"christmas" de paul gauguin
Domingo.De Março.Meio do dia.Chega da missa com as costas da mão direita
alapada aos rins.E um saco de plástico amarrotado, seguro pelas asas.Bate as botas no tapete da entrada.Salta-lhe o pó e um grito:
- Malditas cruzes!(que cruzes, avô, que cruzes?)- Aqui… não nas vês?
Não.Mas hoje sei.Porque as sinto embora ainda as não veja.Cruzes, canhoto! Após o almoço de sopa, pega pelas asas o tal saco.
De plástico.
Ainda e todo amarrotado.
A sachola c(r)avada no ombro.E sai: - Já te chamo.
Daniel Sant'Iago

Recorte de jornal amarelecido.
Notícia crua publicada em...
Não sei quando!
Não sei onde!
(Tão importante assim?)
"No Hospital de Belfast, Irlanda do Norte,
uma criança de 12 anos,Carol Kelly, morreu,
na passada terça-feira, devido às lesões de
balas de plástico..."Não me interessa o lugar...
(Porque não aqui?)Não me interessa a data...
(Porque não ontem?)Não me interessa o nome...
(Porque não Carolina?)Não me interessa o plástico...(Como se balas de plástico não matassem!)Tudo isto porque um menino me atirou,
meio a sorrir,
que aquele brinquedo empunhado... não matava...
não era a sério...
só plástico a fingir...não disparava...
não eram tiros...
só barulho...não comprara ele...
não chegavam as moedas do mealheiro...Foi há 25 anos?Ainda bem...
(Hoje já ninguém escarra assim!)Sou demagogo?Ainda bem...
(Sou o único que vegeta por aí!)
Deixem-me rir à gargalhada!
Bom Natal, Inácio!
Que no sapatinho da chaminéo teu "Pai Natal"
ou
o teu "Menino Jesus"
deixem, embrulhados em papel de jornal,
sonhos com sabores, aguarelas de cores,
verdazuis como o mar e o céu e a flor!
Se te derem uma arma
de plástico,
com gatilhos e balas
de plástico,
devolve-lhes em saco
de plástico,
com um presente mole
e de plástico.
Sujas as mãos mas vais rir à gargalhada!
Daniel Sant'Iago
"the son of man" de rené magritte
nego
que é certa a vida curta
nego
que a guerra mata à fome
nego
que o menino jesus é deus
nego
tudo
não nego
que sou
quem és
Daniel Sant'Iago
"nuda veritas" de gustav klimt
a amêndoa é semente
amara a que traguei
lançada à terra seca
apodrece e renasce a
árvore de flor clara
minha moura encantada
meus doces de amêndoa
meus olhos amendoados
na forma e na cor
raiados de avelãs
amarga
a amêndoa
que traguei
doces
os pinhões
que trinquei
duras
as nozes
que tenteei
Daniel Sant'Iago
quando fizeres de mim um pedinte
contentar-me-ei com dez migalhas
quando me negares essas migalhas
do pedinte nascerá um sem abrigo
faminto de trapos e da boca quente
do jazigo dum metro sobre farrapos
encobertos por desperdícios porcos
de óleo que pedinchei numa oficina
de motores esfregados com petróleo
não me impeças a sorte nem a faca
com que mate a fome ou morra frio
não quero mais que dez migalhas
para os vinte dias que faltam
para as prendas do meu e teu
Feliz Natal!
Daniel Sant'Iago
"as i opened fire"
roy lichtenstein
hoje
não me apetece
escrever sobre nada
Que tal sobre o fogo?
Não!
mas apetece-me gritar
Fogo! Fogo! Fogo!
Uivam mil sirenes.
Incêndios gelados.
Um tiro no escuro.
Também não!
só se escrevesse
sobre um fogo fogoso
sobre um fogo ofegante
sobre um fogo sufocante
Está bem!
Eu escrevo!
O fogo sentido
é doce
e
Não sou capaz!
Iria abrir fogo!
Atiçar as chamas!
Brincar com o fogo!
Não!
Hoje, não!
Hoje, não me apetece!
Hoje é Dia do Silêncio!
Hoje é o meu dia!
Só meu!
És minha, decisão?
Daniel Sant'Iago
"basic instinct"
na noite da última fila
numa sala de cinema
perto de ti
sentimo-nos
tu
vestida
e nua
eu
uma mão
a tua
Daniel Sant'Iago
"peachy keen" de phyl schokNão resisti à oferta dum pêssego, fruto do
teu pomar, carnudo, sumarento, rosáceo e
maduro, envolto em penugem sedosa que
acamei de cima a baixo e do centro
para os lados.
Rodei-o nas palmas das mãos.
E, juntando as unhas dos polegares - bem no alto,
bem no centro, onde secara o pedúnculo - e a
polpa dos dedos restantes em redor, abri-o
num golpe , de par em par, em dois
hemisférios por um meridiano
nascido dos polegares até
ao bico do fundo.
Escorreu o aroma do suco pelos dedos
e nas pontas sorvi-o gota a gota,
pingo a pingo.
Solto o caroço, suguei-o pela língua
ao céu-da-boca e volteei-o mil vezes
até senti-lo duro, grosso e limpo.
Foi então que, esfomeado, sedento e guloso
o devorei, pedaço a pedaço até o sabor
desaparecer em perfume.
Ao caroço enterrei-o no teu pomar na esperança de que,
no próximo ano, não precises de mo oferecer e eu o
possa colher sem ter que to pedir.Daniel Sant'Iago
"a loving hug" edward burne-jones
cuida de mim
não me cures
porque se me curares
deixas de te preocupar
comigo
que te afligia
porque se me cuidares
continuas a olhar
por mim
sem fim
Daniel Sant'Iago
"echo and narcissus" de j w waterhouse
do miradouro
apregoei a sul
Sou feliz!
da montanha
volveu o azul
Sou feliz!
entendipor fim
como é bom ter eco
mas
feliz
Daniel Sant'Iago
"coktail pour white sax"
pierre farel
Nem os teus nem os meus.
Nem os teus nem os meus teres.
Nem os nossos poderes e saberes.
Quem nos impede de romper
a teia cruel
o limite imposto
a grade assumida,
retraços entre ti e mim
naquele momento infinito
cela e selo duma inconfidência?
Mesmo que nos soltássemos à desfilada
numa correria louca e cavalgada infindável
assaltando montes montados rios e ribeiras
pertos e longes sobre obstáculo de soberba
no ténue limite cruel por nós fixado
chegado o tempo da decisão inadiável
de sorrir juntos ou sofrer separados
tu
eu sei que choras
eu
também e não só de madrugada
lágrimas contidas em cofre-segredo
para tarde ou cedo
nos aplacar a sede
Daniel Sant'Iago
"opposition of lines red and yellow"
piet mondrian
quando assumo
tomo como meu um erro ou uma posição
tomo consciência dum acto que cometi
quando me contradigo
não digo o que penso
não faço o que digo
não ajo como penso
quando assumo uma contradição
tomo como minha a incoerência
E depois?
assumo a incoerência
está assumida
acabou!
ou
assumo a incoerência
e afinal
eu quem sou?
assumir uma contradição é em si a contradição
ou faço por esquecer ou sou novelo sem pontas
Como é possível ser sem viver em contradição?
Sim!
É possível desde que sofras.
O sofrimento foi a nossa solução!
Daniel Sant'Iago

"seduction"
natalie savard
Acordar-te-ei pela madrugada. Que não é noite nem manhã.
Só se dorme de noite. De olhos às escuras. Só se acorda
de manhã para a lufa-lufa.
As insónias são para as madrugadas.
Numa madrugada, depois de amar, vamos ver o nascer do sol.
Do alto do monte. Embrulhados num único cobertor.
Contigo não se morre de tédio.
Não morrerás de tédio.
Mas a sorrir. “Espera por mim. Não me demoro. Só o tempo de deixar
rolar uma única lágrima. Suspirar bem fundo uma vez.
Até já?” As palavras!
As minhas palavras!
Só aqui me doem. Junto de ti não preciso de sussurros.
Basta olharmo-nos.
Escrevemos cá dentro. Não sei bem onde. A fogo.
Palavras pirogravadas em lenha seca.
Aqui, basta que saiam. Que as leias.
Hoje, só tu as leste. São tuas somente.
Não vamos dormir, pois não?
Vamos amar toda a noite.
Com descansos pelo meio.
Fumar um cigarro.
Beber um copo.
Para continuar.
A amar.
A fumar.
E a beber.
Daniel Sant'Iago
"let's play ball" de jim dalyquero lembrar o miguel quando vestia calções
jogava ao pião
corria com o arco
saltava num avião desenhado aos quadrados no chão
Toca a aviar!
quero lembrar o miguel quando era puto
sem creches nem jardins de infância
estudante-trabalhador sem salário
menino de têpêcês em mochila-albarda
Toca a viar!
quero lembrar o miguel quando obedecia
vai apanhar erva pr'os coelhos
vai cortar as couves pr'os patos
vai levar a lavadura aos porcos
Toca a aviar!
Quero lembrar o miguel quando,
no dia seguinte, tremia:
- Não fiz os trabalhos de casa...
fui apanhar erva pr'os coelhos...
cortar as couves pr'os patos...
levar a lavadura aos porcos...
Toca a aviar!
quero lembrar o miguel o meu herói
quando o apressavam o pai e a mãe
e a professora para o trabalho de
criança-estudante sem salário porque
em troca davam-lhe o pão e a educação
se ele não se negasse a
apanhar a erva pr'os coelhos
cortar as couves pr'os patos
levar a lavadura aos porcos
fazer os trabalhos de casa
Toca a aviar!
"Tó Caviar" era a alcunha dum colega que,
entre as aulas da manhã e da tarde, almoçava uma-entrada-de-marisco-sopa-prato e
à-sobremesa-um-petisco:
de frutas e doces.
Toca a aviar, Miguel, toca a aviar!
Daniel Sant'Iago
"long live love"
niki de saint phalle
Amo-te!Estive prestes a deixar só assim. Sem mais nada porque é dia santo.forma verbal pronominalsujeito sub_entendidopredicado na pessoa primeiratu
a pessoa atingidacontinente e conteúdosignificante e significadofoneticamente emudecidasintacticamente uma roda
à dentadaamo-teum tanto tão pouco um simples tão difícilum fácil tão inútilum útil tão inutilizadoamo-teeu, D...tu, X...
Daniel Sant'Iago

"missing you"
franz heigl
vivas as saudades pois se matam
vis as saudades que nos matam
Morte violenta às saudades!
Desembainha o punhal.
Saliva-lhe a ponta.
Desnuda-te lenta.
Trespassa-te de lado a lado
pela carne viva
repetida
sôfrega
gemida.
Mortas as saudades, resta a languidez
do desfalecimento lento, lento e lento.
Sentiremos a paz
na morte violenta
das saudades!Daniel Sant'Iago
"the little thinghs" de april harrisonAceitei montar o cavalo do poder.
Mas, dada a falta de arte de montar toda a sela,
convincentes foram a queda e o empurrão do dorso
pelado do animal.
E, num ápice, passei de cavaleiro inseguro
a suja ferradura calcada.
agora sei que o meu poder tem a dimensão
dum grão de areia do deserto
e o peso dum leve ar num vendaval desfeito
e o fado do primeiro passo em longa caminhada
o meu poder é pequena coisa
um ar que lhe deu
uma agulha em palheiro
um bafo na aragem
um quase nada
o meu poder é
descalçar a ferradura
envenenar o ar da aragem
não dar o primeiro passo
e
a pequena coisa
quase nada
será
agulha na engrenagem
Daniel Sant'Iago
"blind feeling" de diana ong
Como posso aspirar à eternidade
se é constante a mudança?
Como ser num mundo de teres?
Como ser sem te ter?
Como negar a verdade
se não sei mentir?
Como não devorar-te
se tenho fome?
Como ocupar-te
se me pre_ocupas?
Como contemplar-te
se me cegaste?
Daniel Sant'Iago
"lips" de andy warhol
O desejo estalou num receio sofrido
e cego, pleno de justificações moralistas.
Instável,complicada e subtil despertaste,
de súbito, numa cena de ciúmes entre razões.
Não discuto as causas justas.
Chamo-te invejosa porque ciumenta.
Ciumenta, receias que alguém deseje
e se aposse dum bem que crês só teu.
Invejosa, desejas intensamente um bem
possuído por outro.
Sentimentos distintos, a inveja e o ciúme.
Mas um mesmo caminho de sentido inverso.
O ciúme é nome abstracto e masculino.
A inveja é nome abstracto e feminino.
Não há ciúme e inveja.
Há ciumentos e invejosos.
Daniel Sant'Iago
"shimmering madness" sandy skolung
... quando pela ternura da manhã
murmuras no segredo dum sussurro
que loucura
não foi noite
foi a água que se afogou
Daniel Sant'Iago