quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

a sedução da utopia


dom quixote
picasso



A Utopia é
Thomas More.
Uma ilha. Tão imaginária.

A utopia é um ideal.
Um projecto.
Um modelo.
Um plano.


A utopia é o inatingível.
O impraticável.
O inexequível.


A utopia é o não lugar.

A utopia é a sedução.
A quimera.
A fantasia.

A utopia é um caminho.

A caminho dum infinito.

Uma caminhada até ao limite do ser.
A sedução do caminho para a utopia.

Seduz-me a caminhada e a fantasia.

daniel

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Sons em... jogo... de palavras - II


"morning" de dod procter

tudo de ti toda

não me bastas

de todo...
...bastava
tudo de ti...

(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

domingo, 3 de dezembro de 2006

aos domingos - 3 de dezembro


"flower vendor with child"
diego rivera


natal de 2006 - I

e ? ou

os meus meninos
precisam
de mim
do pai natal
do menino jesus

ou ? e

o meu natal
vive-se
numa data
todos os dias
num estado de espírito

e ? ou

a minha vida
pinta-se
a preto
a branco
às cores

ou ? e

natal
é

dia
noite
entardecer
madrugada

E?
Ou?
Ou ou e e?

Não...
Sim...
Nim...

daniel

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Sons em... jogo... de palavras - I


"les amants" de rené magritte


gruda-me

madruga-me de madrugada...
...
gritarei no grude da tua gruta

grato


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

terça-feira, 28 de novembro de 2006

do tempo


"eleven AM" de edward hopper

dos ponteiros dos relógios
libertei-me dos
minutos
agrilhoaram-me segundos

escarr_os
com_tudo
m_açaimo
quando carrasc_o tempo
me chicoteia
escravo
d_um _a_troz_descrenç_a_bsoluta_


daniel

domingo, 26 de novembro de 2006

aos domingos - 26 de novembro


"le cri muet" de valcárcel guevara

o silêncio

calei-me
para te escutar
e
aprender a falar

falei-te
para me escutares
e
aprendi a calar-me

desde então
grito nu
silêncio

daniel

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

foice eu fosse

ah
se
eu
fosse foice
e ceifasse searas
saciaria a sede
da seda suada

ah

se eu
foice fosse

"head" de antoine pevsner

daniel

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

princesa de muitos mimos - V


michael wertz

Aninhado num canto da biblioteca da escola
e às aranhas com um computador, desvendava
os segredos do Word de acordo com a lição
imposta pelo Gustavo. Um dos meus loucos!

Elas e eles e aos empurrões e aos gritos:
- Setor, a Kintudê está a parir!
Venha depressa! Olhe que a matam!

Eu. O último a chegar ao alarido.
A casota. De cimento. Rosa e branca.
Eles. Uma matilha imensa de gente curiosa.

O tal berro berrado aos berros afastou-os
para um semi-círculo de cinco metros de raio.
Mais olhos que silêncio. Naquele momento.

A Kintudê lambia carinhosamente o filho.
Porquê? Quantos são? É cachorro?
Como nasceu? Toma nota para a cédula!
Abaixa! Deixa ver! Bruto! Não empurres!
Escuta o setor...

Foi assim que fui parteiro e explicador de um
acto de parir com mais de setenta assistentes.

Por pouco... muito pouco, o funeral do cachorrinho
nado-morto não teve honras de cerimónia fúnebre...
e religiosa! Os miúdos perceberam, a custo, que
cadela é cadela e pessoa é pessoa.
A custo!

A Kintudê estava de boa saúde quando o relógio
a sério, amarelo, lindo, único passou para
o pulso de uma colega professora com quem
vive desde então.

Foi uma cadela rafeira, senhora de vermelha trela
e princesa de muitos mimos.
Foi noutro Novembro, às oito horas duma manhã sonolenta.
Subia eu e a preguiça a alameda de acesso à escola quando...

daniel

terça-feira, 21 de novembro de 2006

princesa de muitos mimos - IV


michael wertz

Não é ficção este relato do dia-a-dia da Kintudê.

Acredita!
A cadelinha foi, durante o ano lectivo,
uma princesa de vermelha trela e de muitos mimos.

Acredita!
Pela manhã, a rafeira era o centro das atenções de
toda a gente, pequena e grande, na importância ou
no tamanho. Daqui um olá. Dali uma festa.
E os latidos soltavam-se como pulos...

Acredita!
Só um menino tinha o dom de ser obedecido:
o tratador de serviço, por uma semana, portador
do relógio a sério, todo amarelo, lindo, único!

Acredita!
No ritual de uma lambidela no amarelo do relógio.
Solta a corrente, trela vermelha na mão,
a Kintudê seguia-o para a sala de aula.
Atada a trela à perna duma cadeira da última fila,
não consta, até hoje, uma queixa de mau comportamento.

Acredita!
Fui parteiro e explicador dum acto de parir...

Os meus olhos viram.
Eu acreditei.

daniel

sábado, 18 de novembro de 2006

a morte

um momento mais
entre
actos de amor
nos
passos da vida

só um traço-de-união

entre
margens de rios
de dor e de saudade

também

daniel

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

princesa de muitos mimos - III


michael wertz

Regressaram aos gritos... por recreios e corredores...
Alagados em sorrisos e apinhados nas palavras...

- Acordámos o veterinário...
- Dois euros e cinquenta cêntimos para as vacinas...

Na cédula da cadelinha constava um nome. "A Kintudê"!
Tal e qual. Com capa e tudo. O nome da turma... 5ºD.
E ainda... a trela de cabedal vermelho... a coleira
medicinal... a comida fina... o champô para as pulgas e carraças...

- Eu dou-lhe banho - comprometia-se a Joana. Sei como é!

Muita publicidade colorida... e um relógio a sério, lindo, todo amarelo... Mas só um!

- Trezentos e cinquenta euros para a casota de cimento, branca nas paredes e rosa nas telhas... Vem mais tarde!
Era pesada...

E alguns pais, tão loucos como o veterinário e os miúdos, acolhiam a cadelinha ao fim-de-semana ou saltavam a grade da escola para que "A Kintudê" não passasse fome nem sede nem morresse de saudades...

Passados dias, recontei os trocos sobejos.
Sobrara muito mais do que havia sido gasto...
Seriam os trocos sementes em terreno fértil?
Alguém repôs o vazio do saco de plástico vermelho...

Ai se eu vos confessasse como leveda o fermento desta "massa"...
Pela trela, arrastavam a cadelinha, princesa de muitos meninos!

daniel

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

princesa de muitos mimos - II


michael wertz

Já na aula, de pé, armei-me em todo-poderoso.
- Abrir a lição!
- E a cadelinha?
- A brir a li ção...
- Temos dinheiro... Da venda do jornal de turma.
- ABRIR A LIÇÃO!
- E podíamos ir ao veterinário...
Com o berro... aquele ar gelado de professor cumpridor... inflexível.
- E se a cadelinha morre?
E eu convencido que, naquele momento, cadelinha... já fora!
- Ela está à espera de bebé...
Estranhamente, os cadernos diários mantinham-se aferrolhados...
- Já morreu. Cochichou a Inês.

Desisti! Dei-me por vencido! Impossível resistir à força interior dos miúdos...
Passei-lhes para a mão o saco de plástico vermelho... o nosso cofre-forte.
Distribuímos tarefas... E responsabilizei-os por tudo... Por tudo mesmo!
Desapareceram-me da vista num ápice! Todos!

À secretária, comigo e com o livro de ponto nos dedos, grudou-se-me a angústia.
- Meti-me noutra...
Os meus botões anuíram...
- E o programa? Que vou escrever no sumário? E se acontece alguma coisa a algum?

Mas... para que estás tu tão angustiado se a cadelinha já morreu?
Pois...

daniel

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

princesa de muitos mimos - I


michael wertz

Oito horas duma manhã sonolenta.
Seria outro o Novembro.
Subia eu e a preguiça a alameda de acesso
ao edifício da escola.

De um grupo de alunos, saltaram o Fábio e o Mário,
com voz pequena e olhar amarelo:

- Setor, está ali uma cadelinha grávida... meio morta!
Levou uma bolada!

Despertei dos passos arrastados...
De facto, de patas para o ar, como quem mendiga
umas carícias na barriga, de olhos em bugalhos,
esperneando, o animal parecia não ir durar muito...

Para plantão à cadela sobraram dois dum exército
de detectives, de lupa em punho, em busca do agressor perdido...
Só encontrámos a bola...


Oito e catorze. O primeiro toque.
- Para a sala! Impus...
Assustaram-se...

daniel

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

sótão para os teus cabelos brancos


"morning sun" de edward hopper

Reacendo o sonho.
De meu pai.
Um Tê0!

sótão para sul

Com um terraço.
Arribado sobre areia.
Brinco de uma rocha.
Areado pelo sol.
Roxo de anil.
Dois livros.
Um CD.
Luz.
Ar.

sótão para sol

para teus cabelos brancos
saciei-me numa bola de sabão
no sol de uma verde madrugada
vermelha a sul em nascente azul
de águas salgadas sobre a mareia

sótão para rua

entre os farrapos dos trapos velhos
rasgados às dentadas pelo serra da estrela

sótão para mar

Que a lua nos desperte, em quarto crescente, a nascente,
e nos adormeça, em quarto minguante, a poente.
Que o enrolar quente das ondas nos baloice, amantes.
Que a nortada refresque as tardes, suados.
Que a morte nos seduza, abraçados.
Que o canto de Fauré nos encaminhe In Paradisum. Requiem!
Que o meu serra da estrela acorde e uive, mansinho. Serenos.

o sótão para os teus cabelos brancos

Pedrinho.
Menino parido em barraca de madeira.
Cinzelado na noite negra do nascimento.
Por um raio de luar, nascido dum orifício.
Talhado por um pica-pau no contraplacado.
Ferrado nas costas da mão esquerda.
Sinal de lua em quarto crescente.
Pobre. Ferrado. Diferente.
Fui
bola de sabão
só tão para nós.

daniel

domingo, 12 de novembro de 2006

aos domingos - 12 de novembro


" l'attesa " de rudy bagozzi

rédeas

Não se imponham rédeas a cavalos selvagens!
Mas se o não são... então... rédea curta!
Não muito... que lhes tolhem os movimentos.

E se já me proíbem tanto sal e pimenta...
para quê condenar-me eu a uma vida tão insossa?

Rédeas à solta!!

daniel

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

simples mente simples


"dive in", sherry's

Daniel

Revivi com os teus últimos posts. Confirmo que te autorizei a entrares "fundo na alma da (minha) alma".
(Ainda me deslumbro com poetas. Destes. A sério!
Como Fernando Pessoa.)

E pedes-me o impossível.
"O que é ser simples? Tu sabes!".
Eu sei? Eu... que sou um complicado?

Mas... o que entendes tu por "ser simples"?

Ora... escolhe:
Modesto? (Tento...)
Não sofisticado? (Só exteriormente...)
Espontâneo? (Sim!)
Franco? (
Às vezes...)
Ignorante nas simulações e fingimentos? (
Assim... assim...)
Pobre? (
Que remédio!)
Ingénuo? (
Quase sempre...)
Sem malícia? (
Quase nunca...)
Com conhecimentos rudimentares? (
Há piores...)
Sem grande experiência? (
Com alguma...)
Com modos despretensiosos? (
Sem dúvida!)

E agora? Como descalço esta bota?
Para te ser franco... não sou simples. Pareço ser.
Por dentro... sou muito complicado! Nem calculas...
Se soubesses...

Este ar sereno, verdadeiro e humano dá muito trabalho!
É resultado de raciocínio, de sofisticação...
Simples? Assim?
Não! Muito complicado!

Simples é o ar que respiro.

Simples é a água que se bebe.
Simples é o fogo que me aquece.
Mas não os definas porque é muito complicado!

Tenho algumas vantagens.
Ser obrigado a distribuir pelos meses os euros do ordenado!
Não poder levar muito tempo a escolher roupa e calçado!
Preferir ser a ter!
Simples? Não!
Complicado!

A simplicidade para os simples! Tribo a que não pertenço.
Passei por Assis e teria por lá ficado... Com o Francisco.
Complicado... Muito complicado!

Seria simplista se simplificasse a simplicidade dos simples.

Um abraço. Simplesmente.

Pedro.

E eu que garantia, a pés juntos,
que serias muito simples...
Afinal... um complicado!


daniel

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

dar


"verletze wurde" de mariola bogacki

dou

me todo em tudo
dás
te toda em tudo

falo do amor
não de sexo

dar e receber
sinónimos de sentido
in_verso


Copiado do espelho do quarto...
Garantiu-me ela, Pedro!
O teu jeito de dar... De extremos!

daniel

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

a cor que faltava


"soir bleu" de edward hopper

Lisboa, 31 de Outubro de ...

Daniel
Ontem, ao jantar, num restaurante do Bairro Alto,
faltava-me uma cor para concluir o quadro em esboço...
Ao meu lado, na mesa, sentava-se a... Linda como sempre!
O colar sugava-me o olhar para o decote de pele firme ao abandono...
E o sorriso e os olhos. E as palavras e os lábios. E as mãos e as carícias.

Presentes de sons e cores.
Uma pauta e uma paleta. Pat Metheny e Hopper.
O pincel e o desejo.

Só me faltava o vermelho!

E os meus sentidos despertaram num acorde maior. Num hino.
E o olfacto saboreou um beijo. E o olhar demorou no aroma.
E o tacto repousou na sede.
E propus com o silêncio que me escutasse um segredo.

Senti-lhe, sob o tampo da mesa, a ternura e a tremura.
E os meus toques mudos murmuraram-lhe tons nos lábios do ouvido.
E o vermelho brotou corado. Dióspiros nas maçãs do rosto.
Zeus alimentava-se connosco.

Podia concluir o quadro. Nos tons de vermelho.
E os frutos regaram sumo entre vinhos.
Assinei a orgia.

Um abraço.
Pedro

Além de sensual, és um irreverente!
Eu... levaria um estalo.
Mas tu és diferente!


daniel

domingo, 5 de novembro de 2006

aos domingos - 5 de novembro


"liebesbrief" de mariola bogacki

paixões

Em teoria...
... ser-se-à mais feliz enquanto se criam paixões por saciar
do que após se saciarem as paixões que se reprimem.

Como se fosse preferível manter a fome a matá-la...


daniel

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

seios


"awakening" de fausto pirandello

"... na ceia dos teus seios
a meias
devorámos
as ameias
e
traçámos um passeio
sem receio

...
Sei-os!"


Eu li-te, Pedro,
impresso a vermelho
num lenço de papel amarrotado.

daniel

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

paulo


"rooms by the sea" de edward hopper

Conceba-se Pedro por Paulo.
Um Silva mais.

Mas pai,

naquela noite de luar,consumido em labaredas,
entre os cantos
da barraca. Fora da madeira!
De si!
Três passos de sofrimento desmedido.
Quilómetros de gritos e gemidos gelados.
Cansados!

paulo e maria
casados
pais de pedrinho
o menino diferente
ferrado
com um quarto crescente
nas costas da mão esquerda


paulo
ria as lágrimas que chorava

vestia o frio que o gelava
comia a fome que o matava
bebia a sede que o secava
espontâneo como a erva
simples como o mar
deus dum sedutor

de mulheres
que o sonhavam suado
no terraço dum T zero

seio do sul
cavaleiro da praia

sob um raio de sol sensual
com um serra da estrela adormecido ao lado

daniel

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

maria


"la femme de l'amour" de francis picabia

era
maria dos santos
somente

Maria é mãe de Pedrinho.
Do menino pobre, ferrado e diferente.
Pedrinho é fruto parido de semente acolhida entre quentes.
E Maria foi mãe.
Silva, Maria dos Santos... também.

maria será
sempre a mãe de pedrinho ferrado por um raio de luar
em quarto crescente

amou muito e sempre
por isso é mãe de um menino diferente

daniel

domingo, 29 de outubro de 2006

aos domingos - 29 de outubro


stone fountain

pedra

Segredou-me o fio de água:
- Dá-me tempo e serei mais duro que o granito
que me acolhe e
onde te sentas!
Na serra. À merenda. Neste Outono... tão morno!

Como se eu não fosse um fio de água a aspirar por
mais tempo para ferir os meus granitos...

daniel

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

pedro












"geopoliticus child" de salvador dalí

pedro é o nome próprio

santos silva são os apelidos da família
santos da mãe
silva do pai

pedrinho é nome próprio de menino
pedrinho é o nome do próprio
pedrinho é
silva, pedro santos



Pedrinho é menino e pobre. Parido em barraca de madeira.


Mas Pedrinho é diferente.
Tem um sinal mais moreno. Cinzelado, na noite negra
do nascimento. Por um raio de luar, nascido num
orifício. Talhado por pica-pau no telhado do
barraco.
Coberto de contraplacado.

Nas costas da mão esquerda foi ferrado.
A lua em quarto crescente.

Pedrinho é um menino.
Pobre.
Ferrado.
Diferente.

daniel

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

trilhos cruéis


"sem título" de armanda passos

trilhos retalhados por cicatrizes na fronteira de actos extremados
medeiam e sacralizam absurdos sentimentos selvagens

são culpas de Medeia
sacerdotisa de gelo assassina cruel dos filhos de linho fino num desgrenhado acto premeditado para vingança servida por neves eternas

daniel

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

as palavras que eu sou


"book transforming itself into a nude woman"
salvador dalí


as páginas do meu livro
sobrevoam as árvores nuas

num outono
de torturas que o inverno cobre
de manchas
da tinta dos rolos
que me trituram o corpo
impresso aos pedaços

as
palavras que eu sou

daniel

domingo, 22 de outubro de 2006

aos domingos - 22 de outubro


"head" de tony bevan

um ponto

... não me refiro a qualquer sinal...
... nem tão pouco a qualquer sábia figura
escondida pelos bastidores...
... este ponto mora num beco do bairro do
cérebro, mesmo no
entroncamento de duas
avenidas... a dos olhares com a dos
ouvidos.

Um ponto de gemidos e de
gritos!

daniel

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

dois professores


"intimité - un couple dans un intérieur" de françois vallotton

Professor de quadro de zona pedagógica.
Beja.
35 anos.
Dá a última aula a correr...
6ª. 5 da tarde.
Até 2ª! Às 8 da manhã!

Voa-lhe o desejo pela IP2...
1 bica e 1 queque, por favor!
Prego a fundo que se faz tarde... muito cedo!

Professora de quadro de escola. Numa aldeia.
37 de idade. 5 da tarde. 6ª.

Ele acabou a última aula... Só mais 2 horas!
Meninos! Banho! Jantar! O pai está a chegar!

Alto... a Guarda! Em casa!
Estaciona devagar... olha que as jantes roçam
no passeio. Uma chave e a porta. Que alvoroço!

Parti um vidro na escola...
Caiu a cabeça à boneca!

Jantar! Os desenhos animados são para amanhã de manhã!
Ó-ó!


Na mesa... uma vela acesa!
Na cama... a luz dum raio e o eco dum trovão!

2ª. 5 da manhã. Outra semana...
Ele beija! Ela aguarda!

Bom dia! Hoje, no fim da aula, gostaria que
soubessem
com que suor é amassado o pão...
deste vosso professor.

E, na 6ª, às 5 da tarde...
No mês seguinte...
Durante um ano...

Para o próximo... logo se verá!


daniel

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

mais um dia


contemplation

teri rosario


ouvi
rir e sorri
ler e escolhi
confessar e perdoei

calei

escuto o silêncio fala

hoje é mais um
dia que passa
mais perto de ti

passo a passo


daniel

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

eu remo


ocean blue
kenny primmer


tanto mar
tanto amar

sulcos

de remos
sobre dentro

a remar a remar a remar


velas
de mastro

brancas febril

a remar a remar a remar

leme

à ré
firme

a remar a remar a remar


âncora
de espuma
presa ao fundo

sem remar
no teu mar

daniel

domingo, 15 de outubro de 2006

aos domingos - 15 de outubro


"landscape near figueras" (1910)
salvador dalí


salvador dalí


"Não tenham medo da perfeição. É impossível atingi-la!"

Não tenho medo de Deus...
E gosto de loucuras...

daniel

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

sonhos por cumprir


"rainbow, sun, rain" (child art painting)

Numa mão... a mão da mãe.
Na outra... um papel amarrotado.
Um desenho!

Em baixo, ao fundo, meio palmo de verde.
Totalmente verde!
A Terra!

No quarto superior direito, ao centro, um círculo.
Tremido, com raios amarelos todos tortos.
O Sol!

No canto superior esquerdo, tantos riscos.
De todas as cores da colecção dos marcadores...
O Arco-íris!

Um arco-íris sem chuva?
Este só precisa de sol!

Sobre a Terra verde um arco-íris, sem chuva,
espelho do Sol e dos olhos do menino.

daniel

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

pretérito imperfeito


foto de virgiliu narcis

queria abraçar o sol com asas de ícaro
queria abarcar o mar com mãos de areia

tempo passado

em sonhos desfeitos
de suspiros
soprados

tempo incompleto
dum passado sem nada de errado
com saudades dum futuro inteiro

pretérito não acabado
de passado não perfeito

daniel

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

dos verbos


"idílio" de francis picabia

sou tua
vem

fui
do verbo ir
vim
do verbo vir

foste
do verbo ser
o verbo amar
em todos os tempos
de qualquer modo
a minha puta

daniel