Brincámos com o fogo e uma faúlha na seara foi fogo posto. Em trigo roxo.
Acha a acha, atiçámos um fogo brando, lento, médio, alto e vivo.
Chamas rubras entre negras labaredas.
Clamas aos gritos... Tocas a rebate... Fogueiro, fogo!
Presos entre dois fogos, o teu e o meu, tu e eu.
Apagar ou deixar morrer? Fogo de vista? Fogo de artifício ou preso? Cortinas de fumo?
Uma prova de fogo cruzado, a ferro e fogo. Ou lanço mais achas ou apago! Deixar morrer? Nunca!
Fumarolas são fogo... Sinto-te fogo, lava e vulcão. Mas, se tens pavor, sopra, atiça e deixa assar as achas todas. Serão cinzas do trigo roxo. Desse nosso fogo posto.
"desnudo in la playa" de fortuny marsal (museu do prado)
quem da praia escolhe o rochedo nu e esquece a água fria quem da praia escolhe o calor do sol e esquece a areia fina quem da praia escolhe o corpo e esquece olhares traquinas
tem do mar o rumor das ondas em maré vazia a brisa leve sobre a pele macia a garantia eterna dum segredo
numa relação de contrastes da tua carne clara e macia sobre um rochedo escuro e duro corpo de luz mornasobre um negro quente Daniel Sant'Iago
"remorse or the sphinx embebed in the sand" salvador dali
mareia é o espaço onde a onda morre e a areia continua
mareia é o espaço onde se demora a areia húmida e dura
mareia é o espaço onde calcorreio contigo a sensação nua de sermos seres vivos e descalços
mareia é o espaço onde somos náufragos dados à costa expulsos da nossa terra dorida
Mareia (s.f. mar+areia) é uma palavra aglutinada. Espaço onde morre a onda e sobrevive a areia molhada. [Verbete para uma entrada no léxico (im)próprio do Português. Palavra minha, nascida já no século XXI, a 13 de Março de 2006, às 12 horas e 12 minutos]. Daniel Sant'Iago
"david" (pormenor) miguel ângelo O olhar fulmina um alvo no horizonte. Cercam-no olheiras fundas e vincadas. Narinas dilatadas fremem vendavais. Lábios grossos em rosto gelado.
Os cabelos rolam revoltos. A fronte avoluma-se. Os dentes cerram-se. A ira urra.
Era um pedregulho. Bruto e tosco. Daniel Sant'Iago
Hoje Sou eu que te esmago Entre ondas e areias Num ballet de vagas nuas Em páginas de livros para ler Em pautas de melodia a cantar Por luas de espumas sob marés
As palavras são pele de teclas Em solo de piano a quatro mãos Melodia De mel e dia cantada à desgarrada Nos corpos que tremem e endurecem Quando pairam no ar as reticências Feitas de nada em essência de tudo
Olho-me nos olhos e desfolheio-te Livro À procura da alma que reencontras No índice do teu corpo que soletro Só letras de folhas tão in_quietas
Mordisco os lábios cinzelados a lume Molhas línguas num instante de nudez Dedilho a página das páginas vermelha Infinito de um instante que se desfez Para ser sempre a última primeira vez
serena adormeces sobre o éden que ao longe transparece
restam as mãos laçadas nos dedos nós de beijos sorvidos das vagas que murmuram Esta noite fui tua leitura!