Nem os teus nem os meus. Nem os teus nem os meus teres. Nem os nossos poderes e saberes.
Quem nos impede de romper a teia cruel o limite imposto a grade assumida, retraços entre ti e mim naquele momento infinito cela e selo duma inconfidência?
Mesmo que nos soltássemos à desfilada numa correria louca e cavalgada infindável assaltando montes montados rios e ribeiras pertos e longes sobre obstáculo de soberba
no ténue limite cruel por nós fixado chegado o tempo da decisão inadiável de sorrir juntos ou sofrer separados
tu eu sei que choras eu também e não só de madrugada lágrimas contidas em cofre-segredo para tarde ou cedo nos aplacar a sede
Acordar-te-ei pela madrugada. Que não é noite nem manhã. Só se dorme de noite. De olhos às escuras. Só se acorda de manhã para a lufa-lufa. As insónias são para as madrugadas. Numa madrugada, depois de amar, vamos ver o nascer do sol. Do alto do monte. Embrulhados num único cobertor.
Contigo não se morre de tédio. Não morrerás de tédio. Mas a sorrir.
“Espera por mim. Não me demoro. Só o tempo de deixar rolar uma única lágrima. Suspirar bem fundo uma vez. Até já?”
As palavras! As minhas palavras! Só aqui me doem. Junto de ti não preciso de sussurros. Basta olharmo-nos. Escrevemos cá dentro. Não sei bem onde. A fogo. Palavras pirogravadas em lenha seca. Aqui, basta que saiam. Que as leias. Hoje, só tu as leste. São tuas somente.
Não vamos dormir, pois não? Vamos amar toda a noite. Com descansos pelo meio. Fumar um cigarro. Beber um copo.
quero lembrar o miguel quando vestia calções jogava ao pião corria com o arco saltava num avião desenhado aos quadrados no chão
Toca a aviar!
quero lembrar o miguel quando era puto sem creches nem jardins de infância estudante-trabalhador sem salário menino de têpêcês em mochila-albarda
Toca a viar!
quero lembrar o miguel quando obedecia vai apanhar erva pr'os coelhos vai cortar as couves pr'os patos vai levar a lavadura aos porcos
Toca a aviar!
Quero lembrar o miguel quando, no dia seguinte, tremia: - Não fiz os trabalhos de casa... fui apanhar erva pr'os coelhos... cortar as couves pr'os patos... levar a lavadura aos porcos...
Toca a aviar!
quero lembrar o miguel o meu herói quando o apressavam o pai e a mãe e a professora para o trabalho de criança-estudante sem salário porque em troca davam-lhe o pão e a educação se ele não se negasse a apanhar a erva pr'os coelhos cortar as couves pr'os patos levar a lavadura aos porcos fazer os trabalhos de casa
Toca a aviar!
"Tó Caviar" era a alcunha dum colega que, entre as aulas da manhã e da tarde, almoçava uma-entrada-de-marisco-sopa-prato e à-sobremesa-um-petisco: de frutas e doces.
"long live love" niki de saint phalle Amo-te! Estive prestes a deixar só assim. Sem mais nada porque é dia santo. forma verbal pronominal sujeito sub_entendido predicado na pessoa primeira tu a pessoa atingida continente e conteúdo significante e significado foneticamente emudecida sintacticamente uma roda à dentada amo-te um tanto tão pouco um simples tão difícil um fácil tão inútil um útil tão inutilizado amo-te eu, D... tu, X...
Mas, dada a falta de arte de montar toda a sela, convincentes foram a queda e o empurrão do dorso pelado do animal.
E, num ápice, passei de cavaleiro inseguro a suja ferradura calcada.
agora sei que o meu poder tem a dimensão dum grão de areia do deserto e o peso dum leve ar num vendaval desfeito e o fado do primeiro passo em longa caminhada
o meu poder é pequena coisa um ar que lhe deu uma agulha em palheiro um bafo na aragem um quase nada
o meu poder é descalçar a ferradura envenenar o ar da aragem não dar o primeiro passo e a pequena coisa quase nada será agulha na engrenagem
Estudo sobre "campo de papoilas" de Alice Rabaça Gaspar Fernandes Vaz
O além tejo de ontem envolvia-se numa manta forrada a searas verdes de tufos de papoilas em recantos vermelhos de cantos em descante dolente.
Cravo dente em carne dada, em cantinho exclusivo, sedutora nódoa negra, um encanto de desnudado encantamento num quarto acamado para poente.
Um além tejo de verões idos num canto moreno chorado desafio em montes de fogo.
um além tejo de tróia às serranias do sul de encanto de posses de epopeias de sonetos de quadras saloias Atravesso a ponte sobre o Rio Tejo, rumo a monte deserto, numa ponte do calendário. Vem, meu bem, vem também, afecto e trajecto sob azul! Daniel Sant'Iago
Na vinha herdada de meu avô, na encosta virada a sul, desfolhei parras à cepa e desbaguei cachos de engaços, esmaguei bagos em vinho, sumo e óleo de grainhas.
Difícil foi o passo seguinte, a caminho de silêncios.
de fora para bem dentro bem fundo íntimo em corpalma abandonando cepas nuas da infinidade de bagos para a infinidade de mim
Da vinha vazia, infindo lugar exterior, para vazia consciência de um interior sem limite.
indo de oásis em oásis indo de vazio em vazio por areias de desertos a caminho de infinitos
E, neste mítico progresso, sinto regressos vários. Incapaz de ser humano vivente naquela infinidade de desertos.
Valem os esforços diários ao clarificar caminhos de interioridade.