segunda-feira, 15 de outubro de 2007

até quando


"how many times can we say goodbye?"
de raymond leech


meço o futuro do teu sempre
e
peço o limite no meu tempo


meço o futuro do teu nunca
e
peço o limite no meu tempo

Para sempre!
Nunca mais!

Até quando?

como o encontro de paralelas
o limite mora no infinito

Daniel Sant'Iago

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

para além da planície


eugenio recuenco

a sede do infinito na planície
gretou-me os lábios e secou-me a boca

o trilhar guloso dos carreiros entre sobreiros
fatigou-me o corpo

dá-me meio púcaro de barro de vinho branco
dá-me regaço e berço embalado
no pulsar do teu sangue
no palpitar do teu peito

e
se eu adormecer

acorda-me com as amoras
de um beijo
e
de um segredo


Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

além do tejo


Estudo sobre "campo de papoilas" de
Alice Rabaça Gaspar Fernandes Vaz


O além tejo de ontem envolvia-se
numa manta forrada a searas
verde
s
de tufos de papoilas em recantos
vermelhos
de cantos em descante dolente.

Cravo dente em carne dada,
em cantinho exclusivo,
sedutora nódoa negra,
um encanto de desnudado encantamento
num quarto acamado para poente.


Um além tejo de verões idos
num canto moreno
chorado
desafio
em montes de fogo.

um além tejo

de tróia às serranias do sul

de encanto de posses
de epopeias de sonetos
de quadras saloias

Atravesso a ponte
sobre o Rio Tejo,
rumo a monte deserto,
numa ponte do calendário.

Vem, meu bem, vem também,

afecto e trajecto sob azul!

Daniel Sant'Iago

domingo, 7 de outubro de 2007

chocolate negro com 96% de cacau


"chocolat noir" de sandra knuyt

o amargo sabor do doce
tece-se
de insatisfação e lábios


o doce sabor do amargo
urde-se
de vinganças e bílis


Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

menos é mais... mais ou menos!


"less is more, more or less" de hal mayforth

Num passeio ao acaso
... um encontro inesperado.
De soslaio... um olhar mais.


mais ou menos


Percebi que me sentiste.
Senti mais mas muito mais.

Menos dúvidas mais certezas.

menos e mais


No entanto, fugimos um do outro.

ainda mais

Sofremos
muito mais.
Tudo.

demais


Porque não preferimos o menos?

Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

vindima


"la vendange" de ernest rancoulet

Na vinha herdada de meu avô, na encosta virada a sul,
desfolhei parras à cepa e desbaguei cachos de engaços,
esmaguei bagos em vinho, sumo e óleo de grainhas.

Difícil foi o passo seguinte, a caminho de silêncios.

de fora para bem dentro
bem fundo
íntimo em corpalma
abandonando cepas nuas
da infinidade de bagos para a infinidade de mim

Da vinha vazia, infindo lugar exterior,
para vazia consciência de um interior sem limite.

indo de oásis em oásis
indo de vazio em vazio
por areias de desertos
a caminho de infinitos

E, neste mítico progresso, sinto regressos vários.
Incapaz de ser humano vivente naquela infinidade de desertos.

Valem os esforços diários ao clarificar caminhos de interioridade.

vindimei-me
por amar quem

Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

à solta


eugenio recuenco

quando o meu olhar é o guia dos teus dedos

deslaço o freio à ternura
soltas o arreio à tremura

saltos de um cavalo
sem sela nem rédeas

Daniel Sant'Iago

domingo, 23 de setembro de 2007

ama_dourado mel


"la vigne rouge" de van gogh

naquela encosta virada ao sul
plantou meu avô cepa estendal
de uva moscatel com bagos mil
passa em verde amadourada mel


naquela encosta virada ao sul
no outono do verão na vindima
uma cepa moscatel promete mel
obra-prima que natureza anima

naquela encosta virada ao sul
demora um bem
utopia infinita

mora em mim

o silêncio
em nada de nada

a não presença do
nada
nem tão pouco a ideia do nada

anda de mão dada comigo
até à cepa de moscatel

perdi de vista
o caminho
do amor amadourado a mel

Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

pelo sinal


"signes en jaune" de paul klee

de alarme
aviso cru

de pele
pinta tinta num dedo nu

de trânsito
círculos triângulos quadrados losangos
vermelhos e verdes

de pontuação
vírgulas pontos de reticências

aceno insígnia trejeito vestígios
de gente que sente o que eu sinto

dos tempos
outros sinais de ontem
que hoje a gente sente

sinal
da cruz de cruzes

Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

na ponta da língua

livros são palavras
num único gesto
e
peso
som
cor
em grão semeadas
aradas
colhidas
embrulhadas em linho leve
mastigadas em doce torrão

Seduz!
Provoca!
Encharca!

brinco de palavras
hoje
um jogo teu
de palavras

preciso de ti
preciso de tudo
preciso de tudo para além de ti

preciso de muito
preciso de muito mais
preciso do mais
tudo
preciso de tudo o que tens
preciso do que não podes ser

bastas tu
bastas tu toda

basta tudo

Daniel Sant'Iago

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

tornado


"stormy weather" de jan voss

não sei
se te ame
se te esqueça

sei que te amo
mistério sonhado em verdade
mentira de nítida realidade

sei que te esqueço
escondida quando possuída
poço sem fundo na posse proibida

Daniel Sant'Iago

terça-feira, 11 de setembro de 2007

insisto a_pe(n)sar...


"adonis plant, dew on the love herbs"
hokusai katsushika


Já tudo foi dito sobre o amor todo.

Tudo!


Mas eu insisto!
(Mais um que insiste...)
Insisto!

Não posso acrescentar um nico mais.

Nada!


Mas quero repetir o acto de amar

e não só mais um coito de amor.


deixa insistir

até à exaustão

que o amor é loucura
que mata e que cura
que des_espera

que sacia
e faz fome

deixa insistir

até mais não

que no amor
renasço

refaço

renego
retenho

descalço

deslaço


E,
se silencio e oiço,
escuto insistentemente:

"Amo-te!"


Sabes, agora, por que insisto...


É que acredito que me contemplas ao ler-me.


Daniel Sant'Iago

sábado, 8 de setembro de 2007

im_perdoável


"forgotten woman" de diana ong


Esqueci-me do dia dos teus anos.
Esqueci-me da prenda habitual.

Esqueci-me da rotina anual.


Esqueci-me.

Entristeci.


Não por te ver triste.

Não por me ter esquecido do dia.

Não por me ter esquecido da prenda.

Anual e habitual.


Mas por me ter esquecido.

E esquecido de ti.


Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

traços geométricos


"a personification of geometry" de dosso dossi

O que se quer nem sempre será

o que se deve nem o que se pode.

Querer será uma semi-recta que
parte de um vértice de um ângulo
agudo ou recto ou obtuso.
A um dos lados desse ângulo
chamar-lhe-ia dever.
E ao outro poder.

Não é a bissectriz de uma vida
porque o ângulo não se divide
em duas partes iguais.
Nem nós somos um simples e
transparente conceito geométrico.

Nem por um triz!


Daniel Sant'Iago

domingo, 2 de setembro de 2007

passo a passo


"walking on egg shells" de sandy skoglund

de favo em favo

escravo de abelhas

deixei-
me adoçar

de migalha em migalha

escravo de mesas

deixei
-me açaimar

de ninho em ninho

escravo de troncos
deixei-
me afundar

Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

sons com peso


"shaky balance" de paul klee

pesar na palavra o peso do som

será tarefa de louco internado


seja


estende a mão esquerda
e segura
na palavra amor
um leve esvoaçar
de fofas penas
de colibri fiel
que voa sem cessar
a dança alada
duma valsa vienense

estende a mão direita
e segura
na palavra amor
um furacão de paixão
de lavas incandescentes
torrão rolando entre ventanias de vendavais


Balanceia as duas mãos.

As palavras não têm peso?

Que amor preferes?

Os dois?

O amor?


Gosto do teu gosto,

minha loucura,

minha louca!


Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

de gritos


larry devillas

apetece-me ser deus de tons

para uns ais
palavra escrita


preciso da outra louca de ti

para jogar o jogo do tom
que
a palavra escrita ai não tem

o brinquedo é ai
interjeição expressão


eu escrevo ai
e tu doas-lhe a entoação


primeiro o ai-de-suspiro

inspira bem fundo
aguenta um pouco
expira
um único ai
com força
com mais aaaa que i


isso assim


agora o ai-de-dor

repetido tantas vezes quanta a dor sofrida

breve
embrulhado em esgar
franzido e molhado


isso assim


por fim um ai-de prazer

insiste
insiste
em movimento
ritmado e batido

cada vez mais rápido
cada vez mais
mais ainda
mais
gutural-e-grunhido


isso assim
isso assim
isso assim
isso assiim


pára
pára
pára
páára jáá


isso
assiiim
de mansinho


sim
acabou o jogo do tom

fim


Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

surpreendi-te

"surprise" de diana ong
causei-te surpresa
provoquei-te com algo inesperado


fui imprevisível ou desconcertante?

apanhado em flagrante?


Não dei por isso!

por que não o confessaste logo?

tinha-me sido mais fácil perceber o motivo

bastava atar o meu acto ou palavra

ao teu olhar
ao teu esgar
ao teu sábio parecer


A surpresa foi pão ou pedra?


se foi pão estava fresco e quente?


se foi pedra que seja construção

se for construção que seja casa

se for casa que seja mansão


Surpresa por surpresa... não!

Quero lágrimas ou sorrisos.


E, agora, surpreendi-te?


Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

ser natureza


"nature in harmony" de bonnie kwan huo

seixo rolado da ribeira do sabor

partia e desnudava pinhão torrado
em penedo duro à sombra do chorão
naquele momento encharcado de suor

eu e o meu periquito-de-ombro
acolhidos naquela teia global
debicámos sementes e frescura
numa síntese perfeita natural
não ambiente meio mas inteiro

único ser pensante
senti-me
nem rei nem centro
total interdependência
seixo chorão ribeira penedo e pinhão
pelos lados para cima frente trás e dentro
cúmplice na salvação de todos os seres

Daniel Sant'Iago

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

huamor


karen tribett

(Verbete para entrada no léxico impróprio
da Língua Portuguesa. Palavra nascida já
no século XXI, a 10 de Abril de 2006, às
11 horas e 30 minutos.)


Huamor. s.m. Palavra composta por
aglutinação (De humor+amor).
Comportamento ou modo de amar
que provoca agrado, alegria, sorriso,
riso e te_n_são em quem ama e é amado.


és instrumento de sedução
sémen
q.b.de humor em amor

és pitada de sal
q.b.
sabor apropriado a insonsos

és dedada de pimenta
q.b.
picante afrodisíaco para impotentes

és piropo q.b. de vão-de-escada
rubor de fogo útil em faces pálidas

és palavra parida no silêncio interior
és palavra regada no terriço dos dias

serás palavra resistente à minha morte
sempre
porque fruto maduro do amor com humor devorado
porque raiz de sorrisos
de risos
de gargalhadas
nos silêncios da minha eterna ausência sentida

Daniel Sant'Iago