Solto as rédeas ao freio.
Do meu olhar.
Pelo ocaso, o azul acinza.
E a cinza enrola-se à prata.
A_fogo em chamas nas águas.
O silêncio não marulha.
E da terra ecoa o nada.
No banco de ripado verde,
escurecem as páginas do moleskine.
Cego, estalo o elástico negro.
Sobra a franja da fita do marcador.
Eu sei porque quero que a alma desespere.
Escorreu-me a esperança por entre os dedos.
- Tenho uma triste notícia a dar-te.
A Teresa morreu.
Cedeu ao aneurisma. Numa cama deslavada do hospital.
De São José.
Resta-me o sal no pôr do sol.
Porto Côvo.
Aos tantos do tal de mil novecentos e muitos!
Daniel Sant'Iago
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007
terça-feira, 6 de fevereiro de 2007
olhar de amêndoa e mágoa

"mother and child" de gustav klimt
Tropecei nos teus olhos de amêndoa e mágoa.
Talhes de doçuramara na ira dum olhar. Eiras
de grão moído. Pó entre mós. De pedras rudes.
De ataque com funda. Do fundo. Mal ditas.
- O meu marido...
Segredei-te o meu ombro.
Reservei-te um bilhete de ida.
Manchei-te os lábios de cafés.
Li-te poesia na Fnac do Colombo.
Cravei-te no olhar o verde da vida.
- O teu filho...
E adubei-te com uma mancheia de sorrisos.
Dos olhos amendoados regressou a mágoa.
Comigo. Em nódoas feridas na pele.
Do meu casaco.
Daniel Sant'Iago
sábado, 3 de fevereiro de 2007
POETAS
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
sopa de letras
terça-feira, 30 de janeiro de 2007
segunda-feira, 29 de janeiro de 2007
um último olhar...
domingo, 28 de janeiro de 2007
aos domingos - 28 de janeiro
quarta-feira, 24 de janeiro de 2007
eco_ar

"the persistence of memory" de salvador dalí
Não me custa nada repetir, uma vez mais...
- Amo-te!
É tão simples, tão normal e já tão vulgar...
- Amo-te!
E, já ou logo ou depois, vais repetir mais uma vez...
- Amas-me?
E, se o não repetir outra vez....
- Já não me amas…
Para, de novo, repetir... uma vez mais ...
- Amo-te!
Mas não vale a pena repetir...
Uma vez mais e outra mais outra vez...
Basta que te contemple...
Basta que a rotina não nos distraia...
Basta que não me julgues conquistado...
Basta que o óbvio nos seja transparente...
- Está bem! Eu repito! Mais uma vez...
Amo-te!
- Não! Não repetes!
Ecoas!
daniel
Não me custa nada repetir, uma vez mais...
- Amo-te!
É tão simples, tão normal e já tão vulgar...
- Amo-te!
E, já ou logo ou depois, vais repetir mais uma vez...
- Amas-me?
E, se o não repetir outra vez....
- Já não me amas…
Para, de novo, repetir... uma vez mais ...
- Amo-te!
Mas não vale a pena repetir...
Uma vez mais e outra mais outra vez...
Basta que te contemple...
Basta que a rotina não nos distraia...
Basta que não me julgues conquistado...
Basta que o óbvio nos seja transparente...
- Está bem! Eu repito! Mais uma vez...
Amo-te!
- Não! Não repetes!
Ecoas!
daniel
segunda-feira, 22 de janeiro de 2007
voz passiva
domingo, 21 de janeiro de 2007
quinta-feira, 18 de janeiro de 2007
segunda-feira, 15 de janeiro de 2007
senhor de mim

egon schiele
minha senhora de mim
de ti e do nosso primeiro momento
apenas...
ou_vi-te
cego e surdo
troca ...
...
de nada
entre nós um balcão
para um decote...
esses seios
...
sei-os
senhor de mim
(Este texto encontra-se publicado...
... no meu livro)
domingo, 14 de janeiro de 2007
quinta-feira, 11 de janeiro de 2007
fruto proibido
segunda-feira, 8 de janeiro de 2007
lapsus linguae
"how it all began" de richard lindner
Hot, no mínimo, a tarde.
Suores!
A solução fresca abriu-me um pub.
No seio do Soho.
London!
Ao corpo... arremessei-o sobre um banco de vinho.
A cor.
Aos cotovelos... espetei-os no negro da madeira.
O tampo.
Aconcheguei a testa nas palmas das mãos.
E fiquei-me por ali...
Os olhos semi...
Cerrados.
...
- Drinks? What do you eat?
Uma voz rouca, loura e húmida...
(... drinks...)
...segredava, lasciva, ao meu ouvido direito...
(... eat...)
...por entre cabelos soltos, colados nos lábios.
(... como... bebo...)
Uns braços esguios serpenteavam-me o pescoço.
(... claro que mordo...)
Sob a camisa molhada acariciavam todos os dedos.
(... claro que chupo...)
Uns peitos duros esmagavam-me as costas frias.
Decidi comer...
- Te!
Tão português o meu desejo louco...
- The?
So british a dúdiva rouca...
- Sorry! Tea! Please... An iced tea!
Tão pouco convincente a inflexão gelada...
Terá sido, tão só, um lapsus linguae em domínios linguísticos de Sua Alteza, The Queen!
Sorry, my dear!
Sorry!
daniel
domingo, 7 de janeiro de 2007
aos domingos - 7 de janeiro
quarta-feira, 3 de janeiro de 2007
Ai... a vírgula... a vírgula!

É a vírgula um sinal de pontuação.
Um ponto redondo com um apêndice.
Curvo. Para baixo e para dentro.
Uma insignificância!
É a vírgula uma palavra.
E, como todas as esdrúxulas, acentuada.
Graficamente. Um acento agudo. Um sinal!
Simples. Etéreo. Delicado.
Uma excrescência!
Uma excrescência sobre uma insignificância!
Um quase nada sobre um nada quase sem importância!
Por desmazelo, omiti a excrescência.
E a insignificância perturbou-se...
A vírgula passou-se... a vir com gula!
Estas pequenas coisas tão importantes!
daniel
segunda-feira, 1 de janeiro de 2007
domingo, 31 de dezembro de 2006
aos domingos - 31 de dezembro

"person at the window" de salvador dalí
da esperança
Quem espera... sempre alcança!
Quem espera... desespera!
Em que ficamos?
Na posse ou no desespero?
Ou...
... será que não falamos da mesma esperança?
Haverá, então, duas...
Ou...
... será uma única?
E, nesse caso, há que esperar... o bem e o mal!
E se...
... recriássemos um único provérbio?
Talvez...
Quem espera... desespera mas sempre alcança!
Contraditório?
Como se... nós próprios não vivêssemos numa constante contradição...
daniel
sexta-feira, 29 de dezembro de 2006
dores e amores

grafismo de clive barker
(eikasia art)
balanço o ano
como quem pesa
o sumo duma laranja
entre sorrisos
sobraram
dores e amores
as minhas
as camufladas porque inconfessáveis
as visíveis porque tão transparentes
os teus
tão sumarentos
sem casca nem caroços nem fibras
sumo da esperança
dum ano novo
doce
muito doce
daniel
quarta-feira, 27 de dezembro de 2006
des_construção
sou
sou sossego
sou cego
....
sou sé
sou
sou só
...
sou sono
...
sou sono lento
...
sou
sou sossego
sou cego
....
sou sé
sou
sou só
...
sou sono
...
sou sono lento
...
sou
(Este texto encontra-se publicado...
... no meu livro)
domingo, 24 de dezembro de 2006
aos domingos - 24 de dezembro
quinta-feira, 21 de dezembro de 2006
palavras que sou
segunda-feira, 18 de dezembro de 2006
adouro-te
domingo, 17 de dezembro de 2006
aos domingos - 17 de dezembro
quinta-feira, 14 de dezembro de 2006
nasceram mais estrelas

"presépios"
alunos de anabela pinto
diferentes
só mais lentos
só mais activos
meninos
como os outros
diferentes
todos os seis sentidos
nos dedos
nas palmas
das mãos
seis sim porque cinco mais um
burros vermelhos de barro
verdes vacas de plasticina
anjos com fimo nas asas
josé em pasta de barbas de papel
maria de ráfia serena
gruta do monte de cartão canelado
os meninos
chamavam-se jesus
de carne e osso
cada um
gritava o olhar
no sorriso das mãos
chorava o sabor
na bigorna do ouvido
pingava o aroma
nos berlindes dos ourives
filigranas dos seis sentidos
amálgamas de amor e arte
amansadas as massas na mesa
tão mansas de tão amassadas
tons e sons no toar dos sinos
assim nasceram mais estrelas no firmamento
numa sala
de aula
daniel
segunda-feira, 11 de dezembro de 2006
sons em... jogo... de palavras - III
"summer interior" de edward hopper(a)gosto
gosto do...
...gosto louco no calor do nosso (a)gosto
(Este texto encontra-se publicado...
... no meu livro)
domingo, 10 de dezembro de 2006
aos domingos - 10 de dezembro
quinta-feira, 7 de dezembro de 2006
a sedução da utopia

dom quixote
picasso
A Utopia é Thomas More.
Uma ilha. Tão imaginária.
A utopia é um ideal.
Um projecto.
Um modelo.
Um plano.
A utopia é o inatingível.
O impraticável.
O inexequível.
A utopia é o não lugar.
A utopia é a sedução.
A quimera.
A fantasia.
A utopia é um caminho.
A caminho dum infinito.
Uma caminhada até ao limite do ser.
A sedução do caminho para a utopia.
Seduz-me a caminhada e a fantasia.
daniel
segunda-feira, 4 de dezembro de 2006
Sons em... jogo... de palavras - II

"morning" de dod procter
tudo de ti toda
não me bastas
de todo...
...bastava
tudo de ti...
(Este texto encontra-se publicado...
... no meu livro)
domingo, 3 de dezembro de 2006
aos domingos - 3 de dezembro

"flower vendor with child"
diego rivera
natal de 2006 - I
e ? ou
os meus meninos
precisam
de mim
do pai natal
do menino jesus
ou ? e
o meu natal
vive-se
numa data
todos os dias
num estado de espírito
e ? ou
a minha vida
pinta-se
a preto
a branco
às cores
ou ? e
natal
é
dia
noite
entardecer
madrugada
E?
Ou?
Ou ou e e?
Não...
Sim...
Nim...
daniel
quinta-feira, 30 de novembro de 2006
Sons em... jogo... de palavras - I

"les amants" de rené magritte
gruda-me
madruga-me de madrugada...
...
gritarei no grude da tua gruta
grato
(Este texto encontra-se publicado...
... no meu livro)
terça-feira, 28 de novembro de 2006
do tempo
domingo, 26 de novembro de 2006
aos domingos - 26 de novembro
sexta-feira, 24 de novembro de 2006
foice eu fosse
quarta-feira, 22 de novembro de 2006
princesa de muitos mimos - V

michael wertz
Aninhado num canto da biblioteca da escola
e às aranhas com um computador, desvendava
os segredos do Word de acordo com a lição
imposta pelo Gustavo. Um dos meus loucos!
Elas e eles e aos empurrões e aos gritos:
- Setor, a Kintudê está a parir!
Venha depressa! Olhe que a matam!
Eu. O último a chegar ao alarido.
A casota. De cimento. Rosa e branca.
Eles. Uma matilha imensa de gente curiosa.
O tal berro berrado aos berros afastou-os
para um semi-círculo de cinco metros de raio.
Mais olhos que silêncio. Naquele momento.
A Kintudê lambia carinhosamente o filho.
Porquê? Quantos são? É cachorro?
Como nasceu? Toma nota para a cédula!
Abaixa! Deixa ver! Bruto! Não empurres!
Escuta o setor...
Foi assim que fui parteiro e explicador de um
acto de parir com mais de setenta assistentes.
Por pouco... muito pouco, o funeral do cachorrinho
nado-morto não teve honras de cerimónia fúnebre...
e religiosa! Os miúdos perceberam, a custo, que
cadela é cadela e pessoa é pessoa.
A custo!
A Kintudê estava de boa saúde quando o relógio
a sério, amarelo, lindo, único passou para
o pulso de uma colega professora com quem
vive desde então.
Foi uma cadela rafeira, senhora de vermelha trela
e princesa de muitos mimos.
Foi noutro Novembro, às oito horas duma manhã sonolenta.
Subia eu e a preguiça a alameda de acesso à escola quando...
daniel
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















