sexta-feira, 25 de maio de 2007

baga_telas


"a woman holding a fruit" de paul gauguin

O nome?
Taiana!
A que teme os espíritos da noite.

És, aqui, ser e ter.
És, aqui, cor e oferta.
Não és tempo.
Estás!

Corpo de formas delineadas a negro.
Corpo tropical e sincero.
Corpo real e primitivo.

Nativa paixão.
Em boémia de cores viva!
Vermelhos, verdes, violetas!
Chapadas de amarelo simples.
Cores sem gradação.

Onde vais?

Que interessa para onde
se numa das cabanas,
Taiana,
ao fundo,
sob o colmo fresco,
os frutos dados não temem os espíritos
duma noite... a sós...

Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 23 de maio de 2007

da des_esperança


"leaning poppies"
oskar koller


Arrefeço!
Fevereiro em Maio?

Frio, flor?

Há dias, o Sol afiançou-me
que as neves se fundiram
nos flancos da montanha.

Imaginavam-se eternas...

Acreditei nele!


Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 21 de maio de 2007

mareia


"remorse or the sphinx embebed in the sand"
salvador dali


mareia

é o espaço onde
a onda morre e a areia continua

mareia
é o espaço onde
se demora a areia húmida e dura

mareia
é o espaço onde
calcorreio contigo a sensação nua
de sermos seres vivos e descalços

mareia
é o espaço onde
somos náufragos dados à costa
expulsos da nossa terra dorida


Mareia (s.f. mar+areia) é uma palavra aglutinada.
Espaço onde morre a onda e sobrevive a areia molhada.
[Verbete para uma entrada no léxico (im)próprio do Português.
Palavra minha, nascida já no século XXI, a 13 de Março de 2006,
às 12 horas e 12 minutos].


Daniel Sant'Iago

sexta-feira, 18 de maio de 2007

baga_telas





num gume

de uma duna
soprou uma brisa

na face lisa
moldou-se o cotorno
dum corpo que prolongo

na face ondulada

abriga-se a caruma
de um forno de lenha

brasido de um tronco

que me queima e perfuma
na oferta duma madrugada
na duna morna dum deserto

o meu

Daniel Sant'Iago


"wind patterns in the sand" de bill hatcher

terça-feira, 15 de maio de 2007

??{o}??

"antropofagia" de tarsila do amaral

para que
quero tanto o pouco que me falta
se
possuo tão pouco o muito que já tenho
?


Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 14 de maio de 2007

saudades


"in contempt of our love"
leo evans


corroído pelas saudades
magoei-me com sorrisos
nos espinhos de aromas

coexistência de inconciliáveis

prazer no sofrimento
passado e futuro
nós num corpo
povo a sós

antónimos de iguais
opostos de sinónimos


Daniel Sant'Iago

sábado, 12 de maio de 2007

baga_telas


"david" (pormenor)
miguel ângelo

O olhar fulmina um alvo no horizonte.
Cercam-no olheiras fundas e vincadas.
Narinas dilatadas fremem vendavais.
Lábios grossos em rosto gelado.

Os cabelos rolam revoltos.
A fronte avoluma-se.
Os dentes cerram-se.
A ira urra.

Era um pedregulho.
Bruto e tosco.

Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 9 de maio de 2007

in_decisão


"reclining nude in green"
egon schiele


não recebo quando
me dás

só recebo quando percebo que
te dás


mas

pode acontecer que
te dês

e eu não perceba que
te dás


decidi
agora mesmo

receber
tudo o que
me dês

mesmo que perceba
que
tu não estás


Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 7 de maio de 2007

touché_e


"lovers in the red sky" (moma sf)
marc chagall



Hoje
Sou eu que te esmago

Entre ondas e areias
Num ballet de vagas nuas
Em páginas de livros para ler
Em pautas de melodia a cantar
Por luas de espumas sob marés

As palavras são pele de teclas
Em solo de piano a quatro mãos
Melodia
De
mel e dia cantada à desgarrada
Nos corpos que tremem e endurecem
Quando pairam no ar as reticências
Feitas de nada em essência de tudo

Olho-me nos olhos e desfolheio-te
Livro

À procura da alma que reencontras
No índice do teu corpo que soletro
Só letras de folhas tão in_quietas

Mordisco os lábios cinzelados a lume
Molhas línguas num instante de nudez
Dedilho a página das páginas vermelha
Infinito de um instante que se desfez
Para ser sempre a última primeira vez

serena adormeces
sobre o éden
que ao longe transparece

restam as mãos laçadas nos dedos
nós de beijos sorvidos das vagas
que murmuram


Esta noite fui
tua
leitura!

Daniel Sant'Iago

sábado, 5 de maio de 2007

baga_telas


"david" de miguel ângelo (pormenor)

Entre ossos de pedra afloram veias de mármore
sob a pele
cheia de uma mão que verga e agride.

o escultor
miguel
do modelo
david

e um cinzel o elo

Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 2 de maio de 2007

esta noite



esta noite
encharcou-se em água doce

nesta noite
derramou-se sumo agridoce

esta noite
ensopou-nos as roupas de chuva

nesta noite
desatou-se o atilho ao atado

esta noite
esgotou-se numa madrugada nua

esta noite
não adormeceu nem acordou

Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 30 de abril de 2007

colo


fresco de pompeia

cola-me ao teu colo
tão
quente

leva-me...

anjo-réu
e
crente
...
colo ausente


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

domingo, 29 de abril de 2007

baga_telas










toque breve
criação eterna

o homem e deus


Daniel Sant'Iago

sexta-feira, 27 de abril de 2007

jardim das oliveiras


"olive tree"

Revivo o teu caminhar para o meu convite.

Não invocaste medo nem outras ocupações.
Nem histórias com desculpas tontas.

As minhas horas de solidão,
em Getsémani,

prensa de azeite num olival,

lugar de encontro de uma ceia.
Rente ao mar.


para entrega
sem suor
sem sangue
sem traição


Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 25 de abril de 2007

dum jardim em belém


"a man... looking at the garden..."
taylor s. kennedy


bebe
leonor
dos meus olhos
esta embriaguez


de lagos de mármores
árvores de bagos
de afagos de amoras
auroras de flores
de amores vermelhos
espelhos de água
da mágoa de bancos
saltimbancos às cores

tenho saudades dum festim
de bolas de berlim e bica dupla
de sumo natural de manga e uva
chuva de sons de tom jobim

olhos de bêbados
duma falua de cravos
na barra do tejo
do nosso jardim em belém

nem verdura
leonor

nem segura



Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 23 de abril de 2007

passos no tempo de espaços


"space & time " de john palmer

desde que oásis
e ainda que estreito

acorrento-me ao espaço
atemoriza-me o tempo
e
arrasto-me pela escolha

mas
para que quero o tempo
se
não te deito no espaço?
mas
para que quero o espaço
se
não me saboreio no tempo?

se
nem o tempo desse espaço
nem o espaço desse tempo
podem ser recuperados
então
não opto

quero-te no tempespaço
até adormecer
sem tempo para acordar
naquele jardim


Daniel Sant'Iago

sábado, 21 de abril de 2007

con_certo em D M, opus #304



abertura
Brinco de Palavras é um espaço
aberto, não sujeito a censura.
Fechado a comentários impróprios.


tema
Aqui, imponho-me Civismo para tentar
pôr termo a ofensas e comentários abusivos.

movimentos
Assumirei a Responsabilidade dos textos e
dos comentários.

Não permitirei ameaças, assédios, insultos,
difamações e violações do direito de autor.

Aceitarei comentários anónimos e pseudónimos.
Os pessoais devem ser enviados por e-mail.

Ignorarei ataques e inibir-me-ei de os
comentar ou de contra-atacar.

Tentarei contactar, em privado, antes de
fazer uma denúncia ou censura.

Defenderei todos de ataques em comentários
intoleráveis.

Não escreverei online o que seria incapaz
de dizer cara a cara.

coda
A Liberdade e a Pessoa
(en)cantam-se em acordes
de Sol Maior!


Daniel Sant'Iago

sexta-feira, 20 de abril de 2007

pausa - semicolcheia


"pause cafe II" de delphine corbin

Imponho no meu blogue uma auto-regulamentação.

6. pausa - semicolcheia
Defenderei uma pessoa de ataques injustos com
comentários inaceitáveis.

7. pausa - final
Não escreverei online o que não seria capaz de
di
zer à pessoa cara a cara.

Daniel Sant'Iago

quinta-feira, 19 de abril de 2007

pausa - colcheia


"pause cafe I" de delphine corbin

E, ao quinto dia, a regra quinta. Que me imponho!

5. pausa - colcheia
Antes de fazer uma denúncia ou censura, este
blogueiro tentará contactar a pessoa, em privado.

6. pausa - semicolcheia
(amanhã)

Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 18 de abril de 2007

pausa - semínima


"pause to reflect II"
brent nelson

E imponho-me a regra quatro ao quarto dia.

4. pausa - semínima
Ignorarei ataques. Inibir-me-ei de os comentar
ou de contra-atacar.

5. pausa - colcheia
(amanhã)


Daniel Sant'Iago

terça-feira, 17 de abril de 2007

pausa - mínima


"pause to reflect I"
brent nelson

E, no dia três, imponho-me a regra terceira.

3. pausa - mín
ima
Neste blogue, aceitam-se comentários anónimos
e pseudónimos. Os pessoais devem ser enviados
por e-mail.

4. pausa - semínima
(amanhã)


Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 16 de abril de 2007

pausa - semibreve


E, ao dia segundo, imponho-me a regra dois.

2. pausa -
semibreve
Este blogueiro não permitirá
comentários
intoleráveis: ameaças, assédios,
difamações,
insultos, violações do direito de autor...

3. pausa - mínima
(amanhã)

Daniel Sant'Iago

imagem de william adolphe
"pause for thought"

domingo, 15 de abril de 2007

pausa - breve


"pause" de abraham brewster

Imponho-me uma pausa. Que silêncio tam_bém
soa. Sete dias sem brincar.

Imponho-me um código. De conduta. Neste blog.

Imponho-me regras. No rasto de Jimmy Wales
e Tim O'Reilly. Aqui!

1. pausa - breve
Este blogueiro assume a responsabilidade dos
textos e dos comentários inseridos no "Brinco
de Palavras".

2. pausa - semibreve
(amanhã)

Daniel Sant'Iago

sexta-feira, 13 de abril de 2007

querer ouvir







só ouves o que queres

está bem

vou querer antes de ouvir

preferes?


Daniel Sant'Iago



"jovem de cabelos compridos"
lasar segall

quarta-feira, 11 de abril de 2007

a caminho




a morte
e a vida
não se opõem

o menino
vive entre
a vida e a morte

A caminho, meu rapaz!

*
Não é a morte da lagarta

a vida da borboleta?

Daniel Sant'Iago

*
"wind" de steven meyers

domingo, 8 de abril de 2007

amor branco


"maternidade"
lasar segall


Dois se
s
segredaram-se,
seduziram-se
e

semearam-se
num ser!

Nasceu um menino
num Domingo de Páscoa!

Natal!


Daniel Sant'Iago

sábado, 7 de abril de 2007

amor azul




cola-me ao teu colo
tão
quente

...

de
amante

...

anjo-réu
...

ombro meu

colo ausente


de josé rodrigues
in "amoroso" de josé viale moutinho


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

quinta-feira, 5 de abril de 2007

amor roxo


"por mais que procurem 1"
de benedita kendall


Francisco enxugou a face ao jornal.
Acolhera-se a casa. Sofá da pele.
A própria.
Regressara da redacção.
Jornalista de pasquim.
Só.


“Estou cansada!”


Claro! A trabalho igual, cansaço igual!

Que chatice! Cansado por cansado,
estoirava na cama. Adormeceria de lado.

De
frente. Caído por baixo. Saído de cima.
Importa?


Mas não!

Rodeado de nada, pegou no jornal.

E leu-se...

Uma fotografia nítida.

De bruços. Saias subidas.
“Morta por ciúme!”

Macabro? Não! Uma cabra!
Bastava a legenda
e o título.

"Jornalista..."
Riu-se!
"Profissão
de puta!"

Olhou a mulher. A sua?

Apetecia.
Subiu a mão quente.
Lenta.

Resposta rápida.
Fria.


“Estou cansada! Outro dia!”


Não insistiria.

Frustrado, dobrou-se.

Afagou o telecomando.
Acariciou o botão.
Zap. Publicidade.
Zap. Telenovela.
Zap. Mais de nada.
Nada de nada... não!
Um automóvel hondeado.
Uma mulher ondulada.

As coxas firmes.
As mamas cheias.


“Estou cansada!
Outro dia!
Hoje não!”


Parvo!
Porque insistia?
Escusava de ouvir
.
Disco de vinil.
Riscado.


Frustrado.
Uma vez mais.
Mais um dia, menos um dia.

Outro dia!
Nada!


Adormeceria de lado.

De costas voltadas.
Lençol fresco.
Entre coxas.
Quentes.


"Outro dia! Estou cansada!”

Claro!
Porque não?

Porque tentava tantas vezes?
Não percebera ainda que a paixão tem limites?
Que os limites são a fronteira da violação?
De quem?
De quê?


“De nada!
Não me chateies!
Estou cansada!”


Daniel Sant'Iago

terça-feira, 3 de abril de 2007

amor vermelho


"sem título"
alberto péssimo (moçambique)


Solta a mola da roupa, não será por capricho

que vomitarei no lixo o metal da gaiola.
Desunido o encaixe, consumirei na fogueira
o pedaço de madeira podre que me coube.


Cinzas e restos dum testamento indigesto.

Daniel Sant'Iago

domingo, 1 de abril de 2007

amor negro


"árvore uterina"
de josé dos santos


Era uma vez uma gota.
De um cacto.
O deserto.

Era uma vez uma gota.
De mel e fel.
O inferno.

Era uma vez uma gota.
De veneno verde.
A morte.

Sabor a sal-gema.
Aroma a alfazema.
De perto.

Só uma gota.
Decerto!


Daniel Sant'Iago

sexta-feira, 30 de março de 2007

da sede

*

cede à sede e bebe

o que mata
não é ceder
não é beber
mas a sede

de lábios
em greta

bebi

sou
assassino da
sede
gota em esponja encharcada

Daniel Sant'Iago


* "25-year-old woman with
finger in a glass of wine"
de silvestre machado (brasil)

quarta-feira, 28 de março de 2007

ar_risco_s


"sem título"
de emerenciano


traço
uma linha contínua sob o indicador

ponte
entre dois pontos do teu corpo

esboço
de um romance por escrever


fragmentos
de sargaços na areia

riscos
dos roços sobre os ossos

poços a beber


Daniel Sant'Iago

segunda-feira, 26 de março de 2007

sou verbo subentendido



eu sol________ tu eira de aveia
eu álcool_____ tu veia de sereia
eu anzol______ tu teia de colmeia

eu mar________ tu nua e areia
eu pilar______ tu rua e aldeia
eu algar______ tu falua e candeia

eu língua_____ tu paladar e geleia
eu gazua______ tu olhar e ameia
eu grua_______ tu vagar e ceia

eu correia____ tu trégua e queixume
eu cheia______ tu frágua e lume
eu meia_______ tu charrua e gume

somos
eu e tu
tuta-e-meia


Daniel Sant'Iago

sábado, 24 de março de 2007

para um dia
de muito vento


*
vens do vale
vendaval
ventania de emoções
...
e
uiva
meu amor

*
"wind blown"
jennifer matla


(Este texto encontra-se publicado...

... no meu livro)

sexta-feira, 23 de março de 2007

num plano (muito) alto


huambo - angola

Os lugares e os momentos e as pessoas
marcam-me quando me seduzem e me amarram.

O Plan(o)alto, onde nasceu este blogue,
inicia, hoje, o terceiro ano de vida.

A O'sanji, sua criadora, os meus parabéns!

Daniel Sant'Iago

quarta-feira, 21 de março de 2007

Li


"romeu sem julieta"
diana costa


O nome.
Li.
Chinesa.


- Beba!
Bebi.

Sorriu.
Sorri.

Chá de jasmim.
Numa chávena.

Deu-ma com duas mãos.
Com duas mãos a colhi.

Serena.
Meiga.
Traços de amêndoa no olhar.

Li.
Um poema.

Às seis da tarde.
De certo 21 de Março.

Daniel Sant'Iago

terça-feira, 20 de março de 2007

só mais um zé


"the camel" de pablo picasso

José, escritor, afirmava, em entrevista, que
trocava o prémio que lhe conferiram os sábios da Academia por mais quinze anos
de vida, esperançado
de o ganhar durante esse espaço de tempo.

Confirmava que, todos os dias,
por inveja, o chamavam arrogante.

Sobre António, outro escritor seu contemporâneo, não gostava de o ler. Porque não. Que não gostava da sua escrita.
"Pronto!"

Não era rico apesar do tal prémio que lhe fora oferecido.
Mas que também não era pobre.

Remediado, digo eu!

lavei o olhar
entre o azul
do mar e do céu
entre o chumbo das nuvens e das águas
entre os borrifos das ondas de sete metros
esmagadas contra os rochedos e as falésias
ontem seriam três
da tarde no cabo carvoeiro

emporcalhara o olhar e a pele dos meus dedos
com tanta tralha que lera naquela entrevista
da página dois do semanário sol de dezoito
de novembro de dois mil e seis sábado

numa entrevista imprevista

Daniel Sant'Iago