mar com mãos de areia

tempo passado

em sonhos desfeitos
de suspiros
soprados

tempo incompleto
dum passado sem nada de errado
com saudades dum futuro inteiro

pretérito não acabado
de passado não perfeito

daniel

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

dos verbos


"idílio" de francis picabia

sou tua
vem

fui
do verbo ir
vim
do verbo vir

foste
do verbo ser
o verbo amar
em todos os tempos
de qualquer modo
a minha puta

daniel

domingo, 8 de outubro de 2006

aos domingos - 8 de outubro


"honey is sweeter than blood"
salvador dalí

coisas

... garantia-me um filósofo grego
ou um político germânico que...

"Todos vivemos debaixo do mesmo céu...
mas nem todos temos o mesmo horizonte."

Mas...
... será o meu céu o mesmo que o teu?
... será o teu horizonte diferente do meu?
Não é, pois não?
Não faremos parte de todos...
Seremos um todo em duas partes.

Ou apenas uns trocos
num jogo de trocadilhos?

daniel

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

da esperança


" unsatisfied desires" de salvador dalí

desnudei o céu
o meu e o teu
era o nosso

despi o horizonte
o meu e o teu
era o mesmo

da nau das vagas
um mumúrio de nome
o meu
ecoou na areia
ao fim da tarde
pelo trilho dum sol
vermelho de prata

tarda pouco
a quem muito aguarda

daniel

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

gemi teu nome



sob o arvoredo do pinhal do rei
frente ao mar de são pedro

enleei-me num abraço
a um pinheiro manso
prostrado do sol
ulcerado do sal
sulcado do pó

rente
outro pinheiro
resistia de pé
não por ser bravo
mas porque um pinheiro

de mansinho
se deitara primeiro

no pinhal dum rei
escravo de abraço
gemi teu nome

daniel

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

sonho com febre de lírios

"el sueño", salvador dalí

40,tal graus de febre

brasas e pânico
delírios de lírios-fétidos
odor quente de carne esmagada

doamos sempre as noites a quem amamos
em sono profundo
na fadiga dum mal dormir
por dor ou amor
dos outros
de nós próprios

40º,tal graus delirantes

amar-te-ei como ainda não sabes
se te convenceste de que as mãos não dizem
nunca amaste
só remexeste e mal

40,tal graus de lírios-d'água

já devo ter dito muito
tudo
não me importo de continuar a ser
embrulho

40,tal graus de suor
sinto-me molhado

daniel

sábado, 30 de setembro de 2006

... o poder da palavra em TPC para fim-de-semana...

"Relaxing on the veranda", de Shui Mei


Transcrevo, "ipsis verbis"...

[Tire um tempo para relaxar e recuperar a energia.
Já experimentou a "resposta relaxante"?

Esta técnica consiste na repetição de uma palavra, som ou frase enquanto está sentada com os olhos fechados.
A repetição permite-lhe alhear-se de outros pensamentos.
Experimente durante 10-20 minutos por dia num ambiente tranquilo e sem distracções.

Cereal Partners - Nestlé & General Mills]"


Em que consiste a técnica?
Repetir!

O quê?
Som ou palavras!

Como e quando?
Sentada com os olhos fechados!

Quanto?
10 a 20 minutos por dia!

Onde?
Ambiente tranquilo e sem distracções!

Será que se relaxa e se recupera a energia?
Aceitam-se descrições das respostas relaxantes... ou não!


daniel

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

entre cais


"venus and sailor", salvador dalí

cais a oriente
o comboio num cais de chegada
num oriente de nascentes

dois beijos de dúvidas com tremuras nos lábios
de ir mais além e esperar

pelos degraus até ao carro
para viagem por infinitos da foz do estuário ao mar
não recordo um único som
surdo não amputado


cais a ocidente
a traineira num cais de partida
num ocidente de acasos

ocaso de todas as dúvidas
num jantar de linguado de pescaria fértil
a prazo

daniel

terça-feira, 26 de setembro de 2006

me


redrainbow, beatriz matar

aceita que ofereço
tateia que careço

queima que arrefeço

aguarda
retarda
guarda

resguarda
me

daniel

sábado, 23 de setembro de 2006

um "bacio" ou a inaptidão para comprar presentes...

"O Beijo", de Di Cavalcanti

blogonovela às postas
posta quinta


Deixa...
... que te confesse que adoro o italiano!
É sonoro!
É cantabile!
É idioma!
Tem aroma a pizza!
Sabe a ópera!

Deixa...
... que fique bem claro!
Um "bacio" italiano não é... um beijo!
O "bacio" é bombom... chocolate!
Entreabrem-se os lábios e o bem_bom desliza, húmido, entre a língua e o céu-da-boca.
Desfaz-se!
Esgueira-se pela garganta!
Sumiu.

Era...
Foi um bombom, de nome "bacio", italiano, um só, embrulhado em papel prateado...
... com um laço no nó...

Dominó!
Palhaço!

Deixa...
... que te beije.
Um beijo em português.
Foneticamente surdo...labial e dento-palatal.
Vem embrulhado com um nada de tudo...

É brasa quando, doce, nos alaga os lábios e a boca...
É sal quando se demora no sulco duma lágrima evaporada...
É fome quando, leve e breve, resvala na pele.

Deixa...
... que este beijo tão bom... te aqueça.
... que o milagre aconteça.
... que a minha falta de jeito para comprar presentes te faça esboçar um sorriso aberto.
... que se soltem gargalhadas sem siso.
... que se renovem os estreitos carreiros dos afectos.

(fim da blogonovela - posta última )

daniel

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

um "bacio" ou a inaptidão para comprar presentes...


blogonovela às postas
posta quarta

- Quanto devo?
Paguei.
E recebi de troco:
- Era só um "bacio" que queria?

Era... Bastava-me um só! Desde que tivesse um laço prateado no nó...

E saí porta fora, feliz como um garoto armado em petiz...
O presente na mão, pendurado, seguro pela ponta da fita, entre o polegar e o indicador.
Que coisa! Saberia italiano a empregada do balcão?

[És louco, meu velho, pataroco de todo!
Foi tão só a tua apregoada falta de jeito para comprar presentes!
Foi tão só a tua apregoada falta de jeito para entender sorrisos!
Já sabia... O tal parvo-de-serviço!]

(fim da penúltima posta)

daniel