terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

ano dois









BRINCO DE PALAVRAS
Daniel Sant' Iago

sábado, 3 de fevereiro de 2007

POETAS

Tiram-me sempre o pão da boca.

Que fome!

POETAS!
Que sede!


Da água fresca

com que me encharcam o deserto.

daniel

"table and chair"
peter coker

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

sopa de letras


"universo de escrita"
antónio ole


letras em massa
em barra azul
dum prato de sopa

três
vogais
a-e-o
consoantes
m-r-t
três

palavras tijolos
muro de sabores

morte ao amor
a arte ao amar
o aroma ao tomar-te
em maré de amor
a morte ao amar-te
a romã em roma
o ar mora em marte

- Come a sopa, Daniel!

daniel

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

mulher









sempre te quis
próximo da pele
se possível bem
por dentro


daniel

"girl standing"

egon schiele

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

um último olhar...


"mulher sentada"
picasso


Recorda-me aquele teu primeiro
olhar porque a estrela do crepúsculo
sob o luar da meia noite espera por nós
e pela madrugada até à lava da alvorada.
Levanta-te e não pernoites sentada porque a
morte será já amanhã na manhã do teu último olhar.

daniel

domingo, 28 de janeiro de 2007

aos domingos - 28 de janeiro


"miragens"
josé dos santos

Não sei quem escreveu
.

"A maneira de apreciarmos uma coisa é
dizermos a nós próprios que a podemos
perder
"

Este blogue é mais uma coisa!
Coisa entre milhões de blogues!

E já me disse que a posso perder!
Qual o (a)preço?

daniel

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

eco_ar


"the persistence of memory" de salvador dalí

Não me custa nada repetir, uma vez mais...
- Amo-te!

É tão simples, tão normal e já tão vulgar...

- Amo-te!

E, já ou logo ou depois, vais repetir mais uma vez...

- Amas-me?

E, se o não repetir outra vez....

- Já não me amas…
Para, de novo, repetir... uma vez mais ...
- Amo-te!

Mas não vale a pena repetir...
Uma vez mais e outra mais outra vez...


Basta que te contemple...

Basta que a rotina não nos distraia...
Basta que não me julgues conquistado...
Basta que o óbvio nos seja transparente...

- Está bem! Eu repito! Mais uma vez...
Amo-te!

- Não! Não repetes!
Ecoas!

daniel

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

voz passiva


"wild horses" de suzannah sinclair

quando

sob os cravos dos teus olhos
soar o nada do meu silêncio
saborearás o meu mundo

mudo
imóvel

passivo

daniel

domingo, 21 de janeiro de 2007

aos domingos - 21 de janeiro

passo

a passo paciente
piso-me
pela via-sacra da paixão
o sofrimento

daniel
"eulalie"
lili dujourie


quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

atalho


"landscape with butterflies" de salvador dalí

amar-te

um palmilhar por atalho sinuoso
no estreito caminho dos afectos

...


limite infinito

sem regresso

(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

senhor de mim


egon schiele

minha senhora de mim
de ti e do nosso primeiro momento
apenas...

ou_vi-te
cego e surdo
troca ...
...
de nada

entre nós um balcão
para um decote...

esses seios
...
sei-os
senhor de mim

(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

domingo, 14 de janeiro de 2007

aos domingos - 14 de janeiro


com_tensão


tão forte se amas
quem tem a coragem
de amar menos

daniel


"dolores"
lili dujourie

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

fruto proibido


"el beso" de pablo picasso


farta a fatia do bolo
do rei ou da rainha

a cada dentada dada
a cada passa passada
a cada fruta cristalizada
a cada fruto seco trincado

torturei-me com o doce proibido

prometo
só uma vez

daniel

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

lapsus linguae


"how it all began" de richard lindner

Hot, no mínimo, a tarde.
Suores!

A solução fresca abriu-me um pub.
No seio do Soho.
London!


Ao corpo... arremessei-o sobre um banco de vinho.
A cor.

Aos cotovelos... espetei-os no negro da madeira.
O tampo
.
Aconcheguei a testa nas palmas das mãos.
E fiquei-me por ali...
Os olhos semi...
Cerrados.

...


- Drinks? What do you eat?

Uma voz rouca, loura e húmida...
(... drinks...)
...segredava, lasciva, ao meu ouvido direito...
(... eat...)
...por entre cabelos soltos, colados nos lábios.
(... como... bebo...)
Uns braços esguios serpenteavam-me o pescoço.
(... claro que mordo...)
Sob a camisa molhada acariciavam todos os dedos.
(... claro que chupo...)
Uns peitos duros esmagavam-me as costas frias.

Decidi comer...


- Te!

Tão português o meu desejo louco...

- The?

So british a dúdiva rouca...

- Sorry! Tea! Please... An iced tea!

Tão pouco convincente a inflexão gelada...

Terá sido, tão só, um lapsus linguae em domínios linguísticos de Sua Alteza, The Queen!

Sorry, my dear!
Sorry!

daniel

domingo, 7 de janeiro de 2007

aos domingos - 7 de janeiro


"relation" de jo delahaut

tu

és a única regra sem excepções
porque és única
uma excepção sem regras


daniel

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Ai... a vírgula... a vírgula!




É a vírgula um sinal de pontuação.

Um ponto redondo
com um apêndice.
Curvo. Para
baixo e para dentro.
Uma insignificância!

É a vírgula uma palavra.
E, como
todas as esdrúxulas, acentuada.
Graficamente.
Um acento agudo. Um sinal!
Simples. Etéreo. Delicado.
Uma excrescência!

Uma excrescência sobre uma insignificância!
Um quase nada sobre um nada quase sem importância!

Por desmazelo, omiti a excrescência.
E a insignificância perturbou-se...

A vírgula passou-se... a vir com gula!

Estas pequenas coisas tão importantes!

daniel

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

da fuga

como fugir
daqui

se

não posso
fugir
de mim

daniel

"silent poem 1"
trey

domingo, 31 de dezembro de 2006

aos domingos - 31 de dezembro


"person at the window" de salvador dalí

da esperança

Quem espera... sempre alcança!
Quem espera... desespera!

Em que ficamos?
Na posse ou no desespero?

Ou...
... será que não falamos da mesma esperança?
Haverá, então, duas...

Ou...
... será uma única?
E, nesse caso, há que esperar... o bem e o mal!

E se...
... recriássemos um único provérbio?

Talvez...
Quem espera... desespera mas sempre alcança!

Contraditório?
Como se... nós próprios não vivêssemos numa constante contradição...

daniel

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

dores e amores


grafismo de clive barker
(eikasia art)

balanço o ano
como quem pesa
o sumo duma laranja

entre sorrisos
sobraram
dores e amores

as minhas
as camufladas porque inconfessáveis
as visíveis porque tão transparentes

os teus
tão sumarentos
sem casca nem caroços nem fibras

sumo da esperança
dum ano novo
doce
muito doce

daniel

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

des_construção


baltz bietenholz


sou
sou sossego
sou cego
....
sou sé
sou
sou só
...
sou sono
...
sou sono lento
...
sou


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

domingo, 24 de dezembro de 2006

aos domingos - 24 de dezembro


"maternidade" de almada negreiros

natal de 2006 - IV


Há muitos anos, neste dia,
perto da meia-noite,
nasceu, para ti,
um menino.

Sim...
Para ti...
Neste dia...
Era quase meia-noite...
Já há muitos, muitos anos...

Não acreditas?

É verdade!
Só que minha mãe não me chamou jesus...

daniel

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

palavras que sou


recorro aos bolsos

nada

socorro-me do que sou
palavras num caos de babel

não me matem as palavras
que morro

daniel

"not the words"
patricia gooden


segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

adouro-te


"sleeper red" de william kentridge

não
não te amo
porquê?
porque amo-te é palavra violada


não
não te adoro
porquê?
porque o teu sobrenatural é tão humano

prefiro
adourar-te
porquê?

porque sim!

porque não?


daniel

domingo, 17 de dezembro de 2006

aos domingos - 17 de dezembro


"creation hands" de michelangelo

natal de 2006 - III


O Natal está a chegar!
Garantias entre luzes nas ruas...
Alonguei o olhar.
Donde vem?

O Natal está à porta!
Garantias entre laços nos embrulhos...
Abri.
Foi engano!


daniel

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

nasceram mais estrelas


"presépios"
alunos de anabela pinto


diferentes
só mais lentos
só mais activos
meninos
como os outros
diferentes

todos os seis sentidos
nos dedos
nas palmas
das mãos

seis sim porque cinco mais um

burros vermelhos de barro
verdes vacas de plasticina
anjos com fimo nas asas
josé em pasta de barbas de papel
maria de ráfia serena
gruta do monte de cartão canelado

os meninos
chamavam-se jesus
de carne e osso
cada um

gritava o olhar
no sorriso das mãos
chorava o sabor
na bigorna do ouvido
pingava o aroma
nos berlindes dos ourives

filigranas dos seis sentidos

amálgamas de amor e arte
amansadas as massas na mesa
tão mansas de tão amassadas
tons e sons no toar dos sinos

assim nasceram mais estrelas no firmamento
numa sala
de aula


daniel

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

sons em... jogo... de palavras - III

"summer interior" de edward hopper

(a)gosto

gosto do...
...gosto louco no calor do nosso (a)gosto


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

domingo, 10 de dezembro de 2006

aos domingos - 10 de dezembro


"embraceable you"
ruth rosengarten


natal de 2006 - II


não me prendas com presentes
nessa noite
enlaça-me as mãos
soltas dos laços que me prendem
ao frio
de vinte e quatro para vinte e cinco
graus abaixo de zero

aquece-me
brasido de lareira
em dezembro
sem natal presente
que me prenda

daniel

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

a sedução da utopia


dom quixote
picasso



A Utopia é
Thomas More.
Uma ilha. Tão imaginária.

A utopia é um ideal.
Um projecto.
Um modelo.
Um plano.


A utopia é o inatingível.
O impraticável.
O inexequível.


A utopia é o não lugar.

A utopia é a sedução.
A quimera.
A fantasia.

A utopia é um caminho.

A caminho dum infinito.

Uma caminhada até ao limite do ser.
A sedução do caminho para a utopia.

Seduz-me a caminhada e a fantasia.

daniel

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Sons em... jogo... de palavras - II


"morning" de dod procter

tudo de ti toda

não me bastas

de todo...
...bastava
tudo de ti...

(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

domingo, 3 de dezembro de 2006

aos domingos - 3 de dezembro


"flower vendor with child"
diego rivera


natal de 2006 - I

e ? ou

os meus meninos
precisam
de mim
do pai natal
do menino jesus

ou ? e

o meu natal
vive-se
numa data
todos os dias
num estado de espírito

e ? ou

a minha vida
pinta-se
a preto
a branco
às cores

ou ? e

natal
é

dia
noite
entardecer
madrugada

E?
Ou?
Ou ou e e?

Não...
Sim...
Nim...

daniel

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Sons em... jogo... de palavras - I


"les amants" de rené magritte


gruda-me

madruga-me de madrugada...
...
gritarei no grude da tua gruta

grato


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

terça-feira, 28 de novembro de 2006

do tempo


"eleven AM" de edward hopper

dos ponteiros dos relógios
libertei-me dos
minutos
agrilhoaram-me segundos

escarr_os
com_tudo
m_açaimo
quando carrasc_o tempo
me chicoteia
escravo
d_um _a_troz_descrenç_a_bsoluta_


daniel

domingo, 26 de novembro de 2006

aos domingos - 26 de novembro


"le cri muet" de valcárcel guevara

o silêncio

calei-me
para te escutar
e
aprender a falar

falei-te
para me escutares
e
aprendi a calar-me

desde então
grito nu
silêncio

daniel

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

foice eu fosse

ah
se
eu
fosse foice
e ceifasse searas
saciaria a sede
da seda suada

ah

se eu
foice fosse

"head" de antoine pevsner

daniel

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

princesa de muitos mimos - V


michael wertz

Aninhado num canto da biblioteca da escola
e às aranhas com um computador, desvendava
os segredos do Word de acordo com a lição
imposta pelo Gustavo. Um dos meus loucos!

Elas e eles e aos empurrões e aos gritos:
- Setor, a Kintudê está a parir!
Venha depressa! Olhe que a matam!

Eu. O último a chegar ao alarido.
A casota. De cimento. Rosa e branca.
Eles. Uma matilha imensa de gente curiosa.

O tal berro berrado aos berros afastou-os
para um semi-círculo de cinco metros de raio.
Mais olhos que silêncio. Naquele momento.

A Kintudê lambia carinhosamente o filho.
Porquê? Quantos são? É cachorro?
Como nasceu? Toma nota para a cédula!
Abaixa! Deixa ver! Bruto! Não empurres!
Escuta o setor...

Foi assim que fui parteiro e explicador de um
acto de parir com mais de setenta assistentes.

Por pouco... muito pouco, o funeral do cachorrinho
nado-morto não teve honras de cerimónia fúnebre...
e religiosa! Os miúdos perceberam, a custo, que
cadela é cadela e pessoa é pessoa.
A custo!

A Kintudê estava de boa saúde quando o relógio
a sério, amarelo, lindo, único passou para
o pulso de uma colega professora com quem
vive desde então.

Foi uma cadela rafeira, senhora de vermelha trela
e princesa de muitos mimos.
Foi noutro Novembro, às oito horas duma manhã sonolenta.
Subia eu e a preguiça a alameda de acesso à escola quando...

daniel

terça-feira, 21 de novembro de 2006

princesa de muitos mimos - IV


michael wertz

Não é ficção este relato do dia-a-dia da Kintudê.

Acredita!
A cadelinha foi, durante o ano lectivo,
uma princesa de vermelha trela e de muitos mimos.

Acredita!
Pela manhã, a rafeira era o centro das atenções de
toda a gente, pequena e grande, na importância ou
no tamanho. Daqui um olá. Dali uma festa.
E os latidos soltavam-se como pulos...

Acredita!
Só um menino tinha o dom de ser obedecido:
o tratador de serviço, por uma semana, portador
do relógio a sério, todo amarelo, lindo, único!

Acredita!
No ritual de uma lambidela no amarelo do relógio.
Solta a corrente, trela vermelha na mão,
a Kintudê seguia-o para a sala de aula.
Atada a trela à perna duma cadeira da última fila,
não consta, até hoje, uma queixa de mau comportamento.

Acredita!
Fui parteiro e explicador dum acto de parir...

Os meus olhos viram.
Eu acreditei.

daniel