quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Que pêssego!


"peachy keen" de phyl schok

Não resisti à oferta dum pêssego, fruto do
teu pomar, carnudo,
sumarento, rosáceo e
maduro, envolto em penugem sedosa
que
acamei de cima a baixo e do centro
para os lados.


Rodei-o nas palmas das mãos.
E, juntando as unhas dos polegares
- bem no alto,
bem no centro, onde secara o pedúnculo - e a
polpa
dos dedos restantes em redor, abri-o
num golpe , de par em par,
em dois
hemisférios por um meridiano
nascido dos polegares até

ao bico do fundo.

Escorreu o aroma do suco pelos dedos
e nas pontas sorvi-o gota a gota,

pingo a pingo.

Solto o caroço, suguei-o pela língua
ao céu-da-boca e volteei-o mil vezes

até senti-lo duro, grosso e limpo.


Foi então que, esfomeado, sedento e guloso
o devorei, pedaço a pedaço
até o sabor
desaparecer em perfume.


Ao caroço enterrei-o no teu pomar na esperança de que,
no próximo ano,
não precises de mo oferecer e eu o
possa colher sem ter que to pedir.


Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

abraça - me















"a loving hug"
edward burne-jones


cuida de mim

não me cures


porque se me curares

deixas de te preocupar

comigo
que te afligia


porque se me cuidares

continuas a olhar
por mim

sem fim


Daniel Sant'Iago

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

narciso

"echo and narcissus" de j w waterhouse

do miradouro

apregoei a sul


Sou feliz!


da montanha
volveu o azul

Sou feliz!

entendi
por fim
como é bom
ter eco
mas
feliz


Daniel Sant'Iago

terça-feira, 13 de novembro de 2007

coktail-bar


"coktail pour white sax"
pierre farel

Nem os teus nem os meus.
Nem os teus nem os meus teres.
Nem os nossos poderes e saberes.

Quem nos impede de romper
a teia cruel
o limite imposto
a grade assumida,
retraços entre ti e mim
naquele momento infinito
cela e selo duma inconfidência?

Mesmo que nos soltássemos à desfilada
numa correria louca e cavalgada infindável
assaltando montes montados rios e ribeiras
pertos e longes sobre obstáculo de soberba

no ténue limite cruel por nós fixado
chegado o tempo da decisão inadiável
de sorrir juntos ou sofrer separados

tu
eu sei que choras
eu
também e não só de madrugada
lágrimas contidas em cofre-segredo
para tarde ou cedo
nos aplacar a sede

Daniel Sant'Iago

sábado, 10 de novembro de 2007

receita para viver em coerente contradição


"opposition of lines red and yellow"
piet mondrian


quando assumo
tomo como meu um erro ou uma posição
tomo consciência dum acto que cometi

quando me contradigo
não digo o que penso
não faço o que digo
não ajo como penso

quando assumo uma contradição
tomo como minha a incoerência

E depois?

assumo a incoerência
está assumida
acabou!
ou
assumo a incoerência
e afinal
eu quem sou?

assumir uma contradição é em si a contradição
ou faço por esquecer ou sou novelo sem pontas

Como é possível ser sem viver em contradição?

Sim!
É possível desde que sofras.

O sofrimento foi a nossa solução!

Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

canção para uma madrugada de outono


"seduction"
natalie savard


Acordar-te-ei pela madrugada. Que não é noite nem manhã.

Só se dorme de noite. De olhos às escuras. Só se acorda
de
manhã para a lufa-lufa.
As insónias são para as madrugadas.


Numa madrugada, depois de amar, vamos ver o nascer do sol.

Do alto do monte. Embrulhados num único cobertor.

Contigo não se morre de tédio.
Não morrerás de tédio.
Mas a sorrir.


“Espera por mim. Não me demoro. Só o tempo de deixar
rolar uma única lágrima. Suspirar bem fundo uma vez.
Até já?”


As palavras!
As minhas palavras!
Só aqui me doem. Junto de ti não preciso de sussurros.
Basta olharmo-nos.
Escrevemos cá dentro. Não sei bem onde. A fogo.
Palavras pirogravadas em lenha seca.
Aqui, basta que saiam. Que as leias.
Hoje, só tu as leste. São tuas somente.

Não vamos dormir, pois não?
Vamos amar toda a noite.
Com descansos pelo meio.
Fumar um cigarro.
Beber um copo.

Para continuar.
A amar.
A fumar.
E a beber.

Daniel Sant'Iago

domingo, 4 de novembro de 2007

oração para um dia amargo


"let's play ball" de jim daly

quero lembrar o miguel quando vestia calções
jogava ao pião
corria com o arco
saltava num avião desenhado aos quadrados no chão

Toca a aviar!

quero lembrar o miguel quando era puto
sem creches nem jardins de infância
estudante-trabalhador sem salário
menino de têpêcês em mochila-albarda

Toca a viar!

quero lembrar o miguel quando obedecia
vai apanhar erva pr'os coelhos
vai cortar as couves pr'os patos
vai levar a lavadura aos porcos

Toca a aviar!

Quero lembrar o miguel quando,
no dia seguinte, tremia:

- Não fiz os trabalhos de casa...
fui apanhar erva pr'os coelhos...

cortar as couves pr'os patos...
levar a lavadura aos porcos...


Toca a aviar!

quero lembrar o miguel o meu herói
quando o apressavam o pai e a mãe
e a professora para o trabalho de
criança
-estudante sem salário porque
em troca davam-lhe o pão e a educação
se ele não se negasse a
apanhar a erva pr'os coelhos
cortar as couves pr'os patos
levar a lavadura aos porcos
fazer os trabalhos de casa

Toca a aviar!

"Tó Caviar" era a alcunha dum colega que,
entre as aulas da manhã e da tarde,
almoçava uma-entrada-de-marisco-sopa-prato e
à-sobremesa-um-petisco:

de frutas e doces.

Toca a aviar, Miguel, toca a aviar!

Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Eu, abaixo-assinado, declaro(-me)...


"long live love"
niki de saint phalle


Amo-te!


Estive prestes a deixar só assim.
Sem mais nada porque é dia santo.

forma verbal pronominal
sujeito sub_entendido
predicado na pessoa primeira
tu
a pessoa atingida


continente e conteúdo
significante e significado
foneticamente emudecida
sintacticamente uma roda
à dentada


amo-te
um tanto tão pouco
um simples tão difícil
um fácil tão inútil
um útil tão inutilizado

amo-te
eu, D...
tu, X...

Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

... e se violenta fosse a morte das saudades?


"missing you"
franz heigl


vivas as saudades pois se matam
vis as saudades que nos matam

Morte violenta às saudades!

Desembainha o punhal.
Saliva-lhe a ponta.
Desnuda-te lenta.
Trespassa-te de lado a lado
pela carne viva

repetida
sôfrega
gemida.

Mortas as saudades, resta a languidez
do desfalecimento lento, lento e lento.

Sentiremos a paz
na morte violenta
das saudades!


Daniel Sant'Iago

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

... e se o meu poder fosse...


"the little thinghs" de april harrison

Aceitei montar o cavalo do poder.

Mas, dada a falta de arte de montar toda a sela,
convincentes
foram a queda e o empurrão do dorso
pelado do animal.


E, num ápice, passei de cavaleiro inseguro
a suja ferradura calcada.


agora sei que o meu poder tem a dimensão
dum grão de areia do deserto

e o peso dum leve ar num vendaval desfeito
e o fado do primeiro passo em
longa caminhada

o meu poder é pequena coisa
um ar que lhe deu
uma agulha em palheiro
um bafo na aragem
um quase nada

o meu poder é
descalçar a ferradura

envenenar o ar da aragem
não dar o primeiro passo

e
a pequena coisa
quase nada
será

agulha na engrenagem

Daniel Sant'Iago

terça-feira, 23 de outubro de 2007

frases cegas


"blind feeling" de diana ong


Como posso aspirar à eternidade

se é constante a mudança?

Como ser num mundo de teres?
Como ser sem te ter?

Como negar a verdade
se não sei mentir?

Como não devorar-te
se tenho fome?

Como ocupar-te
se me pre_ocupas?


Como contemplar-te

se me cegaste?

Daniel Sant'Iago

domingo, 21 de outubro de 2007

verso_ in_verso


"lips" de andy warhol

O desejo estalou num receio sofrido
e cego, pleno
de justificações moralistas.

Instável,complicada e subtil despertaste,
de súbito, numa cena
de ciúmes entre razões.

Não discuto as causas justas.
Chamo-te invejosa porque ciumenta.

Ciumenta, receias que alguém deseje
e se aposse
dum bem que crês só teu.

Invejosa, desejas intensamente um bem
possuído por outro.


Sentimentos distintos, a inveja e o ciúme.
Mas um mesmo caminho de sentido inverso.

O ciúme é nome abstracto e masculino.
A inveja é nome abstracto e feminino.
Não há ciúme e inveja.
Há ciumentos e invejosos.

Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

que loucura!


"shimmering madness" sandy skolung

... quando pela ternura da manhã

murmuras no segredo dum sussurro

que loucura

não foi noite
foi a água que se afogou

Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

até quando


"how many times can we say goodbye?"
de raymond leech


meço o futuro do teu sempre
e
peço o limite no meu tempo


meço o futuro do teu nunca
e
peço o limite no meu tempo

Para sempre!
Nunca mais!

Até quando?

como o encontro de paralelas
o limite mora no infinito

Daniel Sant'Iago

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

para além da planície


eugenio recuenco

a sede do infinito na planície
gretou-me os lábios e secou-me a boca

o trilhar guloso dos carreiros entre sobreiros
fatigou-me o corpo

dá-me meio púcaro de barro de vinho branco
dá-me regaço e berço embalado
no pulsar do teu sangue
no palpitar do teu peito

e
se eu adormecer

acorda-me com as amoras
de um beijo
e
de um segredo


Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

além do tejo


Estudo sobre "campo de papoilas" de
Alice Rabaça Gaspar Fernandes Vaz


O além tejo de ontem envolvia-se
numa manta forrada a searas
verde
s
de tufos de papoilas em recantos
vermelhos
de cantos em descante dolente.

Cravo dente em carne dada,
em cantinho exclusivo,
sedutora nódoa negra,
um encanto de desnudado encantamento
num quarto acamado para poente.


Um além tejo de verões idos
num canto moreno
chorado
desafio
em montes de fogo.

um além tejo

de tróia às serranias do sul

de encanto de posses
de epopeias de sonetos
de quadras saloias

Atravesso a ponte
sobre o Rio Tejo,
rumo a monte deserto,
numa ponte do calendário.

Vem, meu bem, vem também,

afecto e trajecto sob azul!

Daniel Sant'Iago

domingo, 7 de outubro de 2007

chocolate negro com 96% de cacau


"chocolat noir" de sandra knuyt

o amargo sabor do doce
tece-se
de insatisfação e lábios


o doce sabor do amargo
urde-se
de vinganças e bílis


Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

menos é mais... mais ou menos!


"less is more, more or less" de hal mayforth

Num passeio ao acaso
... um encontro inesperado.
De soslaio... um olhar mais.


mais ou menos


Percebi que me sentiste.
Senti mais mas muito mais.

Menos dúvidas mais certezas.

menos e mais


No entanto, fugimos um do outro.

ainda mais

Sofremos
muito mais.
Tudo.

demais


Porque não preferimos o menos?

Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

vindima


"la vendange" de ernest rancoulet

Na vinha herdada de meu avô, na encosta virada a sul,
desfolhei parras à cepa e desbaguei cachos de engaços,
esmaguei bagos em vinho, sumo e óleo de grainhas.

Difícil foi o passo seguinte, a caminho de silêncios.

de fora para bem dentro
bem fundo
íntimo em corpalma
abandonando cepas nuas
da infinidade de bagos para a infinidade de mim

Da vinha vazia, infindo lugar exterior,
para vazia consciência de um interior sem limite.

indo de oásis em oásis
indo de vazio em vazio
por areias de desertos
a caminho de infinitos

E, neste mítico progresso, sinto regressos vários.
Incapaz de ser humano vivente naquela infinidade de desertos.

Valem os esforços diários ao clarificar caminhos de interioridade.

vindimei-me
por amar quem

Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

à solta


eugenio recuenco

quando o meu olhar é o guia dos teus dedos

deslaço o freio à ternura
soltas o arreio à tremura

saltos de um cavalo
sem sela nem rédeas

Daniel Sant'Iago