quinta-feira, 20 de setembro de 2007

pelo sinal


"signes en jaune" de paul klee

de alarme
aviso cru

de pele
pinta tinta num dedo nu

de trânsito
círculos triângulos quadrados losangos
vermelhos e verdes

de pontuação
vírgulas pontos de reticências

aceno insígnia trejeito vestígios
de gente que sente o que eu sinto

dos tempos
outros sinais de ontem
que hoje a gente sente

sinal
da cruz de cruzes

Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

na ponta da língua

livros são palavras
num único gesto
e
peso
som
cor
em grão semeadas
aradas
colhidas
embrulhadas em linho leve
mastigadas em doce torrão

Seduz!
Provoca!
Encharca!

brinco de palavras
hoje
um jogo teu
de palavras

preciso de ti
preciso de tudo
preciso de tudo para além de ti

preciso de muito
preciso de muito mais
preciso do mais
tudo
preciso de tudo o que tens
preciso do que não podes ser

bastas tu
bastas tu toda

basta tudo

Daniel Sant'Iago

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

tornado


"stormy weather" de jan voss

não sei
se te ame
se te esqueça

sei que te amo
mistério sonhado em verdade
mentira de nítida realidade

sei que te esqueço
escondida quando possuída
poço sem fundo na posse proibida

Daniel Sant'Iago

terça-feira, 11 de setembro de 2007

insisto a_pe(n)sar...


"adonis plant, dew on the love herbs"
hokusai katsushika


Já tudo foi dito sobre o amor todo.

Tudo!


Mas eu insisto!
(Mais um que insiste...)
Insisto!

Não posso acrescentar um nico mais.

Nada!


Mas quero repetir o acto de amar

e não só mais um coito de amor.


deixa insistir

até à exaustão

que o amor é loucura
que mata e que cura
que des_espera

que sacia
e faz fome

deixa insistir

até mais não

que no amor
renasço

refaço

renego
retenho

descalço

deslaço


E,
se silencio e oiço,
escuto insistentemente:

"Amo-te!"


Sabes, agora, por que insisto...


É que acredito que me contemplas ao ler-me.


Daniel Sant'Iago

sábado, 8 de setembro de 2007

im_perdoável


"forgotten woman" de diana ong


Esqueci-me do dia dos teus anos.
Esqueci-me da prenda habitual.

Esqueci-me da rotina anual.


Esqueci-me.

Entristeci.


Não por te ver triste.

Não por me ter esquecido do dia.

Não por me ter esquecido da prenda.

Anual e habitual.


Mas por me ter esquecido.

E esquecido de ti.


Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

traços geométricos


"a personification of geometry" de dosso dossi

O que se quer nem sempre será

o que se deve nem o que se pode.

Querer será uma semi-recta que
parte de um vértice de um ângulo
agudo ou recto ou obtuso.
A um dos lados desse ângulo
chamar-lhe-ia dever.
E ao outro poder.

Não é a bissectriz de uma vida
porque o ângulo não se divide
em duas partes iguais.
Nem nós somos um simples e
transparente conceito geométrico.

Nem por um triz!


Daniel Sant'Iago

domingo, 2 de setembro de 2007

passo a passo


"walking on egg shells" de sandy skoglund

de favo em favo

escravo de abelhas

deixei-
me adoçar

de migalha em migalha

escravo de mesas

deixei
-me açaimar

de ninho em ninho

escravo de troncos
deixei-
me afundar

Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

sons com peso


"shaky balance" de paul klee

pesar na palavra o peso do som

será tarefa de louco internado


seja


estende a mão esquerda
e segura
na palavra amor
um leve esvoaçar
de fofas penas
de colibri fiel
que voa sem cessar
a dança alada
duma valsa vienense

estende a mão direita
e segura
na palavra amor
um furacão de paixão
de lavas incandescentes
torrão rolando entre ventanias de vendavais


Balanceia as duas mãos.

As palavras não têm peso?

Que amor preferes?

Os dois?

O amor?


Gosto do teu gosto,

minha loucura,

minha louca!


Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

de gritos


larry devillas

apetece-me ser deus de tons

para uns ais
palavra escrita


preciso da outra louca de ti

para jogar o jogo do tom
que
a palavra escrita ai não tem

o brinquedo é ai
interjeição expressão


eu escrevo ai
e tu doas-lhe a entoação


primeiro o ai-de-suspiro

inspira bem fundo
aguenta um pouco
expira
um único ai
com força
com mais aaaa que i


isso assim


agora o ai-de-dor

repetido tantas vezes quanta a dor sofrida

breve
embrulhado em esgar
franzido e molhado


isso assim


por fim um ai-de prazer

insiste
insiste
em movimento
ritmado e batido

cada vez mais rápido
cada vez mais
mais ainda
mais
gutural-e-grunhido


isso assim
isso assim
isso assim
isso assiim


pára
pára
pára
páára jáá


isso
assiiim
de mansinho


sim
acabou o jogo do tom

fim


Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

surpreendi-te

"surprise" de diana ong
causei-te surpresa
provoquei-te com algo inesperado


fui imprevisível ou desconcertante?

apanhado em flagrante?


Não dei por isso!

por que não o confessaste logo?

tinha-me sido mais fácil perceber o motivo

bastava atar o meu acto ou palavra

ao teu olhar
ao teu esgar
ao teu sábio parecer


A surpresa foi pão ou pedra?


se foi pão estava fresco e quente?


se foi pedra que seja construção

se for construção que seja casa

se for casa que seja mansão


Surpresa por surpresa... não!

Quero lágrimas ou sorrisos.


E, agora, surpreendi-te?


Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

ser natureza


"nature in harmony" de bonnie kwan huo

seixo rolado da ribeira do sabor

partia e desnudava pinhão torrado
em penedo duro à sombra do chorão
naquele momento encharcado de suor

eu e o meu periquito-de-ombro
acolhidos naquela teia global
debicámos sementes e frescura
numa síntese perfeita natural
não ambiente meio mas inteiro

único ser pensante
senti-me
nem rei nem centro
total interdependência
seixo chorão ribeira penedo e pinhão
pelos lados para cima frente trás e dentro
cúmplice na salvação de todos os seres

Daniel Sant'Iago

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

huamor


karen tribett

(Verbete para entrada no léxico impróprio
da Língua Portuguesa. Palavra nascida já
no século XXI, a 10 de Abril de 2006, às
11 horas e 30 minutos.)


Huamor. s.m. Palavra composta por
aglutinação (De humor+amor).
Comportamento ou modo de amar
que provoca agrado, alegria, sorriso,
riso e te_n_são em quem ama e é amado.


és instrumento de sedução
sémen
q.b.de humor em amor

és pitada de sal
q.b.
sabor apropriado a insonsos

és dedada de pimenta
q.b.
picante afrodisíaco para impotentes

és piropo q.b. de vão-de-escada
rubor de fogo útil em faces pálidas

és palavra parida no silêncio interior
és palavra regada no terriço dos dias

serás palavra resistente à minha morte
sempre
porque fruto maduro do amor com humor devorado
porque raiz de sorrisos
de risos
de gargalhadas
nos silêncios da minha eterna ausência sentida

Daniel Sant'Iago

terça-feira, 14 de agosto de 2007

saber esperar


ron mueck

saber esperar
hoje cá
agora aqui

neste já momento futuro
nestes dias alucinantes
verde limo escorregadio

saber esperar
o caminho mais seguro
para viver a esperança
desde que se saiba
o que se quer
e se espere
com sabedoria

Daniel Sant'Iago

sábado, 11 de agosto de 2007

e_lev_a_dor


"judith" de gustav klimt

sentaste-te
mesmo à minha frente
num elevador de lisboa


sorriste
leve a mente sem esforço
a olhares por dentro

cruzaste
o brilho verde
sem sombras de engate
insistente nos meus olhos dormentes
vermelhos num sorriso obrigado

perguntaste
ao porquê do teu sorriso
se o amarelo do olhar de dor vermelha
era sentido e definitivo

desapareceste
por entre carros e sinais
de semáforos
intermitentes
no cimo do nosso elevador

em lisboa

renasci
para um novo sorriso
em_levado
sentido
sem resposta
nem dor definitiva


Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

talvez... em chinês IV














"terra cotta warriors",
xian - china


Nesses tempos, a China vivia em guerra.


Os funcionários do governo percorriam

os campos e recrutavam mancebos para

os exércitos.

Mas, o filho do camponês
não foi levado
porque a perna estava
partida.

E os mesmos, todos-todos, os tais
vizinhos
rodearam o velho
manifestando-lhe a sua mais
profunda
alegria.

E o velho Chong, afagando a face ao filho,

fitou-os imóvel e murmurou:


- Talvez!


Obrigado, Chan, neto de um Chong e filho de um Lau,
meu amigo chinês de Macau.

Daniel Sant'Iago

domingo, 5 de agosto de 2007

talvez... em chinês III


"china, ou-long"

Lau, filho mais novo do velho Chong,
seduzido pela
fogosidade de uma das
éguas selvagens, não resistiu. Montou-a.

Primeiro a passo.
Seguido de trote. Breve o galope.
Quis domá-la. A queda foi inevitável. E Lau partiu uma perna.

E os tais vizinhos, todos-todos, os mesmos,

rodearam-no manifestando a sua mais profunda mágoa.

E o velho Chong, com a água do arrozal no olhar,

fitou-os imóvel e murmurou:

- Talvez... talvez.... talvez!

Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

talvez... em chinês II


"moutains in the west garden, china"
yongsun huang

No dia seguinte, o cavalo regressou garanhão,
liberto do feitiço
da montanha, amancebado
com seis éguas selvagens.


E os vizinhos do camponês rodearam-no,

todos-todos, os mesmos,
manifestando
a sua mais profunda
alegria.

E o velho Chong, menos pobre, com o olhar
espelho
dum dia azul feito céu, a acariciar
a garupa do cavalo e as ancas das seis éguas
selvagens,
fitou-os imóvel e murmurou:

- Talvez... talvez!

Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 30 de julho de 2007

talvez... em chinês I


"an old man smoking pipe" de ryan ross

Era muito velho o pobre Chong.
De precioso, de muito precioso,
o bem mais precioso
e único bem sem preço,
possuía um cavalo, como ganha-arroz
de cada dia.

Pela calada da noite a montanha seduziu o cavalo.
E o animal galopou encosta acima. Bem em cima...

Os vizinhos do camponês rodearam-no, todos-todos,
manifestando a sua mais profunda mágoa.

E o muito pobre velho Chong,
com o olhar espelho
do arrozal
raso de água, fitou-os imóvel e murmurou:

- Talvez!

Daniel Sant'Iago

sexta-feira, 27 de julho de 2007

a quente


" a husband with his left arm on fire"

Abraso, vermelho de sangue e raiva.

Escrevo a quente como se malhasse em ferro
à boca do fole.

Mas a palavra martelada já não molda, como gostaria,
os dias que vou andando.


Não!

Não é prudente pensar a quente.
Falar a quente.
Escrever a quente.

Eu sei.

Fervilham as emoções.
Estoira o ódio.
Ressoam os gritos.

Escrever a quente é malhar em ferro frio.
Parece que dobra a preceito e, de repente,
quebra sem jeito.

Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 25 de julho de 2007

vestígios

"girl covering her face with her hand" de aristide maillol


rubros traços de lábios
retraços de palha em camisola de lã
aromas de suores e perfume

vestígios
do passeio desta tarde
testemunhas do proibido

um medo atroz
que esses vestígios te doam

se assim for
vou deixar de te possuir
para não mais te magoar

Daniel Sant'Iago