quarta-feira, 21 de março de 2007

Li


"romeu sem julieta"
diana costa


O nome.
Li.
Chinesa.


- Beba!
Bebi.

Sorriu.
Sorri.

Chá de jasmim.
Numa chávena.

Deu-ma com duas mãos.
Com duas mãos a colhi.

Serena.
Meiga.
Traços de amêndoa no olhar.

Li.
Um poema.

Às seis da tarde.
De certo 21 de Março.

Daniel Sant'Iago

terça-feira, 20 de março de 2007

só mais um zé


"the camel" de pablo picasso

José, escritor, afirmava, em entrevista, que
trocava o prémio que lhe conferiram os sábios da Academia por mais quinze anos
de vida, esperançado
de o ganhar durante esse espaço de tempo.

Confirmava que, todos os dias,
por inveja, o chamavam arrogante.

Sobre António, outro escritor seu contemporâneo, não gostava de o ler. Porque não. Que não gostava da sua escrita.
"Pronto!"

Não era rico apesar do tal prémio que lhe fora oferecido.
Mas que também não era pobre.

Remediado, digo eu!

lavei o olhar
entre o azul
do mar e do céu
entre o chumbo das nuvens e das águas
entre os borrifos das ondas de sete metros
esmagadas contra os rochedos e as falésias
ontem seriam três
da tarde no cabo carvoeiro

emporcalhara o olhar e a pele dos meus dedos
com tanta tralha que lera naquela entrevista
da página dois do semanário sol de dezoito
de novembro de dois mil e seis sábado

numa entrevista imprevista

Daniel Sant'Iago

domingo, 18 de março de 2007

convite


amicizia

decide
onde e quando

sussurrarei

como e quanto

gritaremos
...


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

sexta-feira, 16 de março de 2007

relatividade


"dois nus" de lasar segall

despido do acessório
sobrou-lhe o essencial

uns sobejos de restos
nus

sem cinto
as calças ruíram
nuns pés descalços
retalhados pelos vidros

acessórios essenciais

Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 14 de março de 2007

O segredo de Joe Gould *



Esfrega as mãos. Encardidas. Negras.
Nós grossos.
Repetidamente.
Lixa que lixa a pele bem seca. Gretada.
Feliz. O frio glacial.
Saíra-lhe a Taluda! De Natal!

Uma chávena de leite a escaldar.
Dois atados. Cartão grosso.
Uma semana de The New York Post.
Sorte Grande de um sem-abrigo!

"Era a maior autoridade dos Estados Unidos
da América em matéria de viver sem nada."
E escrevia a História Oral!

vida vivida


Daniel Sant'Iago

* Mitchell, Joseph. Edições D. Quixote.

segunda-feira, 12 de março de 2007

fragmentos sem nexo


"desintegrações" de antónio ole


entre nós e nus

o caminho é tão curto

calamo-nos à força
de não nos entenderem

o silêncio
podendo ser isso tudo
será sobretudo
um modo de ser

o silêncio
adormece nos lábios

sei do silêncio
as palavras inúteis

- fico, cada dia, mais apaixonada por ti...
- não vale ficar mais do que eu...
- empatamos ou ganhamos os dois...
- ganhamos sempre...
- está frio e chuva lá fora..
- cá dentro... não!
- aqui... também! O vento...

E essas tuas mãos!

Daniel Sant'Iago

sábado, 10 de março de 2007

alarriba, arrais!


"nudo di ragazza" de egon schiele

lanço a rede ao luar
Ala! Arriba!
...
vagas
dunas de águas
...
algas
nuas de azuis
...
laço teus dedos em nós
escultor de pedra dura
...
escoro
escorro
...

Força, arrais!

(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

sexta-feira, 9 de março de 2007

a minha última página
da tal carta ridícula


josé rodrigues
in "o amoroso" de josé viale moutinho

Nas Caldas, a mando da rainha, o oleiro
moldou os pés de barro da estatueta de
cristal da Marinha.

Corpo ginasticado e viril.
Herói cobarde nas feições.
Mártir em nome de ninguém.
Rei sem reino nem cortejo.

Santo Homemacho,
pronto para pôr no altar,
homem feito deus de prateleira
coberta de pó já negro do caruncho.

Segue, ainda hoje, 9 de Março de 2007,
em correio registado com aviso de recepção,
junto com esta carta ridícula e do cheque
em branco devidamente assinado.
Porque penso que não o quererias nem dado.

Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 8 de março de 2007

virar de página da tal carta ridícula


josé rodrigues
in "o amoroso" de josé viale moutinho

Escrevo-te a oito de Março de 2007.
Quinta-feira.

No teu Dia Internacional.
As minhas mais
inconsequentes condolências
por ainda
exigires este dia e exclusivamente
teu.
Sem mim.

Que insensatez a minha de insinuar que
poderiam
instituir o Dia Internacional
do Homemacho ou o
Dia Internacional do
Ser Humano...

Para quê?

Senhores gajos como eu não merecem que
sejam
recordados num único dia porque
têm os restantes
para ser uns escroques
e uns sabujos e uns bandalhos
da pior
espécie!


E não me venhas com essa de que eu sou
especial e diferente... que
estou do mesmo
lado da barricada... que luto ao teu lado
para...
que... Se assim eu fosse... se eu
pertencesse apenas a uma
minoria... para
que precisarias tu de um Dia sem mim?


Conheci noutras paragens Paek Bo-Bae,
uma norte-coreana que escolheu abraçar
a escravatura para sobreviver à morte
pela fome.
Vive vendida a um homem chinês.
Não teve alternativa. Resistiu aos
16 graus
negativos das águas fronteiriças do rio Yalu.
Ou seria do
Tunien? Interessa-te o nome do rio?
Desconhecerá se o pai e se o
companheiro e se
os rapazes da sua aldeia - todos homemachos -
ainda vagueiam por lá.


Hoje... vira-se mais uma página.
Para o ano, há outro Dia. 8.
E outro 8... outro 8... outro...
Até quando e sem mim?

Afinal, não era bem isto o que seria correcto
eu escrever.
Teria sido bem mais bonitinho
não ter perdido o meu tempo a desabafar esta
coisa ridícula e mal_dita! E gastá-lo a comprar
uma porcaria qualquer que te fizesse esquecer
que és uma privilegiada!

Não tens um Dia só para ti?

Bom proveito!

daniel

PS: Esquece o que leste! Não desistas!
Afinal, hoje, fui tão só o lado plebeu
do teu príncipe encantado que ansiosa
buscas... já coroado.

Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 7 de março de 2007

a minha última carta ridícula


josé rodrigues
in "o amoroso" de josé viale moutinho

Esta é a minha última carta ridícula.
Pelo tempo que disponho, levar-me-á três dias
a escrever. Antes, durante e no dayafter de oito
de Março de 2007. Comemoram o Dia Internacional
da
Mulher. Um dia. Supranacional. Só teu.

Feliz por se lembrarem de ti?

Não me recordes que há necessidade de tempos fortes
para que o óbvio seja trombeta.

Ontem, à noite, antes de me deitar, retirei da jarrinha de vidro o botão de rosa vermelho, pétalas em cálice de sépalas verdes, e uma espiga de trigo branco e cru.
Comprei-tos quando saímos do Vasco da Gama a caminho do parque A2. Não era dia de nada embora desejássemos uma noite de tudo.

Beijaste-me um obrigada.

Corridas umas semanas, a flor entrigada mantinha-se
vestida de vermelho mais desbotado. Do verde e do
branco e cru nem sinal de desmaios.

O meu acto de amor fora de plástico made in china.

Vou enterrar o ramo de duas peças na areia da
jarrinha de vidro depois de lhe ter limpo o pó.

Entre pétalas, o vermelho vivo recordou-me
aquele dia de nada. De há tanto tempo...

Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 5 de março de 2007

memento's


josé rodrigues
in "o amoroso" de josé viale moutinho

Sexta, 2 de Março. 19:30.
Um telefonema:
- Importa-se de...?
Desandei escadas abaixo.
Esperava-a sentada na sala.
Teimava em estar de pé.
- Prefiro...
No banco de urgências do hospital,
rostos salgados, lívidos de ansiedade.
Tremia-lhe o corpo abraçado por mim.

Momentos antes, as orelhas do meu sofá
verde-azeitona acreditavam no que lhes
segredava:
- Amanhã vou estar com ela...

Jantei pelas 21:30.
Dos dois acidentes sobraram pés e pernas
e costelas partidas e carros desfeitos.

Por mais que me tente convencer que hoje
pode ser o último dia... sonho contigo...
amanhã.

Daniel Sant'Iago

sábado, 3 de março de 2007

o meu sofá de orelhas


in "Die grosse Reise des Nikolaus"
Marlies Klein

o meu sofá de orelhas veste-se do verde azeitona
de elvas

o meu sofá de orelhas serve-me para descanso
dolente não se vestisse ele dum verde azeitona
de elvas

o meu sofá de orelhas escuta-me enquanto descanso
porque tem orelhas e revestidas dum verde azeitona
de elvas

no meu sofá de orelhas descanso e escuto-me
enquanto roo os caroços das azeitonas verdes
de elvas

Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 1 de março de 2007

o meu cão


"dog on the beach" de jo crowther

ou leão ou turco ou só cão ou
porque não

ou serra ou castro laboreiro ou
só rafeiro

mas cão

busca busca busca
dá cá ao dono dá cá

suados
das correrias
mergulharemos na água fria

um osso com raspas para ti
para mim um naco de pão saloio
com torresmos

ao diabo o colesterol e a diabetes

só quero que sejas o meu prozac_ão!

na praia do verão
no sótão do inverno

mas cão
meu

Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

maria alice III



Não resisti!
Abri meia-porta da minha janela-saca-
da.
Pelo constante rodopiar da cabeça,
percebia-se
que a senhora gorda e bai-
xinha desconhecia para
onde fugira a
criancinha e donde regressaria.


O fresco da manhã inundou-me as narinas.
E apercebi-me que deixara de haver drama.
A dita
estendia o braço acima da cabeça e,
com a palma da
mão virada para baixo, agi-
tava-o freneticamente no
sentido vertical,
uivando ainda um anda-cá-anda-cá-anda-cá.


Segui o gesto com o olhar. Ao fundo da rua
do café do
Senhor Mário, numa curva do em-
pedrado do passeio,
ainda húmido do borriço
daquela manhã, derrapava um
ser que de cri-
ancinha nada tinha.


Uma cadelinha!
A tão gritada Maria Aliiiiiiiice... era uma
cadela. Vestia
sobre o cinzento tronco tos-
quiado um colete vermelho
com mangas à cava.
Na ponta da cauda e nas quatro
patas farfa-
lhudos pompons de pêlo. Orelhas hirtas e
ma-
gra que nem caniço.


E entre palavrinhas e latidos de carinho,
aconchegou-se
no colo da dona.
E entre lábios e beiços trocaram-se lambi-
delas e beijos
salivados.
Marchou o que restava do bolo de arroz.
Guardado esta
va o bocado...

Uma mútua paixão correspondida.
À "maria alice" cabia
o papel de prozac
matinal da senhora baixa e gordinha.


Cerrei a meia-porta da janela-sacada.
Corri as cortinas.

Descalcei os chinelos de quarto e
regressei à cama já fria.


Daniel Sant'Iago

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

maria alice II

Como fazer-vos ouvir aquele uivo estridente?
Como... se foi indescritível e entre dentes?

A hiena entoou num tom pesado e martelado.

(Exactamente como quando o papá, vestida a
pele de lobo mau, quer dar a sensação de
que é lobo mesmo e que está deveras furioso.

Malha, então, em cada sílaba com pausas in-
ter
mitentes... An-da-cá-que-que-ro-con-ver-
sar-con-ti-go... Lembram-se?)


Dado o tom, a senhora gorda e baixinha
atingiu, na sílaba "li", duas oitavas
acima, um silvo prolongado até à exaustão
do fôlego final. Quase que se ia... A úl-
tima sílaba já não interessava. O que
ver-
dadeiramente importava não era o
nome. O
essencial do chamamento residia
naquele
cume escarpado,
bem esganiçado, total-
mente fora de si. Sem
dó...

Foi esse monstro agudo e obtuso que me
furou os tímpanos. E, de tão lancinante-
mente repetido... fiquei muito preocupado.
Deveras! Caso para 115... o 112 de então?

Perdera-se uma criancinha, com certeza...
E teria zarpado para bem longe dado ser
tão
insistente o uivo da senhora gorda e
baixinha.

Parte do bolo de arroz mantinha-se entre
os dedos...

- Maria Aliiiiiiiiice!

Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

maria alice I

Domingo.
Oito horas e quinze minutos duma manhã
fresquinha.
Acordo sobressaltado. Logo naquele dia
em que um filme serôdio e uma insónia
precoce detinham-me encovado entre lençóis.
Pulo da cama. Um ai. Subo o estore. Outro.

(Esqueci-me de vos informar que moro num
primeiro andar, mesmo em frente dum café.
O horário? Das 8 às 24. O Senhor Mário,
o patrão,é muito pontual. À entrada e à
saída. Já agradeci à esposa ele ser assim.
Vantagem para mim... de ele ser casado com
uma mulher de saudáveis prazeres na vida!
Porquê? Ora.. porquê.. porquê! Porque sim!)

Contava-vos eu que, em dois ais, estava
à minha janela de sacada espreitando por uma
nesga da cortina de renda. À entrada do café,
uma senhora muito gorda e baixinha sufocava,
por entre migalhas de um bolo de arroz:

- Maria Aliiiiiiiiiiice!

Daniel Sant'Iago

sábado, 24 de fevereiro de 2007

enterro e flores


"sacrifice"
mark rothko


Não respondi ao grito.

Vivia longe e ocupado.

Pensava num título de um documentário
de homenagem a Vinicius de Moraes:

"Quem pagará o enterro e as flores
se eu morrer de amores?"

Fora de mim não escutei uma palavra tua.
Castiga
a minha presunção.
Quando eu me deitar de costas, põe-me
um pé na garganta e outro na boca.

E passa sobre mim três vezes.

Donde me vem tanta soberba?

Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

que assis seja


"bleu II" de joan miro

que

a dor seja água
e a mágoa flor

a prisão...
...
e o amor uma tenda

seja assis
assim seja



(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007


"quarta feira de cinzas"
benjamin silva


sou
pó do levante
na guerra da vida

serei
do ocaso
nos restos
da morte

cinzas dum entardecer
em quarta-feira de páscoa

Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

ela e ele e eu


"hustler" de arthur sarnoff

- Fazes-me aquilo? - ele.
- Não insistas! - ela.
- ...

- ...

- ... - insistia ele
.
- ... - repetia ela.
- ...
- Dá-me vómitos! Engasgo-me!
- Só uma vez... - ele.
- Nunca farei isso! - ela.


Aquilo e isso...
eram...

Julgo eu.


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)